Capítulo II
THE QUANTUM GRID
Não sei o que se passou por mim. É bem verdade que interação
com pessoas de outro sexo era quase impossível. O mundo cresceu, a explosão
demográfica rendeu à Terra a exploração predatória dos recursos naturais, a
destruição do meio ambiente acelerou mudanças climáticas e, se não fossem as
viagens espaciais, eu poderia dizer que eventualmente a humanidade deixaria de
existir.
Morávamos em cidades semi-enterradas e verticalizadas. Um núcleo auto-suficiente. Produzia-se tudo e tudo era consumido. Até os rejeitos eram reciclados nos subterrâneos das cidades, onde as máquinas faziam tudo, com perfeição. O controle natal era rígido. O Conselho escolhia aqueles que procriariam e, tudo seria feito em provetas, DNA compatível para melhoramento da espécie.
No mundo do entretenimento o homem se perdia nas imagens e
sensações e, se isso não fosse suficiente, em doses de fornicália.
Fornicália era a droga do futuro. Havia sido descoberta por um cientista cubano e usada no controle da população comunista. Logo se tornou popular e sua utilização, em larga escala, permitiu a decadência dos regimes tradicionais e substituição pelas corporações que a produziam.
Era uma droga escravagista. As sensações orgásticas ao tomá-la geravam uma dependência contínua e inebriante. O homem não mais tinha vontade. Fazia o que necessário fosse para poder existir e mergulhar em viagens alucinantes. No processo morriam, e suas mortes eram geradoras do equilíbrio estabelecido pela “intelligentsia” superior, nos moldes da Rússia antiga.
Deram-lhe o nome de “Fornicália” em homenagem ao antigo festival romano em honra à deusa Fornax. O grão cozido, de onde provinha a droga, usado para a proteção dos seus fornos de cozimento, era a analogia ao “cozimento” do cérebro humano. Mas morrer de orgasmos, parecia uma proposta bem atrativa.
Nunca a tomei, por isso era aceito no sistema superior. Somente os desesperados, que viviam nas partes baixas das metrópoles sucumbiam ao seu encanto. E se tornavam inúteis. Da inutilidade à morte era somente uma questão de tempo.
As impressoras tridimensionais produziam o que era necessário para consumo. Os alimentos eram também materializados em cubos de energia, replicadores de matéria orgânica. Tudo era controlado pela inteligência artificial. Ao homem sobrou a gula e a luxúria.
Voltei-me à bela Gigi…
Sorvi meu drink…
O negroni é uma mistura de Martini Rosso, Campari e Gin. Um verdadeiro torpedo. Já estava no meu terceiro. A atendente, também linda, morena e simpática me alertava quanto aos efeitos etílicos. E, apesar de flutuar sob os mesmos, me concentrava em Gigi…ah… doce Gigi…
Nunca pensei que era capaz de conversar tanto. Nunca pensei que sabia coisas das quais falei, mas, quando a ouvia, me perdia no ritmo de sua voz, na melodia do som divino, no encanto de seus olhos.
As horas se passavam e o tempo parecia estático. Senti ser
necessário partir.
Em um beijo divino dela me despedi. Já havia passado mais de seis horas, eu embevecido, me achei apaixonado. Mas como podia estar, se ela era etérea, um produto de minha imaginação e produto de neurônios excitados por uma máquina?
O cérebro humano é misterioso. Não é um simples computador, daí
a diferença em relação à inteligência artificial. Com a interação simbiótica
dava para saber onde se passavam as informações recebidas, onde eram sonhos,
onde eram sinapses provocadas pelo programa. Mas a sensação do amor não era
quantificável. Nunca tinha sido e ainda não o seria. Era uma emoção, e emoções
não são registráveis em computadores.
Sentir amor pela criatura holográfica era possível? A máquina rejeitava, meu cérebro não. Deixei-me levar pela emoção.
E, prometi a mim mesmo que voltaria…
Amanhã o terceiro capítulo
O Conselho
Não percam…






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