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quarta-feira, 29 de julho de 2020
segunda-feira, 27 de julho de 2020
quarta-feira, 22 de julho de 2020
segunda-feira, 20 de julho de 2020
domingo, 21 de junho de 2020
A BELA DO QUARTO AO LADO
( o quarto de
duas dimensões )
Cleveland, numa noite fria de inverno.
O frio em Cleveland é cruel. Dois ou três minutos fora de casa e congela-se
um nariz, uma orelha.
O aquecimento à vapor nos deixava esquecer quão frio era. Estava eu enfurnado no quarto de TV. Ficava
ao fim do corredor. No seu início estava o quarto de minha bela filha, cuja
porta abria-se bem em frente a esse corredor.
Preparava-se ela para sair, ía e voltava ao espelho. Minha mulher estava em nosso quarto, ao lado do dela.
Uma breve palavra, um gesto rápido e se despediu da mãe descendo as
escadas. “Estou saindo.Vou
ao cinema, volto logo”.
Quase que imediatamente após, esta
sai do quarto e atravessando o corredor
entrou no de nosso outro filho . Eu continuava à
assistir um programa. Em poucos
segundos conscientizou-se de haver visto algo insólito, notando que alguma coisa se movia no quarto da filha.
Achou que talvez ainda não tivesse partido, mas como poderia ser? Ela a havia visto descer
as escadas para sair....
Resolveu dar uma espiada. Estava
demorando demais, iria perder o filme. Levantou-se olhou para a porta aberta e... lá
estava ela. Esta, olhando
para ela moveu-se em direção ao banheiro, ocultando-se...
A aparência era a mesma da filha. O mesmo pijama velho, já cinza,
de tantas lavagens com cores misturadas, produto normal da vida
universitária americana. Era seu preferido. Por que
estaria alí, de pijama, outra vez?
Perguntou: “ Ainda não foi? Por quê mudou de roupa?”
Não havendo resposta, intrigada aproximou-se da porta. Viu de novo a moça,
desaparecendo dentro do
banheiro. Mas não era ela...ao fixar os
olhos viu outra mulher, que ao
ser fitada atravessou a porta fechada e desapareceu.
Voltou correndo e esbaforida, tentando explicar o inexplicável. Confundiu-se toda. Achou que seria uma
mensagem, um aviso. Ficou nervosa e somente se acalmou quando ela voltou, mais
tarde, sã e salva.
O quarto se portava como uma porta para outra dimensão. Nela, no
presente, vivia nossa
filha. Nela, em outra dimensão a moça que morava naquela casa, em outro
mundo. Uma porta quântica se abriu, dois mundos paralelos coexistiram por um
instante.
A visão da mãe, sua reação, sua estupefação foi registrada por mim.
Havia também ouvido as perguntas que havia feito. Havia visto quando foi ao
quarto e voltou assustada. Havia também pressentido a presença de alguém
naquele momento.
Naquela casa , às vezes, sentia-se o passado e o presente ao mesmo tempo.
Era como se vivêssemos em duas casas diferentes. Uma nesta dimensão. A outra,
nos sonhos, nas aparições inexplicáveis. Todas elas benéficas, nenhuma assustadora, felizmente...
sexta-feira, 5 de junho de 2020
A CÂMARA DO TEMPO
CAPÍTULO UM
O PAPIRO
Era um dia enevoado.
A neblina espessa trazia imagens de um passado londrino há 150
anos atrás.
Havia uma certa tristeza em ver a demolição de Shottle Bop.
Linda edificação do século XVII. Ornada, em uma esquina, dois andares, típica
de uma Londres de outrora.
Peter Stonehenge sabia disto.
Pelos últimos 20 anos lá estava, toda vez que vinha àquela
ilha, para um drink às 17 horas, um folhear pelos livros antigos, um encontrar
com o que restava dos grandes exploradores do Império Britânico.
Shottle Bop era um anagrama de Bottle Shop. Uma casa de surpresas,
entre shots de maltes irlandeses e
antiguidades estranhas. De livros de bruxas à papiros egípcios, de exemplares
de penny dreadful à ferramentas usadas em seus contos sanguinários. A faca de
Jack, o Estripador, a navalha de Todd Sweeney, o barbeiro demoníaco de Fleet
Street, pipetas de Dr. Frankenstein, livros de encantamento e até originais de
manuscritos ilustrados por monges da idade média.
Dr. Stonehange sabia que seria a última vez que veria seu
local favorito.
A gigantesca bola de ferro fundido usada em demolições oscilou
como um pêndulo impiedoso. Um barulho surdo de tijolos, o esganiçar de lascas
de madeira estalando e, em poucos segundos, simplesmente uma pilha de amorfas peças
do que outrora fora o ponto de encontro “con
gusto”, conforme dito pelos antigos arqueólogos frequentadores. A poeira se
levantou…no rolar do que restou do magnífico prédio notou, a seus pés, um olho
de falcão em cristal e ônix… o olho de Horus. Colocou-o em seu bolso pensando…nada
existe por acaso…
Lembrou-se que havia ali estado no verão passado. Comprara um
dos livros feitos à mão pelos monges de um monastério grego. Nele havia citações
sobre uma estranha sala ainda não encontrada na piramide de Gizé. Pensou em ali
voltar e tentar achar o papiro mencionado no tal livro. Os monges tinham feito
um segundo e misterioso exemplar dando continuidade ao mistério egípcio. Felizmente
havia chegado um dia antes da data marcada. Foi o tempo necessário para um
ultimo shot de Glenfiddish de 50
anos. Uma jóia, diretamente de uma barrica, a de número 27 e, acima dela, em uma
prateleira empoeirada, lá estava o outro exemplar dos mesmos monges. Ali, na
prateleira, “for the take”…
Comprou-o bem como o restante do precioso malte.
Soube então que seu favorito “hang out” estava fadado à demolição.
Tudo muda neste mundo de hoje, até a alma tradicional dos britânicos,
talvez o último dos povos a sucumbir às trivialidades do mundo moderno. Ele, um
arqueólogo, sabia disto mais do que ninguém.
Peter Stonehenge formou-se em arqueologia em Yale. Era
estudioso. Embora conhecedor de paleontologia em detalhes, gostava mesmo era de
egiptologia. O Peabody Museum era para ele uma fonte inesgotável. Ao longo dos
anos explorações patrocinadas pela universidade havia gerado um acervo incalculável,
não somente material mas também intelectual, através de seus eméritos professores.
Dr. Stonehenge os tinha como mentores queridos.
Stonehenge não era casado. A mulher que sempre amou faleceu em
um acidente. Nunca amou de novo.
Amava sim, arqueologia. Os livros que descobrira traziam algo
nunca antes explorado…Traziam indagações para as quais ainda não havia
respostas.
Parou por um segundo, de seu container de prata bebeu um gole do precioso single malt e, fazendo uma última homenagem à querida Shottle Bop,
voltou ao seu quarto de hotel.
Não quiz esperar por nada. Assim que chegou abriu o livro.
Folheava suas deliciosas páginas cheias de desenhos em carmim e ouro. Entre
citações gregas e romanas encontrou, em sua página 126 um texto em hieróglifos.
Junto, um pedaço de um papiro, nele figuras de Hórus, em ouro, o Deus falcão, homem-falcão, Deus do céu. Os cartuchos continham Hórus duplamente, e isso era uma novidade. Hórus em dupla refletia Khufu ou Quéops, o grande e implacável faraó que reinou entre 2589 a.c. a 2566 a.c. Olhou para sua mão esquerda. Seus dedos brincavam com o olho do falcão, amuleto favorito dos reis egípcios e pensou…
“Por quê Khufu e duas imagens de Hórus? Por quê tinha o
amuleto? O acaso existe?”
CAPÍTULO DOIS
O ENIGMA DE HÓRUS
Hórus o Deus homem, o falcão dos céus, tinha seu corpo composto
por matérias preciosas. Era dotado de um poder de transformação. Diziam que suas
lágrimas poderiam gerar o surgimento de seres e minerais. Em sua forma maior
era Ra, o Deus Sol, quando ostentava o disco de ouro sobre sua cabeça.
Hórus era filho de Osíris e Ísis. Seus olhos representavam o
sol e a lua. Perdeu um deles, o olho da lua, em batalha contra Set. O olho da
lua era usado como amuleto nas coroas dos faraós. Aquele, em suas mãos, era
certamente de uma coroa faraônica. O olho mítico continha poderes
sobrenaturais.
“Mas por quê Hórus estava presente no cartucho encontrado no
livro dos monges? E, por quê o cartucho duplo?”
Dr. Stonehenge se aprofundou na análise do papiro. Em Yale
consultou um de seus professores, especialista em hieróglifos e, para sua
surpresa, o texto ali encontrado revelava duas interpretações diferentes. O processo
de tradução já era feito com auxílio de inteligência artificial. O texto era
escaneado e comparado com um banco de dados contendo diversas interpretações
para cada símbolo e sua interação nas frases subsequentes. Os monges o haviam
traduzido na forma antiga. Não deram valor ao cartucho duplo. Pelos monges, o
texto descrevia a chegada de alguém próximo a Khufu ou Quéops, o construtor da
maior pirâmide. Quéops era o segundo faraó da IV dinastia. Dizia-se filho de
Ra, na sua forma de falcão com o disco solar. Teve uma filha, Hetepheres II,
bela e incontrolável. Construiu a maior pirâmide para ser sua porta de entrada no
“after life”, uma obra perfeita com
146 metros de altura, feita de 2.3 milhões de blocos de pedra, cada um pesando
cerca de 2,5 toneladas.
A pirâmide continha duas câmaras principais. A chamada câmara
do rei, onde foi encontrado seu sarcófago de pedra e outra menor, erroneamente
chamada de câmara da rainha. Esta, entretanto, fora enterrada em outro monumento,
fora da pirâmide. Uma terceira câmara se situava nos subterrâneos da estrutura.
O papiro contava, em sua primeira interpretação, que o faraó,
após sua morte, reinaria em um mundo onde encontraria seus inimigos sumérios e
nele enfrentaria a batalha de todos os tempos. Dizia também que um outro filho
de Hórus apareceria para ajudá-lo à vencer a guerra. Mas parte do papiro estava
rasgada e seu professor não conseguiu completar o texto. O mesmo havia acontecido
na tradução dos monges.
Entretanto, a inteligência artificial foi capaz de deduzir
algumas alternativas para os hieróglifos desaparecidos.
Baseando no duplo Hórus o computador concluiu que era outro Khufu,
ou seja um outro eu do faraó, vindo de outro mundo, igual em tudo e capaz de
levá-lo à vitória.
Anexo ao texto existia uma poesia dedicada ao Deus falcão.
Contando enigmaticamente a relação de Hórus com Osíris lançava um mistério
maior sobre o cartucho duplo.
A poesia seria a chave para a abertura de uma porta que
ligaria o mundo dos mortos ao mundo presente. Um mundo de Hórus Ra e Hórus
Homem. Um mundo indecifrável.
Assim dizia:
Oh…benevolente Ísis,
Que protegeu seu irmão Osíris,
Que procurou por ele incansavelmente,
Que atravessou o país enlutada,
E nunca descansou antes de tê-lo encontrado,
Ela, que lhe proporcionou sombra com suas calças,
E lhe deu ar com suas penas,
Que se alegrou e levou seu irmão para a casa,
Ela, que reviveu o que, para o desesperançado estava morto,
Que recebeu a sua semente e concebeu herdeiro,
E que o alimentou na solidão,
Enquanto ninguém sabia quem era…
Este poema, encontrado em 1400, lido em conjunto com o papiro
e racionalizado pela inteligência artificial sugeria que Ísis, mãe de Hórus,
protegeu um misterioso outro “eu” do faraó, cujo nome era Osíris. Este, quando
encontrado por ela o traria de volta à casa do irmão. Sua chegada levaria o
desespero embora e os dois, protegidos pela sombra de Hórus, levariam vitória
ao povo egípcio, enquanto ninguém saberia quem era…
Vitória sobre os Sumérios, arqui-inimigos da coroa. Deduziu ser o cartucho
duplo de Hórus a porta. O poema a chave.
Stonehenge estava estupefato.
Como poderia usar o que tinha aprendido? Pensou em viajar
imediatamente para o Egito, ir até a câmara do faraó e procurar por outras
pistas que completassem a charada.
Pausou para um café. Na realidade, foi direto ao seu estoque
de Glenfiddish. Sorveu duas deliciosas doses. Sentia seus neurônios fervilharem
de emoção.
Sentou-se.
Fitava a janela de seu quarto com os olhos em transe. Em sua
cabeça passavam imagens de um passado distante. Um mundo de luxúria nunca visto.
Um mundo de intrigas e romances. Achou-se jovem, um faraó talvez. Achou-se
amando de novo.
Em seu devaneio deparou-se com um exemplar do New York Times.
Nele, uma chamada em primeira página…”Haveria uma outra câmara secreta na pirâmide
de Quéops?”
Não existem coincidências na história do homem. Tudo que
existe lá está por uma razão. A porta, a chave no poema descrita, o olho da
lua…
CAPÍTULO TRÊS
A CÂMARA SECRETA
Em novembro de 2017 uma equipe de cientistas internacionais
havia descoberto uma câmara com cerca de 30 metros de extensão dentro da pirâmide
de Gizé. Utilizando-se de uma técnica com emissão de múons a equipe concluiu
que estas partículas, que são absorvidas por objetos sólidos, se aglutinavam em
um vazio de proporções gigantes. Esta descoberta seria indicativa da existência
de uma outra câmara, ainda não conhecida, ao lado da câmara do rei. Como o
governo Egípcio descartava qualquer possibilidade de chegar-se a tal câmera
através de túneis, restava para a comunidade científica o uso de técnicas menos
invasivas para apurar a veracidade da descoberta, tais como raios X ou outros
processos sofisticados. Nada havia se habilitado até então.
Era o que bastava para Stonehenge.
Formulou uma teoria…
“Se existiria tal câmara, seria através dela que a alma do
faraó partiria para o mundo dos mortos? Se Hórus em sua forma dupla era o Homem
e Deus, ao mesmo tempo, aquele que abrisse a porta com sua chave poderia se
encontrar em outra dimensão? Para que serviria o olho da lua?”
Decidiu então ir para o Egito, tinha certeza que suas
descobertas indicariam o caminho correto para chegar até a nova sala. Era amigo
do Ministro das Antiguidades. Certamente obteria dele permissão para entrar na
câmara do rei.
Em suas elocubrações estudou sobre a morte de Khufu. Sabia o
dia exato. Até o momento em que partiu e foi colocado na cripta. Registrou seus
cálculos em seu laptop, tirou o olho de Hórus de seu bolso e beijando-o murmurou…
“sei que serás meu amuleto da sorte…”
Na conhecida sala do rei deparou-se com milhares de anos de vandalismo.
Afrescos destruídos pelo tempo, relevos desgastados, corroídos . No centro, o
sarcófago de pedra e sua imensa tampa. Nada mais ali estava.
Cuidadosamente procurava por algo em suas paredes que
indicasse as duas figuras de Hórus. Havia
deduzido que os cartuchos representavam o local da porta. O poema era a chave. “E
o amuleto?”
Estudando a orientação da sala em relação ao conjunto das três
pirâmides observou com mais detalhes a parede que se situava à oeste do rio
Nilo, na direção do sol poente. Com seu GPS traçou as coordenadas da constelação
de Órion deduzindo a diferença no alinhamento da terceira pirâmide. O resultado
o levou a uma surpreendente descoberta.
Com uma lanterna à laser traçou o caminho do sol poente no
escuro da câmara. Em seu computador havia deduzido a posição do sol no ano 2778
a.c. bem como a hora em que a tumba de Quéops foi cerrada. Interpolou o feixe
de luz e…bingo!
Na parede suja e desgastada o feixe luminoso reluziu sobre
dois cartuchos, quase imperceptíveis, de Hórus. Ali estaria a porta…
Em Yale, Stonehenge havia pedido aos seus professores que o
ensinassem a ler o texto do poema de Hórus em egípcio antigo. Na melhor das hipóteses
sairia algo perceptível. Se não soasse como tal, o efeito que esperava poderia
não acontecer. Já havia chegado até ali. Pediu aos deuses do Egito antigo que o
iluminasse.
Dr. Peter Stonehenge nunca tinha estado tão nervoso.
Declamou o poema.
Por um momento, que pareceu interminável, nada aconteceu.
Subitamente, um som arrastado se fez ouvir. Era como se algo
imóvel, estático, imutável, parado, resolvesse sair de sua inércia eterna. A
parede se abriu entre as juntas de dois blocos enormes. Uma abertura tímida,
mas capaz de permitir passagem para uma pessoa, se fez presente.
Havia luz do outro lado. Uma luz azul, etérea, móvel, pulsante.
Stonehenge adentrou o espaço. As pedras se fecharam…
CAPÍTULO QUATRO
A CÂMARA DO TEMPO
A câmara era linda, mas vazia.
Nas paredes somente baixo-relevos contando a história dos
feitos de Khufu. No seu ponto mais oeste uma inscrição estranha.
A luz azul era suave e oscilante. Dançava como chamas de uma
vela, gerava sombras nos relevos, criando imagens diferentes, fazendo com que as
inscrições do fundo da câmara projetassem novos e estranhos cartuchos.
Estudou os hieróglifos. Seu laptop lhe serviu bem.
Conseguiu deduzir que o texto representava uma mensagem ao
faraó. Uma passagem do livro dos mortos. Indicava-lhe o que fazer.
Stonehenge traçou os primeiros momentos do faraó após o fechamento
da tumba. Sua alma adentrou a câmara secreta através do portal. Lá, o faraó
retirou um amuleto de sua coroa, o olho de Horus e o levou ao extremo oeste da
sala. A depressão no canto direito da pedra maior era na forma do olho. Este,
quando lá inserido, levaria sua alma ao mundo dos mortos. Era o token de Charon, o óbulo do barqueiro do
rio Styx, como veio a ser conhecido na mitologia grega. Bastava confirmar…
Com suas mãos trêmulas Dr. Peter Stonehenge colocou seu olho
de Horus na depressão.
A luz azul intensificou seu brilho.
As paredes da câmara pareciam transformarem-se em uma gelatina
azul, tremulante, etérea. Ao tocá-la Stonehenge sentiu-se desmaterializar.
Desfaleceu.
Ao acordar o sol estava alto. O dia radiante.
Um tapete vermelho se estendia da base da grande pirâmide a um
caminhamento flanqueado por colunas em granito preto. Entre elas, sentado em um
corpo de leão, efígies de Quéops.
Tudo era perfeito. Não existiam ruínas, Era um mundo vivo, na
terra dos mortos. Era um mundo onde ele, Stonehenge era um vivo do mundo dos
vivos em um lugar no after life. Era
um mundo, um universo paralelo, onde o tempo não mudava, somente estava.
Era um mundo onde Quéops reinava e ele, o faraó, era idêntico
a ele mesmo, Stonehenge…
Guardas imperiais perfilavam. Trombetas espiraladas anunciavam
a chegada de um nobre. O rufar de tambores, em rítmo pulsante, o reluzir do
ouro, a liteira suportada por 50 escravos núbios em passos constantes, perfeitos
no tempo, perfeitos na forma.
Sentiu que o esperavam. Sentiu que ali pertencia.
Aliás, desde que havia se transladado àquele mundo sentiu-se
despir de seus conhecimentos, até de suas próprias vestimentas. Ouvia egípcio,
entendia e para sua surpresa…falava.
Do outro lado da colunada aproximava-se Quéops em sua liteira.
Totalmente ornado em ouro, segurando o cetro do alto e baixo Nilo, com uma
coroa cônica. Na sua frente, o olho de Hórus. Representava Ra, o Deus sol, falcão-homem,
divino e imortal. E era a sua imagem e semelhança.
O som dos passos cadenciados pelo rufar dos tambores, as trombetas
em agudos fortes e o staccato final
geraram um momento de expectativa, pompa e grandiosidade. Khufu desce de sua
liteira, aproxima-se de Stonehenge e o abraça.
“Estava esperando por ti irmão. Agora,
a profecia se realizará. Bem vindo filho de Hórus em tua forma de homem. Bem
vindo irmão prateado. Que a luz de nossa mãe , a Lua, te ilumine, que o os
raios de meu pai, o Sol, te engrandeça.”
A câmara secreta era a porta do mundo dos mortos. Um outro
universo onde o tempo estava e não mudava. Onde as almas do mundo dos vivos
completavam suas missões para volta gloriosa ao mundo de antes, sob as bençãos
dos deuses, num tempo imutável, paralelo, sofismático e paradoxo.
Stonehenge era um vivo no mundo dos mortos.
Era o próprio faraó
Quéops, na sua forma dupla, Quéops-Khufu, sob o ar das penas de Hórus, sob os
olhos do Sol e da Lua.
Stonehenge era a profecia se tornando realidade, era a glória
perdida, a vitória almejada, o caminho da reincarnação.
CAPÍTULO CINCO
OURO E PRATA
Vestiram-no de prata.
Ornado, maravilhosamente iluminado, Stonehenge era a cópia
exata de Khufu. Uma cópia em prata de um faraó em ouro.
Juntos subiram na liteira. Os 50 escravos núbios se levantaram
e, ao som das trombetas e o marcar dos passos partiram para o palácio do rei.
Seus aposentos eram decorados com objetos argênteos. Até os
tecidos eram prateados. Situava-se oposto aos aposentos dourados de Khufu.
Entre eles o quarto de sua filha Hetepheres II.
A arquitetura de Memphis era representativa do havia de melhor
à época do Egito Antigo. Fundada por Menes por volta de 3000 a.c. teve sua glória
maior durante o reinado de Khufu. Ali, subsequentemente, foram construídas as
grandes pirâmides e foi a capital do Grande Império até o surgimento de Thebas
durante o Novo Império.
Stonehenge a via como havia sido. Perfeita, encaixada no delta
do Nilo, esplendorosa. Praças e esplanadas com escadarias em mármore e granito,
do porto aos grandes muros, destes aos monumentos e dalí às edificações.
Colunadas gigantescas, estátuas de deuses e faraós, escadas e
monolitos em uma procissão de eventos que levavam a pompa e circunstância dos
homens aos pés de seus deuses antigos.
O quarto onde estava, todo em prata, era cercado por colunas
de cinco metros de altura. Seus capitéis, em cores, tinham a forma de um papiro
aberto, seguravam um entablamento trabalhado em frisas contando a história de Hórus
e suas formas divinas. Estas suportavam enormes vigas de pedra e madeira
formando um teto folheado em prata e decorado com desenhos e figuras em um
vermelho intenso.
Atravessou a enorme porta que o levava a uma ante-sala com uma
mesa central. Nela, meticulosamente arrumado, frutas e flores.
Observava tudo com avidez e espanto. Sentia-se cada vez mais
egípcio. Mais perto daquela época, mais identificado com seu outro eu. No
imerso de seus pensamentos nem sequer notou que ao seu lado se encontrava a
figura esplendorosa de uma mulher. Quando a olhou não acreditou no que via.
Hetepheres II, a filha de Quéops, ali estava. Linda, suave,
deslumbrante.
Hetepheres era a imagem perfeita de sua amada Hattie, aquela
que havia perdido em um acidente. Era ela, de novo, em sua frente, tão real
quanto a última vez que a tinha visto. Ali, no mundo dos mortos, espíritos se
cruzavam, refletindo um passado de reincarnações entre almas afins.
Seus olhares se encontraram. Por um instante o mundo parou e,
no estacionar do tempo, se beijaram, num beijo de uma só alma, de um só amor.
Eterno como eterno era o lugar. Eterno como a morada dos deuses. Tão eterno,
que transcendia os mundos, o passado e o presente, os vivos e os mortos.
CAPÍTULO SEIS
HATTIE
Tinha somente 17 anos. Era linda e delicada.
Stonehenge a viu pela primeira vez, em um salão de baile,
vestida de dourado. Lá estava ela, sorrindo, cercada de admiradores. Ele, tímido,
se aproximou. Sentiu um mundo estático, o tempo imutável. Sentiu uma paixão tão
intensa que inebriado de amor disse-lhe algo, que não mais se lembra, mas algo
que tão forte foi que ela o seguiu e não mais o deixou.
Mas o destino tem suas viradas cruéis. Perdeu-a em um acidente
inconsequente. Perdeu-a para o mundo dos mortos. Perdeu-a para o mundo de
Anubis.
Mas ali estava ela, de novo, mais linda ainda.
Na morada dos que partiram, onde o tempo não tinha tempo para
existir.
No momento eterno que se criou Stonehenge pediu que dali não
mais partisse. Queria amá-la. Queria possuí-la. Para a câmara prateada a
conduziu, fizeram amor com intensidade tamanha que parecia existirem em um só.
Um momento eterno no eterno da eternidade.
Estava feliz.
Hattie lhe contou sobre Khufu, da sua espera pelo seu lado da
lua. O Deus Sol havia partido do mundo dos vivos. Ali, na eternidade dos tempos
existia para cumprir sua missão e poder voltar, reincarnado. No universo dos
mortos os feitos da Terra se entremeiam com o destino daqueles que se cruzaram
em ambos os mundos. Khufu tinha contas a acertar com Mesalin, rei sumério, seu
arqui-inimigo.
Mesalin controlava seu império em Kish, cidade jardim,
esplendorosa, perto de onde mais tarde seria Babilônia, às margens da confluência
do Tigre com o Eufrates. Em suas idéias hegemônicas Mesalin se aventurou em
direção à terras egípcias. O confronto seria inevitável, porém ambos, Khufu e
Mesalin morreram antes da batalha final. Levaram sua rixa ao mundo dos mortos. Ao
mundo de Anubis. Lá se preparavam para a mãe de todas as batalhas. Aquela que decantada
em baixo-relevos era a profecia de Khufu.
O grande faraó, filho do Deus Sol, Ra, sob as penas de Hórus e
a proteção de sua forma humana, o Deus da Lua, em prata, destruiria o invasor
sumério, em uma única e cruenta batalha, nos fins do universo.
Khufu esperava por sua alma gêmea. Esperava por aquele momento
para poder completar sua missão no after
life e voltar ao mundo dos vivos. Seu outro eu viria daquele mundo, não
poderia ser destruído no mundo dos mortos. Seu outro eu era Stonehenge.
Hetepheres, olhando em seus olhos, disse:
“Vá querido, cumpra a profecia, honre seu irmão, destrua o
inimigo. Só assim, então, poderemos viver novamente, eu e você, meu amor, meu
amado, no mundo dos encarnados…”
CAPÍTULO SETE
A MÃE DE TODAS AS BATALHAS
Os exércitos de Khufu eram incríveis. Divididos em batalhões
dourados e prateados, liderados por duas divindades, suas linhas eram compostas
de uma cavalaria leve, em bigas egípcias, com arqueiros e lanceiros. Batalhões
de infantaria com escudos e lanças eram precedidos por arqueiros de longo
alcance. Suas espadas em cobre reluzente, suas adagas e couraças em ouro e
prata, estandartes vermelho sangue. Um espetáculo impressionante e majestoso. À
frente de cada divisão os reis-divindade, Horus do Sol e Horus da Lua.
No mundo dos mortos não mais se morria. Era o domínio de
Anubis. Guardião dos túmulos e juiz dos mortos, Anubis ali estava para julgar.
Filho de Néftis, a Deusa dos Desertos com o Deus Osíris presidiria a pesagem
dos corações pela qual decidiria o destino das almas de seu dono. Ali julgaria
o combate final. Este seria destrutivo, doloroso e cruel. Nele corpos despedaçariam,
cabeças seriam separadas de seus corpos. Soldados transfixados por lanças e
flexas. Mas, apesar de destruídos, não morreriam, simplesmente voltariam ao
mundo dos vivos, reincarnados, em suas novas missões, conforme estabelecido por
Anubis, conforme o gráu de heroísmo e coragem.
A batalha se deu às margens do Eufrates, ao sul de Kish, em
Ur, perto do delta do Tigre/Eufrates. Os egípcios, vindo do leste encurralaram
as tropas de Mesalin contra o as margens do rio. Cercados ao norte e ao sul os
sumérios partiram para o confronto direto. Sua cavalaria era assustadora. Bigas
conduzidas por arqueiros e leões alados. Ferozes criaturas que dilaceravam os
cavalos egípcios.
Estes, retrucavam com uma chuva de flexas douradas e
prateadas. Eram tantas e tão constantes que, uma a uma, as bigas sumérias foram
atingidas. Seus leões alados mortos, seus arqueiros aprisionados.
Stonehenge liderava o flanco sul com seu exército prateado.
Sua biga em prata e alabastro em um arcabouço de ébano era magnífica. Ele, que
nunca pensou ser um militar, ali estava, em plena batalha, junto aos seus,
heroicamente liderando uma incursão incisiva através do meio do exército sumério.
Mesalin não entendia o que via. Havia dois faraós? Era seu
inimigo um ser protegido pelos deuses, alguém que poderia se duplicar no campo
de batalha? Começou a sentir que estava abandonado por seus deuses. Pensou em
se retirar. Pensou em se entregar ao julgamento de Anubis. Porém, naquele
momento em que quase desistia, uma lança atirada na direção de Stonehenge
encontrou o coração do faraó de prata.
Stonehenge caiu. Enquanto seus olhos ainda estavam abertos viu
Khufu avançar pelo lado norte e, chegando perto de Mesalin golpeá-lo com sua
espada de ouro. A espada de Khufu trazia a decisão de Anubis.
A batalha terminava com a morte de Mesalin.
Para Stonehenge seu corpo não mais ali estava. Vindo do mundo
dos vivos não poderia morrer onde somente os mortos existem. Voltou ao universo
que pertencia. Seu corpo desapareceu. Assim como havia entrado pela câmara do
tempo, sentiu um formigamento intenso antes de se desmaterializar. Sentiu-se
desfalecer. Partiu.
Khufu levanta sua espada e proclama a profecia realizada.
Hetepheres, ao longe, sorri. A guerra havia sido vencida pelos egípcios há 2500
atrás, hoje, naquele momento.
O faraó Deus Sol, na sua forma de Hórus, o falcão, havia
cumprido sua missão.
CAPÍTULO OITO
NO PEABODY MUSEUM
Dr. Peter Stonehenge havia voltado.
No laboratório de egiptologia fora encontrado. Segurava em sua
mão direita o amuleto de Hórus, o olho da lua.
Seus professores, que ali estavam, não acreditavam no que
viam. Havia surgido do nada, vestido em uma incrível armadura de prata,
articulada e decorada com hieróglifos em lápis-lazuli. Ostentava uma coroa,
também em prata, com desenhos em vermelho intenso, incrustações em ouro e um
bico enorme, tambem em lápis. Suas mãos e antebraços cobertos por lâminas de prata
articuladas em escamas flexíveis. Seus dedos alongados por tubos de prata e
garras em alabastro. O mesmo acontecia com suas pernas e pés. Em volta, nas
costas, penas de falcão em leque, interligadas por fios de ouro. Em sua mão
esquerda uma espada magnificamente talhada e coberta de sangue.
Era Hórus, em sua forma de homem. Um falcão homem, imponente,
incrível, estupefaciente.
Era a relíquia do passado mais perfeita já vista, ali na
frente de seus incrédulos mestres. Algo que mudaria o ensinamento de
egiptologia e reformularia os dogmas de seus scholars.
Stonehenge sorriu.
Antes de que qualquer pergunta lhe fosse feita disse:
“Amigos, o passado é uma porta que por ela passaremos todos. Lá
o tempo não muda. É a morada daqueles que cumprem sua última missão antes de
voltar, ao futuro, pela mesma porta. Agora, que isto sei, parto, não para o
passado, mas para o futuro onde encontrarei minha amada, e a amarei,de novo.”
Apertando o amuleto, deixou cair toda a vestimenta, todos os
adornos.
Desapareceu em busca de seu amor…
FIM
segunda-feira, 25 de maio de 2020
ERA
IMPRESSIONISMO?
Dizem que pintava…tudo.
Mas nada pintava.
Na tela mal se via uma linha, uma pincelada, um pingo de tinta.
Até rabiscos faltavam.
Já a havia assinado. Isto ele soube fazer. Enquanto a inspiração
não vinha, assinou-a, e…caprichou.
Mas a tela, hora após hora, nada agora, nada depois.
Pensou em desistir. Quis que a noite chegasse. Esta, escura, lhe
seria mais dócil. Um pincelar negro, um piscar de estrelas em pingos argênteos.
Entusiasmou-se.
Teria chegado o sonho, a visão?
Mas a noite chegou e a tela branca ficou…assinada.
Na eletrola colocou um LP antigo. O som era lindo. Viu Starry
Night em música, ouviu Van Gogh traduzido em sons macios, sentimentais, lânguidos.
Viu os pincéis bailarem na paleta vazia.
Abriu um Jack. Sorveu-o direto do gargalo em goles trôpegos,
engasgantes. Deixou-se flutuar no som divino e no álcool inebriante. Em
espirais sua mente turbilhou. Havia cores em seus olhos fechados. Centelhas
pulsantes em volutas gregas. Lábios acesos, luxuriantes, umedecidos. Um baton
de um carmim intenso, um jato de sangue esfuziante. Espalhavam-se na tela como
os óleos da paleta seca. Borravam, dançavam, esculpiam piruetas em tintas
coloridas.
Ousou abrir os olhos…a tela continuava nua, assinada.
Desesperou-se. Em gemidos depressivos contorceu-se. Enrolado em
tosca manta sentiu o frio da decepção. A noite se acabava e a tela não mudava.
Muda ficava…muda estava.
O cannabis na mesa o convidava à reflexão. Não aquela do quadro
mudo, mas aquela da viagem à mundos que, se ainda não vistos, se
materializariam em sua tela desnuda. Bastava experimentar…quem sabe com o ácido
que o levaria ao Nirvana? Não hesitou…
Do Jack ao ácido, do cannabis ao sonho, a visão lhe chegou.
Em pinceladas frenéticas e puntilistas cobria o tecido vazio. Em
girassóis insanos se perdia nos movimentos enlouquecidos, palpitantes. O rufar
de tambores selvagens, o pulsar de corações frenéticos, o entrelaçar de corpos
desnudos, o sexo louco, despudorado, o desfalecer dos sentidos refletidos no
pano que lhe recusava a forma.
Sentiu-se partindo. A noite havia voltado. Voltado em sua mente já
turva e confusa.
Lutou por um momento de luz, de lucidez, de claridade…
Seus olhos entreabertos lhe deixaram ver, por um breve instante,
sua mais intensa obra de arte. Do impressionismo que queria ficou-lhe somente a
impressão.
A tela continuava vazia…assinada.
Morreu.
Alí, caído, o corpo inerte em estertor único e último moveu-se em
um fibrilar descontrolado. Sua trêmula mão, o pincel, as tintas, as cores
entremeadas, rodopiaram na tela vazia.
Foi realmente seu melhor quadro…
Pena que nunca o viu…
SONHO DE
ARQUITETO
O projeto perfeito, a publicação na melhor revista, o
prêmio de arquitetura, a mostra na Bienal. Sonhos de um arquiteto jovem, ainda
estudante, com vontade de mudar o mundo.
Vestibular, trote de calouro, cabelos pintados metade
louro, desfile pela Afonso Pena. Eu era o Profumo, aquele Primeiro Ministro
inglês que fez o que a maioria deles fazem, sexo com uma mulher voluptuosa, no caso, a tal
Christine, alegria dos tablóides da ilha.
A primeira aula, foi dada por um quinto-anista disfarçado
de professor. A turma que mais mulheres tinha, até então, acreditou no que viu.
Um ano antes havia recebido um convite de ilustre médico.
Neuro-cirurgião, professor, estava a escrever um livro que necessitava de
gravuras demonstrando um procedimento cirúrgico.
Eu era bom de pena, bico de pena neste caso. O
dinheiro que ganharia dava para poder estocar muitas cervejas. À estas alturas
já havia abandonado meu hábito por coca-colas.
Estudei o texto, vi outras gravuras semelhantes e parti para o observatório da sala de operação no hospital. Arranjei minhas penas e
papel e, de cima, fiquei à observar.
No início tudo bem. Com paciente embrulhado em lençóis
e com a cabeça raspada passaram-lhe à
desenhar formas geométricas em seu crânio, com compasso e tudo mais. Até aí nada
demais. A retirada do tecido descolado já
me deixou um tanto estranho. Dois furos com uma furadeira pioraram a situação.
Num determinado momento surgiu uma serra elétrica. Com
seu ruído enervante aproximou-se das linhas marcadas, um pedaço de osso foi
retirado e o cérebro exposto. A visão daquela coisa meio cinza, meio
avermelhada pelo sangue, foi o suficiente para meu estômago virar como uma roda
gigante, em alta velocidade.
Abandonei minhas belas penas e sem pena do que iria
acontecer fugi para não mais voltar.
Cheguei à Escola de Arquitetura com fama de desenhar
bem. Apesar do fracasso do ano anterior todos compreendiam que arquitetos não são
muito fans de sangue, gostam mesmo é de coisas belas, mulheres, por exemplo,
mas inteiras, sem cortes de serras elétricas.
Fui logo convidado para fazer parte de um time com o
pessoal do quarto e quinto anos. Haveria uma competição para selecionar o
trabalho que representaria a Escola na Bienal de Arquitetura de São Paulo.
O ambiente era intenso. Os trabalhos mantidos em
segredo e as horas eram contínuas na Escola onde nunca se dorme. Às vezes nos
encontrávamos no telhado para fumar ou beber uma cerveja, entretanto acho que a
verdadeira razão para o fuzuê eram as belas garotas do prédio em frente, que se
despiam regularmente às onze. Certamente serviriam de inspiração à obra em criação.
Não ganhamos. Ficamos em segundo e segundo não conta.
O que realmente contou foi a vontade de um dia estar lá, em São Paulo, com um
trabalho assinado.
Com o tempo percebi que para fazer arquitetura de alto
nível teria de sair do Brasil. Fi-lo um
ano após formado. Ainda sonhava com trabalhos publicados, sonhava com a Bienal.
Consegui o que queria especialmente após ter alguns
projetos selecionados para a World
Architecture e isto talvez tenha levado a direção da Sala a me convidar
para expor na mostra do ano 1999. Achei que teria finalmente meu sonho
realizado, mas não foi bem assim.
A comissão julgadora selecionou três dos meus
projetos: o Allen Theater em restauração,
Dayton Daily News a mais moderna
oficina gráfica até então e a sede da Applied
Industrial Technologies. Me deixariam muito felizes se não fosse o fato que
a Bienal os listou como obras de um arquiteto estrangeiro.
Não fui reconhecido como brasileiro que era, recebi o
certificado como arquiteto americano, que não era. Não foi bem o que queria...mas
enfim, era um sonho que virou realidade, mesmo sendo sonho de gringo!
Fiquei por lá quase 30 anos. Muitos projetos, muitas
publicações e prêmios de arquitetura. Fiz tudo o que queria, até meus sonhos de
arquiteto.
domingo, 17 de maio de 2020
SALTOS DO GUAIRÁ SETE QUEDAS
Dezenove saltos que agrupados em sete deram o nome, no lado
brasileiro, de Saltos das Sete Quedas.
Era o conjunto de cachoeiras mais fantástico do mundo. Duas
vezes mais volumosas do que Niagara Falls, com 13.300 m3/segundo despejando um
rio em um cânion de 4 km de extensão com profundidades incríveis, entre 140 e
170 metros.
Deixou de existir… Mas, não antes de levar 32 turistas que
lá estavam para vê-las pela última vez, partirem para o “after life”, em
janeiro de 1982, com a queda da ponte (pinguela) Presidente Roosevelt.
Guairá, em tupi-guarani, “o intransitável”, “além do que não
se pode passar”, um bom nome para uma cachoeira que, de tão portentosa, rugia
em suas entranhas produzindo sons audíveis até 30 km de distância.
Quando a Terra ainda tinha a Pangea como maior massa
continental, houve nela uma ruptura tectônica há cerca de 130 milhões de anos
quando o extravasamento de lavas vulcânicas basálticas, fundidas em grandes
profundidades subiram à superfície através de fraturas de distensão, provocando
o derramamento de material vulcânico em camadas diversas e sobrepostas.
Esta atividade gerou uma divisão criando terras que corriam
para o mar à leste e o restante, para dentro da América do Sul, por onde correm
os rios Paraná e Iguaçu, formando um conjunto de quedas d’água gigantesco e de
beleza incomparável. A foz do Iguaçu, que ainda existe e as Sete Quedas submersas
pelo lago da Usina de Itaipu, na tríplice fronteira Brasil/Argentina e Paraguai,
são uma expressão fantástica da natureza e dos feitos do homem.
O rio Paraná que caía em si mesmo ao longo dos quatro km do
cânion formado por uma fratura basáltica gigantesca, transformou-se em um lago.
Hoje, em períodos de seca e quando a Usina Hidroelétrica verte suas águas ressurge
parte das quedas num espetáculo estranho no meio do lago.
Fica aqui um registro para a posteridade. A memória do
homem é curta, infelizmente.
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