quinta-feira, 7 de dezembro de 2017



O CONSELHO

Capítulo III
THE QUANTUM GRID


Já era o dia seguinte, não tão frio e luminoso. Os elevados da metrópole eram modernos e aconchegantes. Uma arquitetura nas alturas, em edificações de centenas de andares interligadas por vias suspensas e corredores viários para cápsulas que levitavam num fluxo contínuo, controlado, sincopado.



Em baixo o caos, o submundo dos viciados, em cima, a “intelligentsia”, cúpula pensante de humanos que ainda serviam para alguma coisa. Mais acima, o espaço livre, o azul do céu, as mansões incríveis dos donos da Terra, as corporações.

No meu nível, eu interagia com o Conselho Urbanístico. Era encarregado de estudar as opções desenvolvidas pelas máquinas, escolher ou sugerir outras alternativas. Estas, ficavam cada vez menos viáveis ante ao seu contínuo desenvolvimento. 

Procurei estabelecer um desafio objetivo para melhoria do mundo inferior. Um assunto perigoso.

A luz e luminosidade eram acessíveis aos humanos dos níveis mais altos. O escuro predominava nos labirintos dos subterrâneos onde todo o processamento dos refugos era feito antes de retornarem aos poucos cursos d’água que sobraram. Ninguém, nem as máquinas se interessavam pelo bem estar destas criaturas.  Para a inteligência artificial o que lá havia era descartável, humanos inclusive.

A proposta do dia era única.

Opção para expansão das áreas de programadores humanos para a nova geração de holografia quântica. Habitat e tecnologia. Os novos Quantum Grids.

Pedi vistas e voltei. Queria repetir a experiência que havia tido no Grid.

Meus colegas no Conselho estranharam. Nunca havia pedido vistas antes. As máquinas imediatamente estabeleceram prazos. Cronogramas de implantação não poderiam ser mudados, As corporações já faziam contas dos lucros com a tecnologia de hologramas de resolução semi-real.

Concordei.

No Grid me encontrava novamente. Pensei em tentar outro programa, mas na hora de fazer a seleção apertei o botão da Gigi.

O negroni estava excepcional. Talvez o Gin usado fosse o Bombay em vez do Gordons. Era muito melhor. Meu crédito era alto, podia pagar pela melhor bebida.

No bar, a morena me perguntou por que voltara. Respondi: “quero ver Gigi…”

Ela não estava…retrucou com um sorriso irônico.

Como? Não era parte do programa? Não estaria lá para interagir com minhas sinapses gerando os sonhos que esperava? Não obtive resposta e, aborrecido fui para casa.

Pensei em deixar uma nota de protesto junto ao servidor. Bastava acionar o programa de atendimento ao cliente em meu e-pad. Por razão que não sei explicar, não o fiz. Simplesmente voltei para casa e com ela sonhei, um sonho real, à antiga, sem sinapses programadas, sem enredo pré-determinado. Mas foi um sonho satisfatório. Na realidade exuberante, pois nele amei Gigi em mil formas. Nela, em seus braços, me perdi. Nela achei um amor que não pensava existir.

Eu era outro. Renascido em um mundo cibernético, vivo sem o controle das máquinas.


Ao nascer, cada um de nós recebia dois implantes. O primeiro controlava todos os sinais vitais e todos seus movimentos. O segundo era ligado ao conteúdo programático. Através das cordas quânticas do DNA humano a inteligência artificial agia direcionando o ser para o bem estar comum. Se George Orwell tivesse visto este futuro, teria ficado ainda mais estarrecido. Afinal, em 1984 “Big Brother” controlava através de telas, hoje, através de implantes. Muito mais eficiente…

Mas era verdade que o crime já não mais existia. Com exceção do que acontecia nos baixios, acima, somente uma suposta felicidade. Um Nirvana cibernético.

O Estado praticamente não existia. Confinava-se às forças de repressão e policiamento. Um policiamento de fato forte, mas discreto. O “gendarme”era robótico. Entendia de leis, não entendia de sentimentos.

Voltei ao Conselho.

Mais uma vez surpreendi meus colegas e as máquinas. Pedi para visitar as áreas atuais onde estavam os programadores. Queria entrar e ver o ultra secreto mundo do amanhã. Ver de perto como trabalhavam as mentes mais brilhantes do homem. Queria sentir, ali, naquele lugar, que ainda eramos importantes. Justifiquei dizendo que era isto que arquitetos faziam.

As máquinas retrocederam por um instante e, para minha surpresa…pediram vista ao que propus.

Voltei para o mundo dos cubos.

Queria ver Gigi, de novo. Não nos meus sonhos, mas ali, real, na minha frente, poder tocá-la, poder beijá-la. Não tinha explicação para o que estava acontecendo. Ela não era real. Não era lógico sentir amor por uma projeção.

Havia, bem no fundo, algo que me surpreenderia. Sentia o inexplicável tomando conta de mim. Sentia o inesperado…

No Grid, o mesmo procedimento. A máquina me lembrou que já era a terceira vez, em curto espaço de tempo, que eu ali estava. Os créditos usados diminuíam meu saldo rapidamente.

Quando entrei, lá estava ela, segurando um negroni.


Era para mim, disse. Sabia que eu viria. Mas como saberia que eu a programaria para aquele momento?

Beijou-me. Seu beijo era doce. Disse que me amava.

Amor e emoção, máquinas ou projeções não deveriam expressá-las. Parei de pensar e mergulhei em seus braços. Amor ou não, emoção ou não, não perderia aquele momento por nada deste mundo. Eu estava apaixonado por Gigi e ela por mim.

Nos dias subsequentes gastei o resto de meus créditos. Do bar passamos a viajar pelo mundo. Fomos ate o Caribe, para um fim de semana. Falávamos de tudo, vivíamos intensamente. Fizemos amor. Tudo isto no Quantum Grid. Tudo num mundo virtual, sem sair do lugar.


Há de se dizer que as máquinas criaram algo tão perfeito que era difícil distinguir o que era real, o que era fantasia. Na intensidade daqueles dias vivi como nunca tinha vivido. Experimentei sensações únicas e luxuriosas. Não havia como explicar as emoções que existiam em mim e que nela se afloravam.

Ao sentir a realidade de que não iria vê-la por uns tempos, recebi um recado do Conselho. As máquinas haviam autorizado minha visita.
Ótimo! Fiquei feliz. Representaria créditos adicionais. Poderia ver Gigi, de novo…

A Central de Programas era uma edificação gigantesca. Ficava no centro da metrópole. Dela saiam vias suspensas ligando-a à tudo. Os programadores viviam em um luxuoso espaço, cada um em um mundo virtual, criado por eles e somente para eles. Eram a fina flor da humanidade. As corporações os tratavam à pão de ló.

A demanda pelos serviços havia crescido. Alguns programadores já ocupavam espaço junto com outros. E isso, não era aconselhável. Interferia na criação programática. Era justificada a expansão.

Já estava saindo quando notei uma sala aos moldes do Quantum Grid. 

Quadrados separados por tubos quânticos criavam campos virtuais de beleza incomparável. No centro a figura de uma bela mulher. No centro Gigi.

Quando me viu, não sei se me reconheceu. Havia algo… algo sem explicação.
Era ela, mas não a Gigi holográfica. Esta era real…

Gigi existia..




Tomorrow another chapter
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GIGI

Capítulo II
THE QUANTUM GRID


Não sei o que se passou por mim. É bem verdade que interação com pessoas de outro sexo era quase impossível. O mundo cresceu, a explosão demográfica rendeu à Terra a exploração predatória dos recursos naturais, a destruição do meio ambiente acelerou mudanças climáticas e, se não fossem as viagens espaciais, eu poderia dizer que eventualmente a humanidade deixaria de existir.

Morávamos em cidades semi-enterradas e verticalizadas. Um núcleo auto-suficiente. Produzia-se tudo e tudo era consumido. Até os rejeitos eram reciclados nos subterrâneos das cidades, onde as máquinas faziam tudo, com perfeição. O controle natal era rígido. O Conselho escolhia aqueles que procriariam e, tudo seria feito em provetas, DNA compatível para melhoramento da espécie.
No mundo do entretenimento o homem se perdia nas imagens e sensações e, se isso não fosse suficiente, em doses de fornicália.

Fornicália era a droga do futuro. Havia sido descoberta por um cientista cubano e usada no controle da população comunista. Logo se tornou popular e sua utilização, em larga escala, permitiu a decadência dos regimes tradicionais e substituição pelas corporações que a produziam.

Era uma droga escravagista. As sensações orgásticas ao tomá-la geravam uma dependência contínua e inebriante. O homem não mais tinha vontade. Fazia o que necessário fosse para poder existir e mergulhar em viagens alucinantes. No processo morriam, e suas mortes eram geradoras do equilíbrio estabelecido pela “intelligentsia” superior, nos moldes da Rússia antiga.

Deram-lhe o nome de “Fornicália” em homenagem ao antigo festival romano em honra à deusa Fornax. O grão cozido, de onde provinha a droga, usado para a proteção dos seus fornos de cozimento, era a analogia ao “cozimento” do cérebro humano. Mas morrer de orgasmos, parecia uma proposta bem atrativa.

Nunca a tomei, por isso era aceito no sistema superior. Somente os desesperados, que viviam nas partes baixas das metrópoles sucumbiam ao seu encanto. E se tornavam inúteis. Da inutilidade à morte era somente uma questão de tempo.

As impressoras tridimensionais produziam o que era necessário para consumo. Os alimentos eram também materializados em cubos de energia, replicadores de matéria orgânica. Tudo era controlado pela inteligência artificial. Ao homem sobrou a gula e a luxúria.

Voltei-me à bela Gigi…

Sorvi meu drink…

O negroni é uma mistura de Martini Rosso, Campari e Gin. Um verdadeiro torpedo. Já estava no meu terceiro. A atendente, também linda, morena e simpática me alertava quanto aos efeitos etílicos. E, apesar de flutuar sob os mesmos, me concentrava em Gigi…ah… doce Gigi…

Nunca pensei que era capaz de conversar tanto. Nunca pensei que sabia coisas das quais falei, mas, quando a ouvia, me perdia no ritmo de sua voz, na melodia do som divino, no encanto de seus olhos.
As horas se passavam e o tempo parecia estático. Senti ser necessário partir.

Em um beijo divino dela me despedi. Já havia passado mais de seis horas, eu embevecido, me achei apaixonado. Mas como podia estar, se ela era etérea, um produto de minha imaginação e produto de neurônios excitados por uma máquina?
O cérebro humano é misterioso. Não é um simples computador, daí a diferença em relação à inteligência artificial. Com a interação simbiótica dava para saber onde se passavam as informações recebidas, onde eram sonhos, onde eram sinapses provocadas pelo programa. Mas a sensação do amor não era quantificável. Nunca tinha sido e ainda não o seria. Era uma emoção, e emoções não são registráveis em computadores.

Sentir amor pela criatura holográfica era possível? A máquina rejeitava, meu cérebro não. Deixei-me levar pela emoção.

E, prometi a mim mesmo que voltaria…







Amanhã o terceiro capítulo
O Conselho
Não percam…


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

THE QUANTUM GRID



Capítulo I

ORWELL ESTAVA QUASE CERTO

Como em Orwell’s 1984, “era um dia frio e luminoso”…um pouco diferente num mundo onde tudo escuro era, em uma metrópole de um futuro não tão distante, onde Big Brother nunca se materializou, mas existia no controle cibernético da “Nova Ordem”.

Eu era um arquiteto deste novo Estado. Quase não trabalhava, mas tinha meu papel bem definido no Conselho Urbanístico onde a inteligência humana se interagia com a artificial.

O mundo mudou. O advento da inteligência cibernética tão anunciado por Hawking chegou mais cedo. A fábrica da sociedade rompeu-se com os dogmas antigos. O trabalho reduziu-se, substituído por máquinas e entidades inteligentes, atuantes e decisivas.

O comportamento humano foi alterado.

O consumo regia a sociedade. Máxima capitalista, prática e efetiva. Com o desaparecimento de empregos tradicionais o homem reduziu suas horas de labuta ao simples trocar de trabalho por créditos registrados em seu e-pad simbiótico. Cumpria tarefas mínimas, geralmente complementares àquelas elaboradas pelas máquinas. Quando realmente intelectualmente superior, galgava os caminhos da intelligentsia, gestora suprema. Quando não, ou desajustado, era relegado aos porões da sociedade.

Como uma sociedade regida pelo consumo determina, a “Nova Ordem” era composta de dirigentes das mega corporações. Viviam num extrato iluminado, longe de todos e de tudo, cercados, protegidos e detentores de fortunas incalculáveis. Políticos deixaram de existir, democracias desapareceram.

O Conselho Supremo decidia o futuro. O presente era uma cesta de entretenimento e alimentação, pão e circo, distribuído para todos. O consumidor tinha que existir, era a razão da sociedade. E era o que acontecia…

Máquinas pensantes, tecnologias incríveis, a vida um exercício de gula e luxúria que embora fascinante, nem todos nela se encaixavam.

Nos escuros das cidades enterradas e verticalizadas viviam os desajustados, aqueles que fugiram ao entorpecimento da Nova Ordem. Se perderam no vício da nova droga, Fornicália, a viagem ao prazer. Mas onde o capital impera, até no vício faziam seus lucros. Se eram produtores de custos à sociedade, eram deixados para morrer, de overdose. Assim determinavam as máquinas.

Mas, realmente, “o dia era frio e luminoso, em abril, com relógios à marcar 13 horas” e eu, ali cheguei, no Quantum Grid.

Meu trabalho gerava créditos suficientes para poder usar a novidade. Quantum era um conjunto de cubos de lados quadriculados onde em suas interseções corriam os tubos de energia quântica que eram capazes de formar hologramas tão perfeitos quase reais ao toque.

O usuário escolhia o programa, adentrava e esperava pela sintonia da máquina com a estrutura de seu DNA. À níveis quânticos, nas áreas das espirais que guardavam a capacidade de agir telepaticamente e pular dimensões, em uma forma simbiótica, o programa escolhido interagia com os neurônios do indivíduo gerando sinapses, formando imagens no cérebro e ao seu redor, em hologramas nos quais o enredo escolhido se desenvolvia. Quantum “teleportation, telepathy e entanglement”, a níveis do DNA humano, ou as hipóteses do futuro, transformadas em realidade pela inteligência artificial.


Era o sonho real, materializado.

A máquina ajustava o programa ao pensamento do usuário, tornando-o quase verdadeiro. Poder-se-ia viajar pelo universo, ser um piloto de fórmula 1, um lutador, um atleta. Qualquer programa escolhido interagiria com a pessoa. 

Sensações de alegria, dor, perigo e até de morte eram possíveis, mas paravam no momento em que passavam a representar perigo de fato.

Eu tinha tempo. Só iria ao Conselho no dia seguinte. Havia um projeto de expansão das programadoras de inteligência artificial. As máquinas precisavam que estudasse as opções e justificasse a escolha, sob o ponto de vista humano. 

Eu era esta pessoa.

Na entrada, após registrar meu e-pad e ter os créditos transferidos escolhi o programa que me interessava. Queria tomar uns drinks com alguém iluminado, em um bar, um romance antigo, nostálgico e mágico. Escolhi Gigi, e entrei no Grid.

O espaço quadriculado em todas as direções me fez perder a noção de onde estava. Lentamente formas foram se materializando. Primeiro os contornos, depois o mobiliário, por fim as pessoas… e eu…estava em um pub inglês, do século XX.


Aproximei-me do bar e pedi um negroni. Sempre havia sido meu drink preferido, mas ali, naquele bar, cujo balcão era de vidro espesso, o azul da luz que o iluminava contrastava com o rubro do meu drink e o escuro do lugar. 


Uma combinação de cores deliciosa, como os lábios vermelhos da bela que apareceu ao meu lado. Uma combinação mágica.

Divina…loura, olhos azuis profundos, celestiais.

Perguntei-lhe o nome.

Respondeu com uma voz adocicada: “Gigi.”



Tomorrow: Second Chapter  GIGI
The plot thickens!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

AVISO



Vem aí…não percam


A novela : THE QUANTUM GRID

Em capítulos


Ficção científica

domingo, 3 de dezembro de 2017

TWILIGHT



Dedicado às minhas colegas arquitetas
Mulheres doces e magníficas
No crepúsculo de nossas vidas

SUNSET


Morre o dia, desce o astro,
Ardente em rubro infernal…
Estilhaçam cores, num último alento,
Tingindo o mundo, em volutas divinas.
De pálidas violetas à aveludados azuis,
Respiram as estrelas que ousam brilhar.
E vagalumes bailantes, em voos rasantes,
Imploram aos amantes, para a noite chegar
DAWNING

Gotas de orvalho, como estrelas do dia,
Refletem dançantes os raios de luz.
De um sol dolente, brincando com cores,
Pintando montanhas, num céu de algodão,
Com rosas sutis e suaves laranjas…
E, em vermelho ardente…implora imponente,
Para a noite deixar…

E o poente voltar…

sábado, 2 de dezembro de 2017


O ULTIMO MARCIANO
Em razão da recente descoberta de água no subsolo de Marte, reproduzo o conto abaixo. Afinal, fica aqui uma historia com um pingo de verdade!


O ÚLTIMO MARCIANO

Dedicado à minha colega e arquiteta Elane Frossard, alma inquisitiva, sempre à procura do impossível

2035…

O projeto de colonização de Marte entrava em seu momento mais importante. A missão internacional, tripulada, desceria em sua superfície às 21:33, Houston time.

Seis intrépidos cosmonautas. O sonho do homem, como espécie, se transformava em realidade. De criaturas da Terra, à partir daquele momento, transformados em uma civilização multi-planetária.

Romance, ficção, heroísmo, um sonho que era agora real, de fato. Um sonho recheado de mistério, de aventura e certamente de fatalidades.

A trajetória descendente da nave não foi como desenhado. Os retrofoguetes necessários para diminuir a velocidade demoraram uma fração de segundo para sua ignição. Sem eles a nave desceria depressa demais, a atmosfera marciana de menor densidade não ajudava na frenagem. O impacto foi destrutivo.


A nave desceu inclinada e deitou-se no solo marciano em vez de se posicionar verticalmente. Dois cosmonautas pereceram no impacto.

Ao longo dos três anos que antecederam o pouso o comando central na Terra havia enviado diversas naves não tripuladas, deixando no solo marciano o equipamento necessário para o estabelecimento de uma colônia, que eventualmente seria auto-sustentável. Estava tudo lá, um pouco distante do local do pouso, cerca de 12 km, mas não tão longe que inviabilizasse o projeto. Estavam todos no Marte Vallis, na Elysium Planitia, uma região onde a NASA havia detectado a existência de canais subterrâneos.

Isto porque a vida, na superfície seria extremamente difícil. A radiação intensa, os ventos solares e as tempestades violentas de areia dificultariam a presença do ser humano. 

Temperaturas sub zero, podendo atingir a menos 80 graus centígrados dificultariam ainda mais o que já seria mais difícil de ser habitado do que a Antártida.

Os quatro sobreviventes iniciaram o translado do material recuperado da nave mãe e utilizando-se de um rover especialmente projetado para se locomover em terreno irregular. Após quatro horas de viagem chegaram ao local onde o equipamento deixado pelas naves de carga se encontrava.

O estado era bom, não poderia ser melhor. Após minuciosa avaliação, partiram para a instalação dos módulos e acoplamento com os painéis solares, geradores nucleares, bolhas articuladas e infláveis, feitas de plastico leve, extremamente resistente, translúcido e capaz de reduzir os raios solares. Um escudo de força foi instalado. Cobria todo o acampamento, reduzia radiação mas não impedia as tempestades de areia.

O local escolhido, Marte Vallis, ficava em uma planície cujo subsolo era rico em canais formados por chaminés vulcânicas e rios que outrora existiam no lugar.
Era imperativo descobrir gelo. Estudos iniciais indicavam a presença de oxigênio e hidrogênio no lugar. As medidas, embora fracas, davam a esperança que ali, debaixo do vale, existisse gelo em quantidade capaz de permitir a implantação de uma colônia exploratória.

Três semanas se passaram. De início uma dificuldade enorme nos movimentos. O corpo, já debilitado pela longa viagem espacial não se ajustava com a velocidade esperada pelos técnicos na Terra. Aos poucos a colônia tomava forma e os cosmonautas se arriscavam em pequenas incursões na direção do grande buraco que se via no seu lado sul.

Após um ano esperavam pela nave de suprimentos necessária à continuidade da missão. Nada havia sido encontrado até então. Nada que permitisse a alimentação com algo produzido naquele lugar. Os experimentos em botânica fracassaram. O solo necessitava de corretivos mais complexos e os raios solares, embora filtrados não forneciam a fotossíntese à níveis necessários para germinação completa dos espécimens. 

Precisavam de mudanças genéticas para adaptar as sementes ao clima marciano e isto iria tomar mais tempo do que esperavam.

A nave programada não chegou. Havia sido destruída por um asteroide em sua viagem ao planeta vermelho. Isto havia acontecido perto de Marte o que atrasaria o envio de outra para substitui-la.

Racionamento virou a palavra de ordem. Contavam-se e re-contavam-se os dias para saber se teriam comida suficiente até a chegada do outro cargueiro.

Não existia outra alternativa senão arriscar a exploração da chaminé vulcânica. Se encontrada água ou gelo no fundo do labirinto de canais, teriam pelo menos o líquido necessário à sobrevivência e produção de oxigênio. Com os alimentos havia ainda um pouco de latitude com relação à sua duração.

A primeira descida usou cerca de 340 metros de cabo. Uma plataforma se ligava a três outros tubos inclinados e descendentes. Até aquele ponto nada. Nenhum sinal de gelo, nenhum sinal de vida microscópica entranhada nas rochas do fundo ou nas paredes negras pelas lavas vulcânicas que ali passaram.

Estabeleceram uma segunda base para irem adiante. Escolheram o tubo que seguia para o sul. Era maior e mostrava sinais de que água, em tempos idos, havia circulado caminho abaixo.

Depois de outros 400 metros chegaram a uma grande sala. A temperatura do lugar havia subido uns 10 graus. O ambiente se situava em torno de menos 20 graus centígrados. Bem mais suportável. Seguiram em frente pelo único túnel que se apresentava grande o suficiente para passar. Desceram por mais 200 metros, uma descida difícil, em solo deslizante, areia e fina argila. Parecia levemente úmida, com certa pastosidade. Acharam estranho mas se entusiasmaram. Definitivamente água havia rolado pelo tubo em outras eras.

À medida em que desciam subia a temperatura a ponto de ficar acima de zero. Mais surpresos ficaram quando depararam com uma enorme caverna iluminada por incrustações fosforescentes.
A luz esverdeada se espalhava pelo salão. Este, enorme, com mais de dez metros de altura tinha dimensões equivalentes às de um teatro de três mil lugares. Era lindo…
A luz não era fixa, bruxuleava.
Ouviram água à borbulhar. Os níveis de oxigênio eram altos, perfeitamente adequados ao ser humano. A pequena piscina de água cristalina entrava por debaixo de uma parede de rocha negra, moldada pelo corrimento de lava em tempos idos. A água era limpa e potável.

Ao fundo, no encontro da abóbada com o piso, gelo em abundância. Cobria uma fenda que descia, numa queda sem fim, com seus dois metros de largura. Esta fenda circundava o grande páteo. Ali era gelado, sub-zero, mas há poucos metros adiante, a temperatura subia, controlada pelos vapores da piscina que se ligava provavelmente à uma câmara vulcânica com algum grau de atividade, do outro lado do salão.

O local era tão agradável que lhes permitiu tirar as vestimentas espaciais.
Na piscina mergulharam e ali pensaram em ficar para sempre. Por uma inexplicável razão se sentiam felizes, realizados. Algo lhes fazia sonhar. As cabeças à pensar em velocidade quântica. 

Visões de outros mundos, visões da Terra, visões de amores e amadas. Enquanto imersos na água imagens holográficas de uma resolução tão real que eram apalpáveis. Pensaram, por um momento, que haviam morrido. Pensaram estar recebendo a recompensa dos deuses do Olimpo, que viviam em Roma, que viviam em templos chineses, em pirâmides maias.

Mas, quando saiam daquelas águas tudo voltava ao normal. Somente a luz dançante, no seu verde exótico lhes dizia que ali ainda estavam.

Lenta, mas inexoravelmente, mudaram tudo da superfície para aquele lugar. Batizaram-no de Elysium Pédion. Campos elísios, local da felicidade eterna, governado por Hades, senhor do mundo inferior, filho de Cronos e Reia, irmão de Zeus. Como Hades também comandava o inferno, deram à superfície marciana o nome de Tártaro, o mundo do eterno sofrimento.

Ali eram felizes, os quatro, dois homens e duas mulheres.
Por um momento se esqueceram da segunda nave. O alimento se acabava…

Esta, para infortúnio de todos, destruiu-se na re-entrada. Nada pode ser salvo. Explodiu, e com ela todas as esperanças de sobrevivência.

Voltaram às entranhas de Marte, à Elysium, para seus últimos momentos. Despiram-se. Nas águas de Marte se banharam. 

Nas águas de Marte mergulharam e no mergulho viveram a mais intensa experiência de seres humanos. Os hologramas se multiplicavam, as cores se intensificavam, os flashes de luz verde bailavam em mudanças de matizes, em uma dança de luzes etéreas.

Amaram-se os quatro. Numa intensidade nunca vista, amaram-se como se fossem os últimos, como se fossem únicos. Fundiram-se em corpos moldados em forma ímpar, em orgasmos infindos. Na loucura do momento, na insanidade de suas mentes, se sentiram um só, e ao assim sentirem, notaram que não mais estavam sós.


Havia, naquele lugar, naquelas águas, naquele verde fantasmagórico um pequeno ser, pequeno, tão, pequeno, que havia passado desapercebido por todos. Era uma criaturinha linda, peluda, macia, de olhos doces. De olhos de amor.

Pois destes olhos o amor irradiava, desse ser mensagens telepáticas de uma doçura incomparável. Não havia como não se apaixonar à primeira vista. Era algo tão sublime que, naquele momento, pensaram estar no paraíso. Seria um anjo que cuidou deles desde o primeiro dia, quando descobriram a piscina?

De onde veio? Estava lá? Era de Marte?

Lentamente a criatura lhes revelou sua origem. Lá estava, já fazia centenas de anos, talvez milhares, não se lembrava mais de quando ali apareceu. Vivia só. Vivia a sonhar com o universo. Com sua imensa sabedoria projetava o que via e sentia em hologramas tão vivos que pareciam reais. Ali vivia, nas entranhas de Marte, num mundo quântico, o último sobrevivente daquele planeta.

O último marciano…

Sobrevivia alimentando-se dos esporos fosforescentes. Aquela matéria verde era um nutriente único, completo. Supria todas as necessidades energéticas de qualquer ser orgânico. Trazia com ele um componente inter dimensional capaz de fazer a matéria se desdobrar em viagens através dos universos, através dos tempos. Intensificava o poder quântico do DNA de qualquer ser.

Ao se alimentarem das incrustacoes verdes os cosmonautas se sentiram imbuídos de um amor que nunca haviam experimentado. Sua fome saciada, suas deficiências curadas, seus corpos eternamente jovens. Haviam encontrado o paraíso, a vida eterna…Haviam encontrado a sabedoria dos deuses…

Na Terra, após o fracasso das naves de reabastecimento, políticos deram como perdidas as vidas dos cosmonautas. No agir normal dos involuídos terráqueos, inocentes foram culpados e culpados foram exaltados.

O programa de colonização de Marte foi encerrado. Os cosmonautas esquecidos, erradicados dos livros de história.

Em Elysium Pédion quatro humanos viviam em harmonia com o último marciano. Jamais pensaram em voltar, jamais sentiram saudades. Viviam felizes onde o amor era pleno, como nos campos de junco dos antigos egípcios, Sehket Aaru, em Tian, na China, nas pradarias de Manitu, no Nirvana ou no monte Olimpo.

À Hades entregaram a Terra e a superfície de Marte, Tártaro, onde o eterno sofrimento permeava…

Ao nascerem os filhos do homem em marte, chamaram-nos de Apolo e Diana. 

Ao último marciano, chamaram-no de Zeus.

Nunca mais morreram…De lá nunca sairam…

A Terra nunca soube que a missão havia sido um sucesso sem precedentes…

Também, para que?

Aos medíocres restava Tártaro…