quinta-feira, 7 de dezembro de 2017



O CONSELHO

Capítulo III
THE QUANTUM GRID


Já era o dia seguinte, não tão frio e luminoso. Os elevados da metrópole eram modernos e aconchegantes. Uma arquitetura nas alturas, em edificações de centenas de andares interligadas por vias suspensas e corredores viários para cápsulas que levitavam num fluxo contínuo, controlado, sincopado.



Em baixo o caos, o submundo dos viciados, em cima, a “intelligentsia”, cúpula pensante de humanos que ainda serviam para alguma coisa. Mais acima, o espaço livre, o azul do céu, as mansões incríveis dos donos da Terra, as corporações.

No meu nível, eu interagia com o Conselho Urbanístico. Era encarregado de estudar as opções desenvolvidas pelas máquinas, escolher ou sugerir outras alternativas. Estas, ficavam cada vez menos viáveis ante ao seu contínuo desenvolvimento. 

Procurei estabelecer um desafio objetivo para melhoria do mundo inferior. Um assunto perigoso.

A luz e luminosidade eram acessíveis aos humanos dos níveis mais altos. O escuro predominava nos labirintos dos subterrâneos onde todo o processamento dos refugos era feito antes de retornarem aos poucos cursos d’água que sobraram. Ninguém, nem as máquinas se interessavam pelo bem estar destas criaturas.  Para a inteligência artificial o que lá havia era descartável, humanos inclusive.

A proposta do dia era única.

Opção para expansão das áreas de programadores humanos para a nova geração de holografia quântica. Habitat e tecnologia. Os novos Quantum Grids.

Pedi vistas e voltei. Queria repetir a experiência que havia tido no Grid.

Meus colegas no Conselho estranharam. Nunca havia pedido vistas antes. As máquinas imediatamente estabeleceram prazos. Cronogramas de implantação não poderiam ser mudados, As corporações já faziam contas dos lucros com a tecnologia de hologramas de resolução semi-real.

Concordei.

No Grid me encontrava novamente. Pensei em tentar outro programa, mas na hora de fazer a seleção apertei o botão da Gigi.

O negroni estava excepcional. Talvez o Gin usado fosse o Bombay em vez do Gordons. Era muito melhor. Meu crédito era alto, podia pagar pela melhor bebida.

No bar, a morena me perguntou por que voltara. Respondi: “quero ver Gigi…”

Ela não estava…retrucou com um sorriso irônico.

Como? Não era parte do programa? Não estaria lá para interagir com minhas sinapses gerando os sonhos que esperava? Não obtive resposta e, aborrecido fui para casa.

Pensei em deixar uma nota de protesto junto ao servidor. Bastava acionar o programa de atendimento ao cliente em meu e-pad. Por razão que não sei explicar, não o fiz. Simplesmente voltei para casa e com ela sonhei, um sonho real, à antiga, sem sinapses programadas, sem enredo pré-determinado. Mas foi um sonho satisfatório. Na realidade exuberante, pois nele amei Gigi em mil formas. Nela, em seus braços, me perdi. Nela achei um amor que não pensava existir.

Eu era outro. Renascido em um mundo cibernético, vivo sem o controle das máquinas.


Ao nascer, cada um de nós recebia dois implantes. O primeiro controlava todos os sinais vitais e todos seus movimentos. O segundo era ligado ao conteúdo programático. Através das cordas quânticas do DNA humano a inteligência artificial agia direcionando o ser para o bem estar comum. Se George Orwell tivesse visto este futuro, teria ficado ainda mais estarrecido. Afinal, em 1984 “Big Brother” controlava através de telas, hoje, através de implantes. Muito mais eficiente…

Mas era verdade que o crime já não mais existia. Com exceção do que acontecia nos baixios, acima, somente uma suposta felicidade. Um Nirvana cibernético.

O Estado praticamente não existia. Confinava-se às forças de repressão e policiamento. Um policiamento de fato forte, mas discreto. O “gendarme”era robótico. Entendia de leis, não entendia de sentimentos.

Voltei ao Conselho.

Mais uma vez surpreendi meus colegas e as máquinas. Pedi para visitar as áreas atuais onde estavam os programadores. Queria entrar e ver o ultra secreto mundo do amanhã. Ver de perto como trabalhavam as mentes mais brilhantes do homem. Queria sentir, ali, naquele lugar, que ainda eramos importantes. Justifiquei dizendo que era isto que arquitetos faziam.

As máquinas retrocederam por um instante e, para minha surpresa…pediram vista ao que propus.

Voltei para o mundo dos cubos.

Queria ver Gigi, de novo. Não nos meus sonhos, mas ali, real, na minha frente, poder tocá-la, poder beijá-la. Não tinha explicação para o que estava acontecendo. Ela não era real. Não era lógico sentir amor por uma projeção.

Havia, bem no fundo, algo que me surpreenderia. Sentia o inexplicável tomando conta de mim. Sentia o inesperado…

No Grid, o mesmo procedimento. A máquina me lembrou que já era a terceira vez, em curto espaço de tempo, que eu ali estava. Os créditos usados diminuíam meu saldo rapidamente.

Quando entrei, lá estava ela, segurando um negroni.


Era para mim, disse. Sabia que eu viria. Mas como saberia que eu a programaria para aquele momento?

Beijou-me. Seu beijo era doce. Disse que me amava.

Amor e emoção, máquinas ou projeções não deveriam expressá-las. Parei de pensar e mergulhei em seus braços. Amor ou não, emoção ou não, não perderia aquele momento por nada deste mundo. Eu estava apaixonado por Gigi e ela por mim.

Nos dias subsequentes gastei o resto de meus créditos. Do bar passamos a viajar pelo mundo. Fomos ate o Caribe, para um fim de semana. Falávamos de tudo, vivíamos intensamente. Fizemos amor. Tudo isto no Quantum Grid. Tudo num mundo virtual, sem sair do lugar.


Há de se dizer que as máquinas criaram algo tão perfeito que era difícil distinguir o que era real, o que era fantasia. Na intensidade daqueles dias vivi como nunca tinha vivido. Experimentei sensações únicas e luxuriosas. Não havia como explicar as emoções que existiam em mim e que nela se afloravam.

Ao sentir a realidade de que não iria vê-la por uns tempos, recebi um recado do Conselho. As máquinas haviam autorizado minha visita.
Ótimo! Fiquei feliz. Representaria créditos adicionais. Poderia ver Gigi, de novo…

A Central de Programas era uma edificação gigantesca. Ficava no centro da metrópole. Dela saiam vias suspensas ligando-a à tudo. Os programadores viviam em um luxuoso espaço, cada um em um mundo virtual, criado por eles e somente para eles. Eram a fina flor da humanidade. As corporações os tratavam à pão de ló.

A demanda pelos serviços havia crescido. Alguns programadores já ocupavam espaço junto com outros. E isso, não era aconselhável. Interferia na criação programática. Era justificada a expansão.

Já estava saindo quando notei uma sala aos moldes do Quantum Grid. 

Quadrados separados por tubos quânticos criavam campos virtuais de beleza incomparável. No centro a figura de uma bela mulher. No centro Gigi.

Quando me viu, não sei se me reconheceu. Havia algo… algo sem explicação.
Era ela, mas não a Gigi holográfica. Esta era real…

Gigi existia..




Tomorrow another chapter
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2 comentários:

  1. Que realidade escabrosa essa do mundo cibernético
    .......viajar sem sair do lugar, amar sem contato físico?
    Wow isso é um mundo as avessas ...vamos ver o
    que nos aguarda o próximo capítulo....

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