terça-feira, 21 de novembro de 2017

A CASA VIVA



Eram três. Amigos de infância, irreverentes, corajosos. Eram impossíveis…

Na escola um problema certo. Em casa um horror. Bagunçados, desarrumados, viviam à falar sobre o sobrenatural. Uma curiosidade mórbida que florescia em suas mentes. Não tinham medo de nada.

Quando passaram à ler, liam histórias de terror. Não era à-toa que gostavam de Poe. Viam no retrato de Dorian Gray um pouco deles mesmos. Eram capazes de fazer um pacto com o demônio somente para descobrir se o outro lado era tão interessante como achavam.

Aos domingos iam à igreja, uma capela barroca do século XVII, com cemitério e tudo mais. Em sua nave principal os jazigos daqueles que pagaram para morrer mais perto de Deus, como se aquilo fosse realmente garantia do paraíso. Lá fora, em ruínas, o cemitério mal cuidado, mausoléus em desreparo, cruzes e caveiras de ferro fundido.

Gostavam de ir ao campo santo pois alí acharam um túnel subterrâneo que levava à uma cripta com ossos humanos empilhados desordenadamente. Isto era, para eles o máximo. Mas, embora aterrorizante, não os amedrontava. Queriam algo mais misterioso, perigoso, desafiador.

Seu professor de história gostava de coisas inexplicáveis. E foi por ele, o professor, que souberam da casa da fazenda de um Coronel. A casa, abandonada há anos, se situava nos arredores da pequena cidade onde viviam. Fora a sede de um pequeno sítio de férias de um homem importante, fundador da cidade, morador da capital e que mantinha um vínculo saudoso com o local de seu nascimento. Mas um homem de reputação ruim.

Contava o professor que o tal Coronel era mau, muito mau. Casou-se muitas vezes, todas as esposas faleceram e isto aconteceu naquela casa. 

Quando o dito Coronel morreu, não se sabia da forma em que partiu. Sabia-se que não mais existia. Foi reconhecido numa tarde na varanda da casa e, no dia seguinte, simplesmente sumiu. Nunca mais foi visto, daí suporem que havia morrido.

A casa em desreparo foi vítima do tempo. Era também considerada assombrada. Diziam que as almas das falecidas alí estavam presas num vórtex temporal. Clamavam por vingança. Ouvia-se o choro de mulheres nas noites sem luar, um choro triste, um lamento pungente, um grito desesperado, sufocado.

Os habitantes do local evitavam dela se aproximar. As histórias que contavam induziam ao medo e medo era aquilo que os três não tinham, isto é, até o dia em que fizeram um pacto…dormiriam naquela casa e lá ficariam. Prometeram aos espíritos das trevas que se o fizessem seriam por eles recompensados. Queriam ouro, as riquezas que diziam estar escondidas naquele lugar. Queriam a fortuna do Coronel. Prometeram suas almas, alí nas catacumbas do cemitério em uma noite de Halloween, na frente dos ossos insepultos.

Irreverentes que eram, prepararam uma deliciosa matula. Levaram até uma garrafa de aguardente. Pensavam em fazer como o preto-velho lá do centro de umbanda, ofertando a raivosa aos espirítos do além. Viam nisto uma oferenda de paz caso as almas penadas daquela casa se fizessem de aborrecidas.

Na escola havia uma bela loirinha de olhos azuis. Filha do prefeito, era toda arrumadinha mas tinha um espírito leve. Gostava dos três, gostava da imaginação deles, gostava da ousadia. Não foi adversa ao convite para passar a noite na casa assombrada. Muito pelo contrário achou a idéia incrível. Já havia visitado a cripta com eles e não se assustado com o que viu. Eles, achavam nela a diva que deixava seus corações à sonhar. 

Qual deles seria agraciado com um beijo? Talvez algo mais? Quem sabe? O certo e que ela somava, alegrava, trazia um ar de sensualidade à missão tenebrosa para a qual se haviam proposto.

A noite era escura. Chovia, e muito… Uma chuva densa, contínua, aborrecida.

Quando lá chegaram quase não viram a casa. Estava coberta por uma neblina densa.

Escura, triste e abandonada a casa os chamou. Sem aviso algum sua porta principal abriu-se como num convidar para uma festa. Velas que não sabiam existir lá estavam, acesas, tremulantes, à desenhar formas e sombras. Sombras que lembravam pinturas da Divina Comédia de Dante Alliguieri, dançando em um frenesí louco num inferno ardente.

Acharam o cenário ainda mais excitante. Somente a companheira assustou-se.

Intrépidos que eram, logo racionalizaram a estranha e inédita recepção. Era certamente a obra do pacto que fizeram. Os seres das trevas lhes desejavam sucesso. Aninharam-se no empoeirado sofá da sala.

As horas passavam lentas, talvez mais lentas do que seria normal. Por uma razão estranha, alí, naquela casa, o tempo não mudava. Mas algo incontrolável se mutava nas entranhas da edificação.

Não era uma casa grande. Havia uma escadaria imponente que levava ao segundo andar, sob a mesma uma outra, estreita e escura conduzia a um porão de pedras em arcos, mofado, fétido.

Exploravam o segundo andar quando a bela loirinha sentiu algo tocar-lhe nos ombros. Voltando-se rapidamente teve a sensação de que as paredes se aproximavam. Era como se o corredor estreitasse e o papel de parede vitoriano estivesse em movimento. Mas, fixando os olhos na penumbra que envolvia o comodo, não teve certeza do fato. Talvez fossem as imagens trêmulas causadas pelas chamas das velas. Aliás, estas se espalhavam por todos os lugares. Jurariam que havia mais velas acesas do que quando na casa entraram.

A noite não terminava. O relógio parado às doze.

Mais longa ficava, mais estranha, mais lúgubre.

Gemidos, no seu início tímidos, se faziam ouvir. Parecia que saiam das paredes. O volume aumentava e com ele soluços dilacerantes, e, enfim uivos e gritos ensurdecedores. Naquele momento sentiram medo. Um medo real, profundo, avassalador, devorante. De quatro amigos, sobraram três. O mais novo havia desaparecido.

Correram para o andar térreo. Tentaram sair pela porta da frente, mas esta não abria. Todas as janelas haviam se fechado, todas trancadas. 

Reunidos em frente à lareira seguravam os ferros de tiçar.

As paredes da lareira se fechavam e braços enormes saiam das pedras envolvendo-os num abraço demoníaco. Lutando tentavam se safar quando o corpo do amigo mais novo foi expelido de sua fornalha. Estava totalmente descarnado.

No pânico que lhes dominava lembraram-se das orações que ouviam quando iam à capela. Rezaram e o fizeram em bom som. Por um breve momento tudo parou. O relógio da sala continuava às 12 horas.

Mais recompostos tentaram analisar a situação. Buscavam uma solução, choravam pelo amigo perdido. Ofereceram a matula, a aguardente. 

Queriam acalmar os espíritos.

Um vulto em uniforme militar, com um sorriso diabólico surgiu saindo das paredes da casa. Era como que se a casa estivesse viva. Era como que precisasse de se alimentar. As almas das mulheres que alí faleceram se desenhavam em suas paredes. Dançavam uma dança de bruxas, rodopiavam e de suas mãos saia um sangue negro que tingia o assoalho.

O vulto militar comandava o espetáculo dantesco. Pequenos duendes pululavam ao seu redor. Seguravam potes cheios de ouro, colocavam-nos a seus pés.

O som de uma versão louca de Carmina Burana se fazia ouvir. Taças de vinho, cheias de sangue brindavam demônios.

Veni, veni, venias
Bibit servus
Bibit velox
Bibit piger
Bibit diabolus
Bibit anus

As criaturas se descolavam das paredes e se aproximavam. Cercados, não podiam mover. Cercados, se sentiram paralisados, cercados, sentiram seus corpos desmancharem. Descarnados, foram devorados.

Na casa de esposas mortas, na casa de um déspota do passado morreram, todos os quatro. Seus corpos nunca foram encontrados. A casa e seus espíritos deles se havia alimentado. Os seres das trevas cobraram a promessa feita. Lá eternamente ficaram.

Na pequena cidade onde moravam contava-se que a casa, após aquela noite, havia amanhecido mais nova, restaurada.

Era como se tivesse vida novamente.

Ali, à esperar, por alguém, amanhã, no vórtex do tempo…

Alguém que tivesse coragem para alí passar uma noite,


Somente…

2 comentários:

  1. Conto instigante. Não gosto de terror, mas esse prende, despertando a curiosidade pelo final.

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    1. De vez em quando fico como Poe...so vejo o lado escuro...

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