segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A PORTA


Não era brilhante.

Havia estudado, mas pouco. Havia procurado entender o mundo, mas isto era complexo demais, preferia sentar-se em um tôco de árvore e, no seu violão, dedilhar canções que nunca seriam ouvidas.

Na sua vida insípida encontrou alguém que o entendia. Não era linda, mas era doce. De sua boca saiam palavras que o deixavam feliz. Dizia que o amava.

Mas ele, não sabia amar. Por não sabê-lo a perdeu, e ao perdê-la enlouqueceu.

Vivia em espaços abandonados. Vivia dia após dia, não tinha uma perspectiva de um amanhã. Somente existia.

Já mais maduro, sujo e rôto, resolveu vagar pelo mundo. Como clandestino entrou em vagões de trens, entranhas de cargueiros, até em tanques vazios, onde se escondia e era transportado para lugares que nem sabia existirem.

Foi numa destas viagens que sofreu um acidente.

Era em uma estrada, em um passo íngreme, que o caminhão onde estava rolou ribanceira abaixo. De dentro de seu tanque ouviu o estrondo, rolou em seu bojo e se encontrou à beira de um rio, meio afundado, meio enterrado, Safou-se.

Não sabia onde estava.

A vegetação era densa, o local deserto. Embrenhou-se mata adentro.

O condutor do veículo havia falecido. Ele, ali, só, assustado, não sabia para onde ir. Mas seguiu em frente…
O caminhar foi longo, o tempo interminável, mas a noite já havia chegado quando avistou as ruínas de um templo. Supôs sê-lo pois assim se mostrava. Era de pedra, piramidal, enorme.

Já havia sido praticamente coberto pela densa vegetação. Nela, havia uma entrada. Nela uma porta, e esta parecia nova, recém pintada, em vermelho sangue.

Abriu-a. Surpreendeu-se com a leveza da mesma embora seu tamanho fosse descomunal. Havia luz no outro lado.

Não era uma floresta e sim um campo aberto iluminado por um sol intenso. Campos arados, bem tratados, cuidadosamente manipulados. Lembrou-se da cena. Parecia com algo que havia visto quando jovem, algo que lhe dizia ser de seu passado, quando ainda era útil, quando ainda tinha vontade de ser alguém.

No meio do trigo dourado a figura de uma mulher. Lembrou-se daquela que namorou. Parecia-se com ela, mas era mais linda, sorriso igual, olhar doce, o mesmo de sua doce criatura. Se era ela, era mais linda. Se era ela, pensou tê-la amado. Mas se nunca o havia feito, por que então sentia que era capaz de fazê-lo, agora, naquele estranho lugar?

Olhou para sí próprio e se viu mais jovem. Suas roupas eram as mesmas daquela época, sua disposição idêntica, sua vontade de viver mais intensa. Não era o ser que vagava pelo mundo. Era aquele que tocava a guitarra, só que desta vez, a tocava com notas divinas,  em sons que nunca pensou ser capaz de produzir.

Tentou entender o que se passara. Havia morrido? Por que a porta por onde passou não mostrava o outro lado da pirâmide? Somente alí estava, vermelha, solta no espaço, uma abertura de um nada para outro. Pensou em voltar, mas a porta não mais se abria. Achou melhor ficar, seguir em frente, atrás da bela garota que parecia chamá-lo, à distância.

Ao dela se aproximar achou que a amaria. Mas seu desdém por tudo prevalecia, não ligou para suas doces palavras, não ligou para sua beleza, não ligou para nada.

Seu idiótico ser comandava mais uma vez o seu destino. Seu inútil existir parecia tê-lo subordinado. Era o mesmo que havia sido. Era de novo mais jovem, mas não havia mudado quase nada. Somente sua música se manifestava como algo que jamais havia feito, como algo digno de se viver e levar em frente. Um chamado para uma vida melhor.

Mas sua mediocridade era intrínseca. Nela sucumbiu…

Viu o tempo passar diante de seus olhos. Viu-se mais velho, fazendo o mesmo que já havia feito. Em um célere compasso o relógio da vida desfilou tudo aquilo que havia sido, de novo, novamente sendo. Um déjà vu acelerado, quase instantâneo. Tão rapidamente se passou que se viu novamente, como um clandestino, no mesmo bojo do caminhão, na mesma estrada, na mesma rota, no mesmo acidente.

Saindo do desastre, meio na água, meio na lama, perdido e desnorteado, seguiu em frente, pela densa vegetação.

A mesma porta, a mesma pirâmide.

Vermelha porta, leve, convidativa. A luz intensa, o mesmo campo aberto.

Ao atravessá-la deparou-se com a bela diva. Ainda mais bela era, ainda mais doce. Ele, o mesmo, novamente mais novo, guitarra em punho, músicas divinas.

Mas novamente voltou a ser aquele que nada valia, novamente voltou a ver sua vida desfilar diante de seus olhos, num movimento quântico, instantâneo. Novamente envelheceu, inútil, idiota, perdido, abandonado.

E assim eternamente ficou, indo e voltando, a porta atravessando.

E assim ficou, eternamente, encontrando a bela criatura que mais bela ficava.

E assim descobriu ser capaz de amar, de não ser inútil, de poder existir.

E assim descobriu que havia morrido e no inferno que estava tudo se repetia, ad aeternum, num movimento perpétuo. Alí onde a amada estava era para ele inatingivel. Alí aprendeu a amar e sofrer por amor. Perdido no tempo, pensando no que teve, poderia ter e não teve.

Pensando na inutilidade de seu ser…

Pensando em seu próprio egoísmo…

No inferno pereceu.


domingo, 19 de novembro de 2017

ACORDAR DE UM ANJO

Acorde linda criatura…
Deixe teu olhar,
Cheio de ternura,
Meu coração entrar…

Acorde minha diva…
Sorria!
Me faça feliz,
Pois de amor quero morrer…

Acorde amada…
Deixe teu perfume,
Dizer que aqui estás…
Amar, amor, amar, morrer…

Sim, pois por ti vivo…
Por ti sonho…
Pelo teu amor existo.

E, sem teu amor, ninguém sou…

sábado, 18 de novembro de 2017

MEDO


Era escuro…muito escuro.

Não sabia se ia ou voltava. Alí estava, no negro espaço, no vazio tenebroso.

Havia sons. Intelegíveis…

Uma missa negra, um coral de vultos tétricos, disformes, estranhos, animalescos…Uma dança satânica.

Corvos, escorpiões, lacraias, aranhas gigantes, Negras como a noite, peludas, com seus olhos multifacetados à refletir o sangue que escorria das paredes, que em pôças alimentavam os seres da escuridão num louco frenesí disputando espaço para sorver o gelatinoso líquido.

Frio gelado e um calor infernal. O frio no ar, o calor no chão, nas paredes, no fogo negro que consumia tudo.

Ao fundo a porta. Salvação, talvez? Morte? O além?

As paredes mexiam. Tinham vida…

Braços, mãos em grotescas formas abriam um abraço satânico. Um pedido de entrega. A alma que os alimentaria na eternidade.

Era necessário fugir. Mas como?

As criaturas nojentas e fétidas subiam pelo seu corpo. Ao subir mordiam, despiam sua nojenta baba, derretiam a carne como queimaduras de um 
fogo insano. Corroiam…

Cães monstruosos…dentes aguçados, ensanguentados. O rosnar amedrontante, o pavor induzido, o horror gritante. Famélicas e grotescas criaturas…

Numa desabalada carreira, num movimento brusco onde somente o desespero explica, partiu para a porta. Meio aberta meio fechada…imensa, dobradiças de bronze, fecho em mil chaves….

Lutou para abrí-la. Sentiu sua carne partir. Já via os ossos de seus braços, de suas pernas. O sangue se turvou e enegreceu. A dor crescia na proporção do pavor devorante. O medo dominava a cena.

Quando a abriu, achou que não mais estava vivo. Mas ainda pensava. Pensamentos desconexos, aflitos, atordoados. Não havia sequência lógica. Não sabia onde estava mas lá estava. Não sabia porque veio mas lá chegou. Não sabia porque fugia, mas se o fazia é porque havia feito algo que o levou aquela louca sina. Seria um sonho?

Não, não era…

Era a verdade da vida mal vivida. Da vida de traições, de luxúria, de avareza. Era a vida dos sete pecados.

Sabia que os havia cometido. Todos e à todos. Tudo em todos. Pecados com requintes, exageros, sanhas assanhas, maldade perversa, impiedosas ações em piedosas criaturas.

Era mau.

Mas achava que medo não tinha. Isso era coisa de covardes, religiosos, infelizes que se controlavam para não errar pois acreditavam em serem puros. Mas pureza é coisa de fracos. E medo é para quem não é senhor de tudo. E ele achava que o era…senhor do tempo, do espaço, das criaturas, do tudo e até do nada.

Quando a atravessou, pensou ter se salvado. Havia luz no outro lado…

Mas o quadro era de um luminoso sangue que escorria, que engolfava. Do sangue que saia da boca de dragões horríveis e morféticos. Da essência do mal que envolvia tudo que se mexia.

Sentiu aquela gosma avermelhada descer por sua boca. O gosto era de fel. Um fel apodrecido que corroía suas entranhas.

Viu tudo o que havia feito. Com detalhes….

Viu suas maldades, seus vícios, sua calhordice, sua arrogância. Viu aqueles que achou que amou à sofrer sofrimentos indescritíveis por sua culpa. Viu a desgraça que fez.

Num piscar de olhos achou-se novamente onde tinha estado, naquela entrada…E, então sorriu…

Mas o fugaz sorriso logo se dissipou. Como num déjà vu eterno tudo se repetiu. E assim se fez, ad aeternum…

No inferno, eternamente ficou, e o medo dele se apoderou…

Era um político.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

HOJE

Acordei…zap pra cá, zap pra lá!
É dia da proclamação da república. E que república!
Repinica, me apita, corta fita, piripaque, zap-zap.
Uma república que nasceu golpista, golpe lá, golpe cá,
Mortadela com banguelas, bando de beringelas,
Pixulecos e outros trecos.
Liga o amigo, aliás num zap-zap,
“Vais ao clube?
O comendador e a marquesa vão…
E você?”
Hoje?
“Sim, hoje, quinta feira dia quinze de novembro!
Dia da proclamação desta geringonça…”
Mas hoje é quarta…
Então sai do quarto, vem na quarta, deixa a quinta,
“Mas vem
Senão não tem”

Amém…tá bem…
ORVALHO

A noite finda…

Aveludadas as montanhas brilham aos primeiros sinais do dia.

Pequenas gotas, diamantes à quebrar a luz do sol.

Folhas umedecidas, beijadas pelo orvalho doce.

Azul anil à surgir entre a bruma fosca.

Colorido, o mundo desperta…

Pássaros em seus vôos errantes,

Assistem um sol dolente acordar.

Trinados, ruídos de uma manha gentil,

Flores à tingir o mundo…

Em uma sinfonia divina,


O orvalho se despede.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A ESCADA


Acho que dormia. Destes sonos que parecem leves… mas são estranhos. Sonha-se sonhar ou sonha-se acordar, brincando com Morfeu, brincando com um espaço de coisas que não existem no mundo real. Mas que às vezes parecem reais, demais.

Escuro era, muito escuro. Parte destes novos filmes do Netflix, onde, de tão escuro, não se enxerga nada.

Mas sonhava…

Caminho de pedras largas, enormes, antigas. Caminho sem os lados, somente a trilha, longa, gasta pelo tempo, sulcada pelo andar de mil almas abandonadas num passeio interminável, pela eternidade…

Um portal gigante. Com seus cinco metros de altura e portas de quase um de largura. Trabalhado em ébano, talhado em volutas geométricas, irracionais. Mas tinha um aspecto solene, lúgubre, sombrio.

Abriu-se num estalar agudo, quebrado pelas dobradiças enferrujadas, dissonantes, estridentes. Abriu-se totalmente deixando ver o escuro mais denso de seu outro lado. Uma escadaria larga, em pedras inteiras, sujas pelo limo dos tempos, enegrecida pela escuridão, envolvida em plantas deletérias e cansadas.

A escada era interminável. Descia, no seu início, subia na sua sequência, bifurcava de vez em quando, não dizia para onde ia. Acho que só ia, não voltava.

O negro horizonte não deixava ver seu fim. A escuridão densa, enevoada, triste, não trazia a paz. Trazia um medo mudo. Sem gritos de horror que a horrorosa cena pedia. Sem som, sequer o barulho dos passos nas densas lajes. Mas o esganiçado grito de gralhas se fazia sentir… porém não ouvir… Gralhas negras como a escuridão, olhos acesos, avermelhados. Bicos, se os tinham, deveriam ser enormes, prontos para despedaçar o que desejavam devorar.

E a escada, continuava…

Já havia subido e descido. Já havia parado para ver o que existia a seu lado. 

Nada…somente o nada. Um nada que brilhava como o ébano da porta, negro em sua alma. À esquerda fui, à direita volví, em frente seguí. Marchava, em cadência correta, de uns e dois, ritmada, sequente, em frente, sempre em frente. Não terminava nunca, pois existia em um mundo que nunca existiu, num nada que se dizia tudo, mas nada era, Num escuro de noite negra, de pinceladas rôtas em um quadro invisível.

O que era visível não se via, o que era negro não se coloria, o que era escuro não clareava.

Mas a escada interminável, incansável, inexorável, lá estava…continuava.

Se era um sonho em que se sonha como acordado se estivesse, alí estava, meio lá e meio cá. Mas estava, e se estava, podia sentir o macio dos aveludados tecidos que me cobriam. Tecidos que também eram negros, mas aconchegantes. No sonho louco me sentí mais louco. No sonho que sonhava, me sentí mais acordado. No acordado que achava estar, me sentia apavorado.

Pavor de fim não encontrado. Pavor de fim alí achado. Desesperado…

Acordei…

Molhado de suor, frio, gelado. Olhei para todos os lados, apalpei os lençois macios, tentei descobrir onde estava. Não achei nada. Não havia paredes, não havia nada…

Não... não acordei… em outro sonho estava, também negro.

Só não existia a escada…


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

VISÍVEL, INVISÍVEL




Não mais a via, mas era visível. Ou seria invisível se realmente visível não estivesse.

Estava, em minha mente, no retrato à cabeceira, no vazio da cama, no álbum de recordações.

Sempre fora visível, uma doce aparição, real, quase de fato, quando de fato já teria sido, e foi... Mas era, na realidade de agora, invisível. Pois visível havia sido, hoje não mais…

Ver e não enxergar. Ver e sentir, sentir sem tocar, sem perceber, sem acontecer.

O tempo é finito, somente infinito quando existe no relativo do universo. Mas, para os que somente vêm quando alí está, é finito, pois se não é visto, é invisível, se é invisivel, não se enxerga.

Hoje, invisível é. Hoje não a vejo, mas sei que lá está. Então a vejo em meu coração…

Mas no visível da vida um outro amor, real, visível de fato, chega, e ao chegar, ocupa o espaço, a mente, o novo porta-retrato. Visível fica e visível é.

Então o invisível passa o tempo, na prateleira da saudade e o visível ocupa o abraço apertado. Na mente, saudosa por não ver o invisível e ver o visível, me perco de amores, me acho nos desejos, passados e presentes…me encontro…

Nos sonhos vejo tudo…

Até o invisível.



domingo, 12 de novembro de 2017

OS QUATRO VENTOS


Vento Sul…frio, chegas forte, levas o sol…
Me deixas cinza, chuva fina, triste sina.
Vento bravo, ficas leve, deixe meu coração
Partir contigo, jogai-me ao chão…

Vento Leste, fostes pro Oeste,

Trazes tempestades, molhas minh’alma,
Que perdida em seu turbilhão,
Canta triste, uma só canção…

Vento Oeste, fostes Leste,
És mais doce, em nuvens de algodão.
Pintas o mundo, mas ainda és triste…
Pois cinza é tua cor, sem ela, não existes…

Vento Norte, que de sol tu brincas…
Em gordas nuvens tu te escondes.
Roubas meu amor…

Mas me enches de calor…

sábado, 11 de novembro de 2017

PENAS ?

Penas coloridas, reluzentes, fofas, macias…
Pena que não são minhas…
São penas de outras lindas criaturas,
Que penam, em um mundo depenado.
Que pena!...

Penas que não são cumpridas e penas que compridas são.
Penas de apenados em pais sem pena dos depenados.
Penas leves, pesadas para os que sem pena de nada,
Depenam tudo…
Pelados sem penas ficamos, peludos com penas somos.

Apenas as penas que no arco iris se confundem,
Penas que Ícaro perdeu, no seu vôo empinado, emplumado…
Penas que não são penas mas…
Penas que penas são…
Apenas neste mundo cão !


Long Ago

The Queen and the fans

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

GRAY MORNING



The sky is pallid.
Strokes of paint with no color…
The mist reigns over mountains,
Where sadness is present.

I could find joy,
Joy of understanding,
That sad mornings, makes you gray…
And pale clouds ask for rain.

Rain, like tears from my eyes…
Rivers that drown my sight…
With sadness that takes my heart,
And make me cry…




Marcia, the girl from Mars

The Architect's Girl Friend