terça-feira, 14 de novembro de 2017

A ESCADA


Acho que dormia. Destes sonos que parecem leves… mas são estranhos. Sonha-se sonhar ou sonha-se acordar, brincando com Morfeu, brincando com um espaço de coisas que não existem no mundo real. Mas que às vezes parecem reais, demais.

Escuro era, muito escuro. Parte destes novos filmes do Netflix, onde, de tão escuro, não se enxerga nada.

Mas sonhava…

Caminho de pedras largas, enormes, antigas. Caminho sem os lados, somente a trilha, longa, gasta pelo tempo, sulcada pelo andar de mil almas abandonadas num passeio interminável, pela eternidade…

Um portal gigante. Com seus cinco metros de altura e portas de quase um de largura. Trabalhado em ébano, talhado em volutas geométricas, irracionais. Mas tinha um aspecto solene, lúgubre, sombrio.

Abriu-se num estalar agudo, quebrado pelas dobradiças enferrujadas, dissonantes, estridentes. Abriu-se totalmente deixando ver o escuro mais denso de seu outro lado. Uma escadaria larga, em pedras inteiras, sujas pelo limo dos tempos, enegrecida pela escuridão, envolvida em plantas deletérias e cansadas.

A escada era interminável. Descia, no seu início, subia na sua sequência, bifurcava de vez em quando, não dizia para onde ia. Acho que só ia, não voltava.

O negro horizonte não deixava ver seu fim. A escuridão densa, enevoada, triste, não trazia a paz. Trazia um medo mudo. Sem gritos de horror que a horrorosa cena pedia. Sem som, sequer o barulho dos passos nas densas lajes. Mas o esganiçado grito de gralhas se fazia sentir… porém não ouvir… Gralhas negras como a escuridão, olhos acesos, avermelhados. Bicos, se os tinham, deveriam ser enormes, prontos para despedaçar o que desejavam devorar.

E a escada, continuava…

Já havia subido e descido. Já havia parado para ver o que existia a seu lado. 

Nada…somente o nada. Um nada que brilhava como o ébano da porta, negro em sua alma. À esquerda fui, à direita volví, em frente seguí. Marchava, em cadência correta, de uns e dois, ritmada, sequente, em frente, sempre em frente. Não terminava nunca, pois existia em um mundo que nunca existiu, num nada que se dizia tudo, mas nada era, Num escuro de noite negra, de pinceladas rôtas em um quadro invisível.

O que era visível não se via, o que era negro não se coloria, o que era escuro não clareava.

Mas a escada interminável, incansável, inexorável, lá estava…continuava.

Se era um sonho em que se sonha como acordado se estivesse, alí estava, meio lá e meio cá. Mas estava, e se estava, podia sentir o macio dos aveludados tecidos que me cobriam. Tecidos que também eram negros, mas aconchegantes. No sonho louco me sentí mais louco. No sonho que sonhava, me sentí mais acordado. No acordado que achava estar, me sentia apavorado.

Pavor de fim não encontrado. Pavor de fim alí achado. Desesperado…

Acordei…

Molhado de suor, frio, gelado. Olhei para todos os lados, apalpei os lençois macios, tentei descobrir onde estava. Não achei nada. Não havia paredes, não havia nada…

Não... não acordei… em outro sonho estava, também negro.

Só não existia a escada…


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