sábado, 18 de novembro de 2017

MEDO


Era escuro…muito escuro.

Não sabia se ia ou voltava. Alí estava, no negro espaço, no vazio tenebroso.

Havia sons. Intelegíveis…

Uma missa negra, um coral de vultos tétricos, disformes, estranhos, animalescos…Uma dança satânica.

Corvos, escorpiões, lacraias, aranhas gigantes, Negras como a noite, peludas, com seus olhos multifacetados à refletir o sangue que escorria das paredes, que em pôças alimentavam os seres da escuridão num louco frenesí disputando espaço para sorver o gelatinoso líquido.

Frio gelado e um calor infernal. O frio no ar, o calor no chão, nas paredes, no fogo negro que consumia tudo.

Ao fundo a porta. Salvação, talvez? Morte? O além?

As paredes mexiam. Tinham vida…

Braços, mãos em grotescas formas abriam um abraço satânico. Um pedido de entrega. A alma que os alimentaria na eternidade.

Era necessário fugir. Mas como?

As criaturas nojentas e fétidas subiam pelo seu corpo. Ao subir mordiam, despiam sua nojenta baba, derretiam a carne como queimaduras de um 
fogo insano. Corroiam…

Cães monstruosos…dentes aguçados, ensanguentados. O rosnar amedrontante, o pavor induzido, o horror gritante. Famélicas e grotescas criaturas…

Numa desabalada carreira, num movimento brusco onde somente o desespero explica, partiu para a porta. Meio aberta meio fechada…imensa, dobradiças de bronze, fecho em mil chaves….

Lutou para abrí-la. Sentiu sua carne partir. Já via os ossos de seus braços, de suas pernas. O sangue se turvou e enegreceu. A dor crescia na proporção do pavor devorante. O medo dominava a cena.

Quando a abriu, achou que não mais estava vivo. Mas ainda pensava. Pensamentos desconexos, aflitos, atordoados. Não havia sequência lógica. Não sabia onde estava mas lá estava. Não sabia porque veio mas lá chegou. Não sabia porque fugia, mas se o fazia é porque havia feito algo que o levou aquela louca sina. Seria um sonho?

Não, não era…

Era a verdade da vida mal vivida. Da vida de traições, de luxúria, de avareza. Era a vida dos sete pecados.

Sabia que os havia cometido. Todos e à todos. Tudo em todos. Pecados com requintes, exageros, sanhas assanhas, maldade perversa, impiedosas ações em piedosas criaturas.

Era mau.

Mas achava que medo não tinha. Isso era coisa de covardes, religiosos, infelizes que se controlavam para não errar pois acreditavam em serem puros. Mas pureza é coisa de fracos. E medo é para quem não é senhor de tudo. E ele achava que o era…senhor do tempo, do espaço, das criaturas, do tudo e até do nada.

Quando a atravessou, pensou ter se salvado. Havia luz no outro lado…

Mas o quadro era de um luminoso sangue que escorria, que engolfava. Do sangue que saia da boca de dragões horríveis e morféticos. Da essência do mal que envolvia tudo que se mexia.

Sentiu aquela gosma avermelhada descer por sua boca. O gosto era de fel. Um fel apodrecido que corroía suas entranhas.

Viu tudo o que havia feito. Com detalhes….

Viu suas maldades, seus vícios, sua calhordice, sua arrogância. Viu aqueles que achou que amou à sofrer sofrimentos indescritíveis por sua culpa. Viu a desgraça que fez.

Num piscar de olhos achou-se novamente onde tinha estado, naquela entrada…E, então sorriu…

Mas o fugaz sorriso logo se dissipou. Como num déjà vu eterno tudo se repetiu. E assim se fez, ad aeternum

No inferno, eternamente ficou, e o medo dele se apoderou…

Era um político.


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