MEDO
Era escuro…muito escuro.
Não sabia se ia ou voltava. Alí estava, no negro
espaço, no vazio tenebroso.
Havia sons. Intelegíveis…
Uma missa negra, um coral de vultos tétricos,
disformes, estranhos, animalescos…Uma dança satânica.
Corvos, escorpiões, lacraias, aranhas gigantes, Negras
como a noite, peludas, com seus olhos multifacetados à refletir o sangue que
escorria das paredes, que em pôças alimentavam os seres da escuridão num louco
frenesí disputando espaço para sorver o gelatinoso líquido.
Frio gelado e um calor infernal. O frio no ar, o
calor no chão, nas paredes, no fogo negro que consumia tudo.
Ao fundo a porta. Salvação, talvez? Morte? O além?
As paredes mexiam. Tinham vida…
Braços, mãos em grotescas formas abriam um abraço
satânico. Um pedido de entrega. A alma que os alimentaria na eternidade.
Era necessário fugir. Mas como?
As criaturas nojentas e fétidas subiam pelo seu
corpo. Ao subir mordiam, despiam sua nojenta baba, derretiam a carne como
queimaduras de um
fogo insano. Corroiam…
Cães monstruosos…dentes aguçados, ensanguentados.
O rosnar amedrontante, o pavor induzido, o horror gritante. Famélicas e
grotescas criaturas…
Numa desabalada carreira, num movimento brusco
onde somente o desespero explica, partiu para a porta. Meio aberta meio fechada…imensa,
dobradiças de bronze, fecho em mil chaves….
Lutou para abrí-la. Sentiu sua carne partir. Já
via os ossos de seus braços, de suas pernas. O sangue se turvou e enegreceu. A
dor crescia na proporção do pavor devorante. O medo dominava a cena.
Quando a abriu, achou que não mais estava vivo.
Mas ainda pensava. Pensamentos desconexos, aflitos, atordoados. Não havia sequência
lógica. Não sabia onde estava mas lá estava. Não sabia porque veio mas lá
chegou. Não sabia porque fugia, mas se o fazia é porque havia feito algo que o
levou aquela louca sina. Seria um sonho?
Não, não era…
Era a verdade da vida mal vivida. Da vida de traições,
de luxúria, de avareza. Era a vida dos sete pecados.
Sabia que os havia cometido. Todos e à todos. Tudo
em todos. Pecados com requintes, exageros, sanhas assanhas, maldade perversa,
impiedosas ações em piedosas criaturas.
Era mau.
Mas achava que medo não tinha. Isso era coisa de
covardes, religiosos, infelizes que se controlavam para não errar pois
acreditavam em serem puros. Mas pureza é coisa de fracos. E medo é para quem não
é senhor de tudo. E ele achava que o era…senhor do tempo, do espaço, das criaturas,
do tudo e até do nada.
Quando a atravessou, pensou ter se salvado. Havia
luz no outro lado…
Mas o quadro era de um luminoso sangue que
escorria, que engolfava. Do sangue que saia da boca de dragões horríveis e morféticos.
Da essência do mal que envolvia tudo que se mexia.
Sentiu aquela gosma avermelhada descer por sua
boca. O gosto era de fel. Um fel apodrecido que corroía suas entranhas.
Viu tudo o que havia feito. Com detalhes….
Viu suas maldades, seus vícios, sua calhordice,
sua arrogância. Viu aqueles que achou que amou à sofrer sofrimentos indescritíveis
por sua culpa. Viu a desgraça que fez.
Num piscar de olhos achou-se novamente onde tinha
estado, naquela entrada…E, então sorriu…
Mas o fugaz sorriso logo se dissipou. Como num déjà vu eterno tudo se repetiu. E assim se
fez, ad aeternum…
No inferno, eternamente ficou, e o medo dele se
apoderou…
Era um político.




Credo papis, don’t beat around the bush, say it like it is huh? 😳
ResponderExcluirif you wish...
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