O CONSELHO
Capítulo III
THE QUANTUM GRID
Já era o dia seguinte, não tão frio e luminoso. Os elevados da
metrópole eram modernos e aconchegantes. Uma arquitetura nas alturas, em
edificações de centenas de andares interligadas por vias suspensas e corredores
viários para cápsulas que levitavam num fluxo contínuo, controlado, sincopado.
Em baixo o caos, o submundo dos viciados, em cima, a “intelligentsia”, cúpula pensante de
humanos que ainda serviam para alguma coisa. Mais acima, o espaço livre, o azul
do céu, as mansões incríveis dos donos da Terra, as corporações.
No meu nível, eu interagia com o Conselho Urbanístico. Era
encarregado de estudar as opções desenvolvidas pelas máquinas, escolher ou
sugerir outras alternativas. Estas, ficavam cada vez menos viáveis ante ao seu
contínuo desenvolvimento.
Procurei estabelecer um desafio objetivo para
melhoria do mundo inferior. Um assunto perigoso.
A luz e luminosidade eram acessíveis aos humanos dos níveis
mais altos. O escuro predominava nos labirintos dos subterrâneos onde todo o
processamento dos refugos era feito antes de retornarem aos poucos cursos d’água
que sobraram. Ninguém, nem as máquinas se interessavam pelo bem estar destas
criaturas. Para a inteligência
artificial o que lá havia era descartável, humanos inclusive.
A proposta do dia era única.
Opção para expansão das áreas de programadores humanos para a
nova geração de holografia quântica. Habitat e tecnologia. Os novos Quantum Grids.
Pedi vistas e voltei. Queria repetir a experiência que havia
tido no Grid.
Meus colegas no Conselho estranharam. Nunca havia pedido
vistas antes. As máquinas imediatamente estabeleceram prazos. Cronogramas de
implantação não poderiam ser mudados, As corporações já faziam contas dos
lucros com a tecnologia de hologramas de resolução semi-real.
Concordei.
No Grid me encontrava novamente. Pensei em tentar outro
programa, mas na hora de fazer a seleção apertei o botão da Gigi.
O negroni estava excepcional. Talvez o Gin usado fosse o
Bombay em vez do Gordons. Era muito melhor. Meu crédito era alto, podia pagar pela
melhor bebida.
No bar, a morena me perguntou por que voltara. Respondi:
“quero ver Gigi…”
Ela não estava…retrucou com um sorriso irônico.
Como? Não era parte do programa? Não estaria lá para interagir
com minhas sinapses gerando os sonhos que esperava? Não obtive resposta e,
aborrecido fui para casa.
Pensei em deixar uma nota de protesto junto ao servidor.
Bastava acionar o programa de atendimento ao cliente em meu e-pad. Por razão
que não sei explicar, não o fiz. Simplesmente voltei para casa e com ela
sonhei, um sonho real, à antiga, sem sinapses programadas, sem enredo pré-determinado.
Mas foi um sonho satisfatório. Na realidade exuberante, pois nele amei Gigi em
mil formas. Nela, em seus braços, me perdi. Nela achei um amor que não pensava
existir.
Eu era outro. Renascido em um mundo cibernético, vivo sem o
controle das máquinas.
Ao nascer, cada um de nós recebia dois implantes. O primeiro
controlava todos os sinais vitais e todos seus movimentos. O segundo era ligado
ao conteúdo programático. Através das cordas quânticas do DNA humano a inteligência
artificial agia direcionando o ser para o bem estar comum. Se George Orwell
tivesse visto este futuro, teria ficado ainda mais estarrecido. Afinal, em 1984
“Big Brother” controlava através de telas, hoje, através de implantes. Muito
mais eficiente…
Mas era verdade que o crime já não mais existia. Com exceção
do que acontecia nos baixios, acima, somente uma suposta felicidade. Um Nirvana
cibernético.
O Estado praticamente não existia. Confinava-se às forças de
repressão e policiamento. Um policiamento de fato forte, mas discreto. O “gendarme”era robótico. Entendia de
leis, não entendia de sentimentos.
Voltei ao Conselho.
Mais uma vez surpreendi meus colegas e as máquinas. Pedi para
visitar as áreas atuais onde estavam os programadores. Queria entrar e ver o
ultra secreto mundo do amanhã. Ver de perto como trabalhavam as mentes mais
brilhantes do homem. Queria sentir, ali, naquele lugar, que ainda eramos
importantes. Justifiquei dizendo que era isto que arquitetos faziam.
As máquinas retrocederam por um instante e, para minha
surpresa…pediram vista ao que propus.
Voltei para o mundo dos cubos.
Queria ver Gigi, de novo. Não nos meus sonhos, mas ali, real,
na minha frente, poder tocá-la, poder beijá-la. Não tinha explicação para o que
estava acontecendo. Ela não era real. Não era lógico sentir amor por uma projeção.
Havia, bem no fundo, algo que me surpreenderia. Sentia o
inexplicável tomando conta de mim. Sentia o inesperado…
No Grid, o mesmo procedimento. A máquina me lembrou que já era
a terceira vez, em curto espaço de tempo, que eu ali estava. Os créditos usados
diminuíam meu saldo rapidamente.
Quando entrei, lá estava ela, segurando um negroni.
Era para mim, disse. Sabia que eu viria. Mas como saberia que
eu a programaria para aquele momento?
Beijou-me. Seu beijo era doce. Disse que me amava.
Amor e emoção, máquinas ou projeções não deveriam expressá-las.
Parei de pensar e mergulhei em seus braços. Amor ou não, emoção ou não, não
perderia aquele momento por nada deste mundo. Eu estava apaixonado por Gigi e
ela por mim.
Nos dias subsequentes gastei o resto de meus créditos. Do bar
passamos a viajar pelo mundo. Fomos ate o Caribe, para um fim de semana. Falávamos
de tudo, vivíamos intensamente. Fizemos amor. Tudo isto no Quantum Grid. Tudo
num mundo virtual, sem sair do lugar.
Há de se dizer que as máquinas criaram algo tão perfeito que
era difícil distinguir o que era real, o que era fantasia. Na intensidade
daqueles dias vivi como nunca tinha vivido. Experimentei sensações únicas e
luxuriosas. Não havia como explicar as emoções que existiam em mim e que nela
se afloravam.
Ao sentir a realidade de que não iria vê-la por uns tempos,
recebi um recado do Conselho. As máquinas haviam autorizado minha visita.
Ótimo! Fiquei feliz. Representaria créditos adicionais.
Poderia ver Gigi, de novo…
A Central de Programas era uma edificação gigantesca. Ficava
no centro da metrópole. Dela saiam vias suspensas ligando-a à tudo. Os
programadores viviam em um luxuoso espaço, cada um em um mundo virtual, criado
por eles e somente para eles. Eram a fina flor da humanidade. As corporações os
tratavam à pão de ló.
A demanda pelos serviços havia crescido. Alguns programadores
já ocupavam espaço junto com outros. E isso, não era aconselhável. Interferia na
criação programática. Era justificada a expansão.
Já estava saindo quando notei uma sala aos moldes do Quantum Grid.
Quadrados separados por tubos quânticos criavam campos virtuais de beleza
incomparável. No centro a figura de uma bela mulher. No centro Gigi.
Quando me viu, não sei se me reconheceu. Havia algo… algo sem
explicação.
Era ela, mas não a Gigi holográfica. Esta era real…
Gigi existia..
Tomorrow another chapter
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Que realidade escabrosa essa do mundo cibernético
ResponderExcluir.......viajar sem sair do lugar, amar sem contato físico?
Wow isso é um mundo as avessas ...vamos ver o
que nos aguarda o próximo capítulo....
It is on...see it for yourself...kkk
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