A
PORTA
Não era brilhante.
Havia estudado, mas pouco. Havia procurado entender o
mundo, mas isto era complexo demais, preferia sentar-se em um tôco de árvore e,
no seu violão, dedilhar canções que nunca seriam ouvidas.
Na sua vida insípida encontrou alguém que o entendia. Não
era linda, mas era doce. De sua boca saiam palavras que o deixavam feliz. Dizia
que o amava.
Mas ele, não sabia amar. Por não sabê-lo a perdeu, e ao
perdê-la enlouqueceu.
Vivia em espaços abandonados. Vivia dia após dia, não
tinha uma perspectiva de um amanhã. Somente existia.
Já mais maduro, sujo e rôto, resolveu vagar pelo mundo.
Como clandestino entrou em vagões de trens, entranhas de cargueiros, até em
tanques vazios, onde se escondia e era transportado para lugares que nem sabia
existirem.
Foi numa destas viagens que sofreu um acidente.
Era em uma estrada, em um passo íngreme, que o caminhão
onde estava rolou ribanceira abaixo. De dentro de seu tanque ouviu o estrondo,
rolou em seu bojo e se encontrou à beira de um rio, meio afundado, meio
enterrado, Safou-se.
Não sabia onde estava.
A vegetação era densa, o local deserto. Embrenhou-se mata
adentro.
O condutor do veículo havia falecido. Ele, ali, só,
assustado, não sabia para onde ir. Mas seguiu em frente…
O caminhar foi longo, o tempo interminável, mas a noite já
havia chegado quando avistou as ruínas de um templo. Supôs sê-lo pois assim se
mostrava. Era de pedra, piramidal, enorme.
Já havia sido praticamente coberto pela densa vegetação.
Nela, havia uma entrada. Nela uma porta, e esta parecia nova, recém pintada, em
vermelho sangue.
Abriu-a. Surpreendeu-se com a leveza da mesma embora seu
tamanho fosse descomunal. Havia luz no outro lado.
Não era uma floresta e sim um campo aberto iluminado por
um sol intenso. Campos arados, bem tratados, cuidadosamente manipulados. Lembrou-se
da cena. Parecia com algo que havia visto quando jovem, algo que lhe dizia ser
de seu passado, quando ainda era útil, quando ainda tinha vontade de ser alguém.
No meio do trigo dourado a figura de uma mulher. Lembrou-se
daquela que namorou. Parecia-se com ela, mas era mais linda, sorriso igual,
olhar doce, o mesmo de sua doce criatura. Se era ela, era mais linda. Se era
ela, pensou tê-la amado. Mas se nunca o havia feito, por que então sentia que
era capaz de fazê-lo, agora, naquele estranho lugar?
Olhou para sí próprio e se viu mais jovem. Suas roupas
eram as mesmas daquela época, sua disposição idêntica, sua vontade de viver mais
intensa. Não era o ser que vagava pelo mundo. Era aquele que tocava a guitarra,
só que desta vez, a tocava com notas divinas, em sons que nunca pensou ser capaz de
produzir.
Tentou entender o que se passara. Havia morrido? Por que
a porta por onde passou não mostrava o outro lado da pirâmide? Somente alí
estava, vermelha, solta no espaço, uma abertura de um nada para outro. Pensou
em voltar, mas a porta não mais se abria. Achou melhor ficar, seguir em frente,
atrás da bela garota que parecia chamá-lo, à distância.
Ao dela se aproximar achou que a amaria. Mas seu desdém por
tudo prevalecia, não ligou para suas doces palavras, não ligou para sua
beleza, não ligou para nada.
Seu idiótico ser comandava mais uma vez o seu destino.
Seu inútil existir parecia tê-lo subordinado. Era o mesmo que havia sido. Era
de novo mais jovem, mas não havia mudado quase nada. Somente sua música se
manifestava como algo que jamais havia feito, como algo digno de se viver e levar
em frente. Um chamado para uma vida melhor.
Mas sua mediocridade era intrínseca. Nela sucumbiu…
Viu o tempo passar diante de seus olhos. Viu-se mais
velho, fazendo o mesmo que já havia feito. Em um célere compasso o relógio da
vida desfilou tudo aquilo que havia sido, de novo, novamente sendo. Um déjà vu acelerado, quase instantâneo. Tão
rapidamente se passou que se viu novamente, como um clandestino, no mesmo bojo
do caminhão, na mesma estrada, na mesma rota, no mesmo acidente.
Saindo do desastre, meio na água, meio na lama, perdido e
desnorteado, seguiu em frente, pela densa vegetação.
A mesma porta, a mesma pirâmide.
Vermelha porta, leve, convidativa. A luz intensa, o mesmo
campo aberto.
Ao atravessá-la deparou-se com a bela diva. Ainda mais
bela era, ainda mais doce. Ele, o mesmo, novamente mais novo, guitarra em
punho, músicas divinas.
Mas novamente voltou a ser aquele que nada valia,
novamente voltou a ver sua vida desfilar diante de seus olhos, num movimento quântico,
instantâneo. Novamente envelheceu, inútil, idiota, perdido, abandonado.
E assim eternamente ficou, indo e voltando, a porta atravessando.
E assim ficou, eternamente, encontrando a bela criatura
que mais bela ficava.
E assim descobriu ser capaz de amar, de não ser inútil,
de poder existir.
E assim descobriu que havia morrido e no inferno que
estava tudo se repetia, ad aeternum, num
movimento perpétuo. Alí onde a amada estava era para ele inatingivel. Alí
aprendeu a amar e sofrer por amor. Perdido no tempo, pensando no que teve,
poderia ter e não teve.
Pensando na inutilidade de seu ser…
Pensando em seu próprio egoísmo…
No inferno pereceu.




Nenhum comentário:
Postar um comentário