sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018




OS ESPIÕES DE BELZEBU


As coisas não andavam bem no andar de baixo. Depois de reuniões sucessivas o grande chefe chegou à conclusão que praga não morre.

Olhou para cima, depois da Terra, no azul do céu, pensou, e disse: “Não adianta nem câncer, eles não morrem mais como antigamente. Não quero pedir ajuda à turma do alto. É vexame demais.

Convocou o conselho.

A capetada compareceu em massa. Andavam meio gordos, os tridentes enferrujados, não assustavam mais ninguém. O Tinhoso andava de mau humor. Não somos mais os mesmos, bradou.

Um capetinha mais jovem, daqueles que havia cursado a escola de um tal de PT, sugeriu enviar uns espiões bem escolhidos lá para cima, na Terra. Tinham de descobrir por que não desciam mais os clientes do inferno. O lugar já parecia casa mal assombrada.

Belzebu, com sua voz soturna, ficou de pé e conclamou: “ Faça-se o plano do jovem capeta. Vamos enviar nossos melhores espiões. Que voltem com resultados, não tem mais graça ficar fritando os mesmos caras todos os dias.”

Cinco foram escolhidos, quatro capetas machos e um fêmea. Esta última, Maria Satânica tinha se formado em Langley, na CIA. Era a fina flor da diabada. Os outros quatro eram todos cubanos treinados na Venezuela. Tinham sido do programa “Mais Médicos”, peritos em diagnósticos errados.

Partiram para cima depois de uma festa de arrancar rabo de capeta. Eram a esperança de dias melhores.

Maria Satânica foi para o Brasil. Ficou embasbacada. Lá tinha ex-president(a) que tinha câncer e não morria, tinha outro que já havia sido presidente, condenado, que também tinha a doença, não morria e continuava pentelhando à todo vapor, um cadáver insepulto. Tinha ladrão de tudo quanto é jeito. Eram ladrões de bilhões em treinamento para trilhões. O povo lá era frito, assado, churrascado todos os dias. O pior é que continuavam à votar neles, de novo. Descobriu que gostavam de ser torturados, por isso, já não tinham mais vocação para ir aos infernos.

Tirou fotos, fez relatórios, escondeu tudo na calcinha. Foi pega pela PF. Acharam que era do PMDB, jogaram-na no xilindró, foi estuprada pelos guardas e pelas coleguinhas de cela. Teve de virar lésbica para sobreviver.

Após muito esfôrço e depois de se prostituir oficialmente, conseguiu que seu cafetão, líder da bancada do PP, enviasse os dados para a turma lá de baixo.

O primeiro dos quatro cubanos se chamava Infidel Castrado. Era inclinado ao lado de lá. Infiltrava-se pela LBGT, sabia de tudo. Descobriu que 99% dos deputados e senadores gostam de aventuras flexíveis. Trocavam com mulheres, homens e até com alguns animais. Ali, na cama, contavam tudo. Indicaram a preferência pela desgraça que criavam. Por que iriam para o inferno? Podiam sacanear todos, podiam ser sacaneados por todos. Gostavam mesmo é de sacanagem. O inferno já estava retrógrado, só tinha fogo, churrasco de partes íntimas, espetadas de garfos no traseiro. Aqui, na terra a sacanagem era muito mais versátil.

Belzebu leu, enfureceu-se, esperneou e encomendou uma empresa de consultoria islâmica, especialista em decapitações, para melhorar o leque de opções infernais.

O segundo cubano se chamava Chávez. Não era do tipo maduro, era mais jovem, mas sabia conversar com passarinhos. Fumava baseados. Estava ultrapassado. Quando aterrizou na Venezuela teve de comprar umas drogas do enteado do El Presidente. Foi preso com ele, enviado para os States e virou servente de uma igreja evangélica especializada na extração de belzebus.

Seu relatório foi um fiasco. Dele o grande Belzebu só extraiu o fato que os tais evangélicos eram muito piores do que os exorcistas. Davam porrada com a Bíblia na cabeça da vítima. Assim, não há belzebu que aguente!

O terceiro cubano era meio árabe. Tinha barbicha e tudo. Chamava-se El Fresco. Fingia de macho mas era homo mesmo. Gostava de fazer rodinha nas praias muçulmanas onde não existem mulheres. Dançava de mãos dadas com um bando de homens vestidos de saia. Mas falava arabique.

Foi parar na Síria. O Califa, que era tarado, passou o bicho no papo. Soltou-o no meio de um bombardeio francês. Os franceses estavam um tanto ao quanto “pissed off”  (putos, mesmo) com a turma lá do deserto. Soltaram mais bombas do que as melancias de um caminhão cheio delas. Caíram todas no coitado do El Fresco.

Meio em frangalhos foi ver um espetáculo decapitante. Diversos fanáticos muçulmanos, com turbante e tudo, facões nas mãos, gritando cânticos jihadistas, cortavam cabeças para tudo quanto é lado. No final, já havia uma pirâmide de cabeças tão grande quanto as de Gizé.

Chegou a conclusão que os tais islâmicos não servem para o inferno. Já imaginou se numa das orgias locais aparece um deles e se explode tudo, levando o grande Satanás no bolo? Estes caras não têm disciplina...

O último, mas não menos importante capeta-espião era um cubano filho de venezuelano com uma norte-coreana. Chamava-se Kim Fidel Yung, o primeiro. A mãe havia transado com um líder italiano em uma das festas Bonga-Bonga, pode até ter sido filho dele. Falava igual a pobre na chuva.
Entrou pela fronteira com a Coreia do Sul.

Não se deu bem. O grande líder local mandou fuzilá-lo. Arrumou um batalhão da artilharia, apontou o canhão, e mandou bomba. Foi pedaço de diabo para todos os lados. Felizmente para ele, capeta não morre. Depois de uns trinta minutos conseguiu juntar as partes e colou tudo com super cola.

Sugeriu ao mestre do mal adotar a prática norte-coreana. A turma de lá estava tão treinada nas execuções que não viam nenhuma vantagem em condenar ninguém aos infernos.

Belzebu chorava. E olha que não fica bem capeta chorar. Mas não tinha jeito. O negócio era fechar o inferno e mudar para cima, na Terra.

Chamaram a Lusitana, afinal o mundo gira e a Lusitana roda. Levaram tudo para cima. Se filiaram ao PT, compraram Bíblias para dar porrada nos outros, uns canhões para explodir os condenados, só fumavam charutos cubanos e contrataram jihadistas sedentos por pescoços inteiros.
                                                                                                      
Aí, veio a grande ideia. Pegou o telefone, com muito custo, ligou para o tal de Deus. Contou a história toda.

Deus, que já estava danado com as coisas mais infernais da Terra e não estava satisfeito com a competição dos locais com a instituição diabólica que ele havia criado, concordou com Belzebu.

Com um único decreto celestial, extinguiu o programa das 72 virgens, cassou o registro do PT, fez mofo crescer nos charutos do Fidel, enferrujou as facas dos islamitas,  proibiu o passarinho de falar com o Maduro e dedurou a Dilma e o Lula para o FBI.

Uma sacanagem digna dos infernos!

Belzebu nunca esteve tão feliz...




quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018


CADÁVER INSEPULTO

O PT não presta.

Partido originariamente cheio de ideais válidos perdeu sua validade.

Apodreceu…

No afã de ter e deter o poder vendeu-se ao diabo. Este, na forma de um desclassificado apedeuta, barbudo e mentiroso mostrou-lhes o caminho das pedras…o peleguismo. Juntaram a fome com a vontade de comer. Comer comida rota, estragada, corrompida, mortadela vencida.

Coisa típica de capeta.

Pois neste capetismo venderam a alma ao dito cujo. Venderam os tais ideais que nada eram senão um ajuntado de mentiras, favores ilícitos e compra de votos. Ideais estragados como a mente podre de seu líder máximo.

O líder morreu.

Só não sabe que está morto.

A esquerda démodé luta insanamente para manter, o que já faleceu, vivo ainda. Precisa do líder, precisa do pacto demoníaco, precisa do poder, pelo poder, à todo o custo.

O morto, que não sabe que morreu, arrota.

De sua boquirrota voz só saem impropérios.

Também, para quem fez pacto com o tinhoso nada de bom pode produzir. 

Sua vendida alma ainda quer levar outras às profundezas. Tem que honrar o compromisso feito com o senhor das trevas.

Mas, morto está. E morto ficará.

Insepulto, por muito tempo…


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018


CHUVA

Chove chuva, chove molhada, assanhada…
Chove… manhã cinza.
Sem graça, embaça a vidraça…
Mas chove gostoso, de jeito dengoso,
Molha molhado, molha com graça!

Chora na chuva…
Um choro molhado…
Chora coração…
Perdido ou achado.
Me deixa um pedaço, que eu quero um abraço.

Chega chuva…
Chega do espaço.
Chove, me molha…
Leva a tristeza, traz a beleza…

Dos campos molhados, dos galhos suados.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018


JACK OR JOÃO?

Barrica numero sete. Ol’Daniels you’re back!

A tarde se perde na escura noite. O sol fugidio em último estertor se divide em cores ainda não pinceladas. Mas, pitadas em um Cohiba e uma taça na mão, me dão esperança, que neste último instante, à luz das estrelas, me verei coberto em raios argênteos.

Por isso me perco, no dourado do líquido me liquido, sonhando com o ouro dos cabelos e o doce sabor de lábios de mel, da bela musa, sereia de mil sonhos, ali despida, desnuda, desfalecida de amor…
Mas me acho de novo, do Jack ao João, o Johnny dos íntimos, no verde feltro de um casino de loucos, em deserto pintado, em roletas rolantes, inebriantes, vermelho no preto, falência e demência.
Joãozinho por que andas? Ol’Daniels be back! Oh!... my sweet Valentine, a quero, em um Ballantines. Crystal em cristalina taça, Martinis à parte, my name is Bond, sou James, não Johnny, me chame de Jack.

Em Vegas encontro, bela loira, linda morena. Se perdido já estava, mais lost fiquei.

Oh Daniels…be back!

Preciso de Bacco, preciso de espaço,

Me despedaço!



domingo, 28 de janeiro de 2018


MOTO CONTÍNUO
Dedicado à Sheila van Leyen, no dia do amigo {julho 2017}

1.
Nasceu pequeno, chorando, pedindo só amor.
Um pedaço de dois, cheio de carinho e calor,
Alí, sozinho, com o mundo esperando.
Um senhor daquele espaço, à procura um abraço.
Passa o tempo, passa a vida, passa sempre pra frente…
E, como um trem, passa dolente…
Vai devagar, para aquele pequeno,
Que sem paciência quer ser logo velho.
Não sabe ainda, que mundo bonito, também tem veneno.        
Não ouve seus pais, não gosta do espelho.
Quer o vento tomar, empurrar o tempo, sem tempo…
Pro tempo esperar…


Passa o tempo, sopra o vento…
Passam amores, desamores.
Ficam beijos, ficam lágrimas…
Choram sonhos, sonham flores.

2.
Num momento do tempo, soprou-lhe um vento,
De momentos felizes, alegrias e alentos.
Amores achados, amigos amados,
Embevecido ficou, inebriado de amor…
Em falsos abraços achou seu espaço.
Não era o de fato, mas sim sem calor,
E dos amores verdadeiros, dos acalentos ardentes,
Ficou só o gelo, da falsa ilusão…
Que o mundo de então era só perdição,
Sem o brilho da luz, de uma estrela cadente.


Passa o tempo, sopra o vento…
Alegrias e sorrisos,
Ficam memórias, ficam brilhos,
Choram amores e amadas…




3.
E então o tempo com seu vento,
No trem da vida, ficou velho, ficou lento.
Mas o pequeno menino, de pressa apressada,
Mais velho ficou, perdendo, com a pressa,
O amor que passou…
Chorou, não se achou, seu corpo vergou,
Amigos perdidos, amores fugidos.
Nas lágrimas vertidas, somente o suspiro,
Num copo de um bar, num brinde sem gosto,
Num enterro do amigo, chorou de desgosto…




Passa o tempo, passa o vento,
Chora a alma, choram dores,
Amigos achou, de todos fugiu.
Choram sonhos, choram amores.




4.
Mais frio no tempo, seus brancos cabelos,
Voam ao vento procurando modelos,
Que ainda lembrava, menino, brinquedos,
Nas barras das saias de quem sempre amou,
Que com alvos cabelos com carinho o beijou,
Acariciou e deixou, a saudade infinita,
Que sua alma criança em carícias infindas,
Marcou de tristeza, com aquela beleza,
Que agora sabia, não mais voltaria,
Num pranto de dor, chorou e sentiu, perdão lhes pediu…



Passa o tempo, passa o vento,
Esfria a alma e o coração.
No velho da vida, sentiu esperança,
Choram sonhos, choros de criança.



5.
No ocaso tão triste, da vida partistes,
Deixando uma prece, achou que sorristes,
Mas quando perdido encontrastes,
Uma outra porta abristes,
Para nela saber porque tu existes,
Pois a vida querido, é uma coisa partida…
Em pedaços de dor e em bocados de amor…
Nunca acaba, só passa…
Para outro pequeno, com seu choro escaleno,
Fugir do veneno, que o tempo sereno, certamente trará.



Passa o tempo, passa o vento,
Nasce outro lindo rebento,
Ficam amores, ficam amigos,
Sonham sonhos infinitos, sonham sonhos mais bonitos…



Summer's flowers

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

DIA MALUCO

Dia de nada. Às vezes um nada, que é tudo.
Dia de tempo perdido, em mundo não achado.
Dia de capeta que não morre, mas da justiça corre…
Pois capeta discorre, besteiras mil,
Neste bobo Brasil, de um povo servil.
Capeta escorrega, quiabo que é.
Capeta não quer, mas capeta quer…
Que o inferno, que é dele,
Seja também seu, lhe corroa a pele.
Dia maluco, se não prende, solta…
Se solta não prende.
Se rouba, mas faz, pode o povo roubar…
País de maluco, dia de maluco, relógio cuco,
Marcando a hora…

Da cadeia chegar.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

domingo, 21 de janeiro de 2018


A DIMENSÃO DO ARQUITETO
Capítulo 1

EM YALE

Era um arquiteto.

Formou-se em outras plagas, mas sua alma de arquiteto o fazia um cidadão do mundo.

Teria tido sucesso onde quisesse. Formou-se e mandou-se. Mandou-se para as terras do norte.

Lá, pensava, teria seu trabalho publicado em magazines. Teria um reconhecimento mais amplo, seria mais feliz. Mas como felicidade é um estado de espírito, o teria sido em qualquer lugar.

Em uma terra onde se prestigia o arquiteto acabou por ser convidado a projetar, em parceria com um criativo colega de Washington, um edifício singular. Laboratórios de ciência do meio ambiente justapostos ao famoso Peabody Museum.
Yale é uma universidade fantástica. Em seu campus exemplos da melhor arquitetura. Mas é pelos seus edifícios de expressão gótica que se destaca. Afinal, é uma universidade da Ivy League.
Ali, os arquitetos escolhidos são, via de regra, ex-alunos de sua faculdade de arquitetura e, embora não o fosse, recebeu o prestigioso convite.

Arquitetura à parte, foi ali, após sua execução, que teve sua maior aventura.

Havia um laboratório de física quântica. Nele experimentos avançados estudavam a possibilidade de abertura de uma passagem para outras dimensões ou mundos paralelos. No laboratório, uma estranha máquina criava um espaço virtual que supostamente interagia com outras dimensões.

No edifício, em sua entrada principal, existia um esqueleto completo de um velociráptor. Realmente espetacular… os ossos da criatura do passado pareciam levá-lo novamente à vida, aterrorizando à todos que ali chegavam. Era uma cross section…passado e futuro.


Junto aos laboratórios, criados com as melhores condições e equipamentos de controle havia coleções de fósseis raríssimos amealhados ao longo da história da universidade por cientistas e arqueólogos que marcaram época pelos descobrimentos. Eram todos pertencentes ao acervo do Peabody Museum.

A edificação era em estilo gótico. Uma representação moderna de algo de um passado nobre, adaptada as exigências dos códigos atuais. Mas existia em perfeita harmonia com a arquitetura do museu ao seu lado.

Marcus Antonius, Mark para os amigos, era um arquiteto ousado.

Em seus sonhos, queria conquistar o mundo. Neles se via como um Indiana Jones, um Frank Lloyd Wright, um Andrea Paladio. Sua vontade de criar espaços equilibrados e eficientes era igual à sua mente inquisitiva a procura de aventuras e desafios.

A sala quântica o deixou pasmo.


Era um domingo. Estava ali, apesar do museu fechado. Era o arquiteto e por isso deram-lhe a autorização. Mais precisamente eram 18:39. Sabia do tempo pois o grande relógio digital à porta do laboratório o dizia, em luz azul.

Máquinas estranhas interligadas por fios, cabos, tubos de vidro. Ao centro uma trama, em forma de cubo, paredes, tetos e piso, num emaranhado de tubos dispostos geometricamente. Dentro deles um líquido azul, transparente, reluzente.

Uma série de monitores interligados entre si indicavam a complexidade das informações ali expostas. Alguns continham fórmulas, outros gráficos, luzes piscantes, imagens não discerníveis. Eram todos intrigantes e novos. 

Não se lembrava ter projetado aquele laboratório para o que ali continha. Deduziu ser algo desenvolvido após o término do projeto. Talvez algo secreto, não explicado à época de sua programação.

Mas ali estava e era real.

E Mark, ousado que era, não se limitou a simplesmente olhar…resolveu apertar uns botões…

E então…

Capítulo 2

O PORTAL



Já havia algum tempo desde que alguns cientistas se propuseram a criar um portal que nos levasse a outras dimensões. O objetivo era o tempo, como controlar a quarta e quinta dimensões.

A ideia de time travel se baseava em encurtar o tempo à frente e esticá-lo após passar pelo cubo, e vice-versa. O cubo não se moveria. O tempo acelerado levaria aqueles que estivessem dentro da trama a viajarem para o future ou passado, sem sair do lugar onde estavam.

Nas tentativas que tinham sido feitas anteriormente nada havia se concretizado. Estavam por abandonar a ideia.
Mark era curioso e era também bom em física quântica. Muito bom.

Estudava a formula que estava exposta no monitor maior. Notou que a equação abria as portas para uma mudança de objetivo. Não se limitaria ao movimento dimensional mas sim permitiria a abertura de um portal para um universo paralelo. Afinal, quando acionada, a trama criava uma distorção quântica, um worm hole. Ali estava a chave do portal.

A teoria dos universos paralelos indicava que quando uma decisão quântica é tomada os universos se desdobram. 

Naquele momento o tomador da decisão existiria onde estava e, ao mesmo tempo, no mundo desdobrado onde seguiria seu outro caminho com a decisão não tomada.

Equivaleria dizer que, se um gato na palma de sua mão estivesse à frente de um petisco e, ao fechar a mão, com o gato e o petisco, duas coisas poderiam acontecer no momento em que a mão fosse aberta. O gato comeria o petisco ou o gato ali estaria ainda em frente ao mesmo. Mas na realidade ambos os casos acontecem. Antes mesmo da mão se abrir já escolheríamos o que quereríamos ver. Assim se o gato comeu o petisco, ele também não o comeu. Somente que, na segunda hipótese, isso aconteceu em um universo paralelo.

Mark também havia estudado arqueologia. Não no sentido acadêmico, mas era um leitor ávido. Já teria até arriscado explorar as ruínas de Tikal. Lá encontrara indícios de outros edifícios enterrados pela floresta. Seu conhecimento de arquitetura o levava a deduções lógicas pelo simples acompanhamento da disposição das edificações entre si.

Por isso apertou o botão.

Não era um botão qualquer. Situava-se ao centro de uma larga mesa. Acionava as máquinas que distribuíam fótons desmembrados e replicados através dos tubos. Transmutação em escala gigantesca. Teleportação em consequência direta.

Ajustou a equação e ativou o main frame. Os computadores entraram em transe. Rapidamente equações eram resolvidas e a velocidade dos fótons nos tubos, aumentada.

A trama iluminou-se.


Uma estranha e volátil membrana começou a se formar. 
Parecia uma camada de água, verticalmente disposta. Luminescia. A cor era esverdeada, a película tênue.

Adentrou o cubo. Sentiu uma estranha sensação formigante ao atravessar a barreira virtual. Era como se a lâmina de luz analisasse cada átomo de seu corpo. Sentiu-se dono de tudo, corajoso, intrépido. Era o Indiana Jones do futuro…

O redutor quântico emitiu um som estridente. Junto, um vórtex, a princípio tímido, se formou.
Mark dele se aproximou e enfiando a mão dentro do campo magnético sentiu-se preso. Tentou retirar a mão, mas não conseguiu. Um pouco assustado tentou desligar a máquina com a mão livre. A distância era muito grande. Falhou.

Perdeu a consciência por um breve momento. Quando a recobrou, achava-se do outro lado do vórtex.
Havia penetrado um outro universo. Havia criado um portal quântico.

Mark, o intrépido, estava estarrecido.

Capítulo 3

O OUTRO MUNDO


Não era o que esperava.

Um mundo de vegetação intensa, luxuriosa, estranha. Poder-se-ia dizer que estava em um parque jurássico. Insetos gigantes, criaturas fantásticas, répteis…muitos dentes. Não era o mundo de onde veio, era um mesmo mundo, em outro universo. Havia se transladado através do worm hole. Estava perdido…não havia volta.

Cuidadosamente estudou o local. Usou seu conhecimento de arqueologia, estudou amostras do solo, esfarinhou-as em sua mão.

Um calafrio o fez realizar que ali, naquele universo, a Terra não havia sido atingida por um grande meteoro. Estava intacta. Isso significava que os dinossauros ainda existiam e se existiam, não havia o homem e, se este ainda não ali estava significava que era o único. E único humano em terra de répteis gigantes significava somente uma coisa…era o prato do dia.

Lembrou-se do esqueleto do velociráptor no hall de entrada. 

Tinha sido sua ideia quando projetou o edifício. Agora, em pânico, deduziu que ali, onde estava, eles existiriam, em carne e osso.

Um som semelhante ao de marrecos barulhentos se fez ouvir. Atrás dos arbustos olhos amarelados, como de uma águia, focalizados estacionariamente em sua figura.


O monstro era feio e exuberante. Tinha penas mas não pena dele, pois em um movimento súbito, arreganhou sua garra maior, em forma de gancho.

Mark não durou muito. Outros velociráptors juntaram-se ao frenesi gerado. Foi devorado, despedaçado, picado, exterminado. Cessou de existir…

Eram 8:39 da manhã do dia seguinte.
Acordou ao lado da máquina, dentro da trama. Notou-se vivo.

Intrigado, repassou os momentos que lembrava desde que colocou sua mão através do vórtex.

Olhou os monitores, repassou as imagens registradas nas câmeras. Viu-se à frente do warm hole, colocando a mão, sendo sugado, desaparecendo. Mas viu-se também caído, do lado de fora, desmaiado.

Olhou novamente para o relógio digital. Às 8:39 havia acordado. Lembrou-se da teoria dos universos paralelos. 

Deduziu ter criado um momento quântico.

Mark, o intrépido, foi levado à um universo onde a Terra ainda existia com seus dinossauros. Mark também ficara onde estava, desacordado, mas vivo. Havia se desdobrado. 

Havia atravessado o portal. Deduziu ser o universo onde estava a dimensão própria para um arquiteto. Na outra, morreu. Desligou a máquina. Ainda trêmulo deixou o prédio, passando por baixo do esqueleto do velociráptor. Sentiu algo estranho em seu corpo. Poderia jurar que havia visto aquela coisa viva. Tinha penas, era colorido, espetacular…e extremamente mau.


Ao sair notou que em sua mão esquerda, fechada ainda pelos músculos contraídos pela experiência sentida havia uma pequena bola azul. Era uma esfera virtual. Abria-se e comprimia-se à medida que ele a manipulasse.

Seria uma chave? Algo que abrisse portais em outros lugares? Algo que o fizesse tentar novamente ver o que havia além daquela dimensão? Guardando-a em seu bolso pensou…talvez…em outro lugar…

Sete meses se passaram.

Marcus Antonius sentado à frente de sua prancheta, segurando um tira-linhas, traçava linhas em um pedaço de papel tela azulado. Brincava com os instrumentos do passado. Trabalhava em um roteiro exploratório para Tikal. 

Em sua mente inquisitiva se via no topo da pirâmide maior, à 72 metros acima da grande praça, com a esfera azul. 
Planejava abrir um portal quântico. Havia ajustado a fórmula para trabalhar somente no tempo. Quem sabe conseguiria ver os sacrifícios humanos que ali existiram por ocasião da grande seca. Em seus estudos, havia deduzido que o abandono de Tikal, pelos Maias se deu por volta do  ano de 900 d.c. Peste e fome os fizeram deixar a magnífica cidade, não antes de perpetrarem centenas de sacrifícios humanos aos deuses.

Mark para lá se foi.

No topo do templo da piramide IV, construída no ano de 721 d.c. depositou a esfera azul sobre o altar dos sacrifícios humanos. Ali em Tikal, “O Lugar das Vozes”, Jasaw Chan K’awiil II liderou os sacrifícios ao longo de um mês. Tentava aplacar os deuses do Popol Vuh.
Tentava salvar seu povo da extinção. Mark queria recriar o momento. A esfera azul o levaria àquela viagem ao passado.

Mark invoca Tepeu e Gucomatz, criadores do homem.
A esfera se amplia gerando um campo holográfico. O passado é sugado e acelerado como um filme. Mark vê imagens das festividades, dos sacrifícios, do rei Jasaw, dos sacerdotes extraindo os corações pulsantes das vítimas e, em seguida, as decapitando.
O sangue inundava os degraus de pedra caindo em cascata, tingindo a pirâmide de rubro. Cânticos estranhos acompanhados por atabaques em rítmo pulsante. Um cenário digno do Inferno de Dante.

Aquilo certamente não era a dimensão em que queria estar. 

Não havia dúvidas que Tikal era uma cidade maravilhosa. 
Duas grandes pirâmides, opostas uma à outra, emolduravam a praça principal. Esta, cercada de edificações harmônicas, emolduravam o conjunto que se assentava em largos degraus formando uma imensa plataforma que servia de arquibancada aos espectadores ávidos de sangue. 
Mas aquela civilização era barbárica. O rei Jasaw parecia se deliciar com os gritos dos que iriam morrer. Implorava a Tepeu e Gucomatz que salvasse seu povo.
Mark hesitou. Até aquele momento não havia tocado no vórtex. Não queria criar um paradoxo temporal. Lembrou-se do tinha acontecido em Yale.

Mas até os mais prudentes cometem seus erros. No afã de entender mais sobre a arquitetura magnífica que deslumbrava, Mark se inclinou em demasia e foi sugado.

Encontrou-se encarnado em Jasaw Chan.

Não mais voltou…

FIM

Dedicado ao meu colega arquiteto Marco Antônio de Pádua, nestas linhas nosso herói, como também o é na vida real. História de ficção com pitadas de realidade. Um pouco do que eu vivi, junto com devaneios de um arquiteto. Retiro, 20 de Janeiro de 2018.
CRÉDITOS:
Yale's ESF
Design Architect : David Schwarz
Architects of Record : GSI Architects
Celso Gilberti  Principal
Peter Spittler
Steve Zannoni
Gary Ogrocki