quarta-feira, 3 de julho de 2019

YETERDAY
Look for the green thing up in the middle
above the sun
SOLAR ECLIPSE IN BELO
The sun was bright...the picture shows
a strange green thing
Around 4:22 PM
Strangely bright for an eclipse
The green UFO

domingo, 23 de junho de 2019


PELADINHA

Nem peluda era. Daquele tipo leve, poucos pelos, muitas formas.
Que deleite.
Os olhos recebiam o colírio do amor.  Marejados… de felicidade.
Mas mulheres são assim.  Se tem, há que tirar…
Então fica pelada, peladinha.
Ah…caros homens, quem há de reclamar?
Dizem que a moda dita.  E a dita moda fala …pelada!
Amanhã…peluda!
Se peluda ou pelada, pra mim não vale nada,
O que vale é o vale onde o pêlo estava.
Hoje pelado, outrora peludo…
Eu perdido…
Me despeço, sem fala.

sábado, 22 de junho de 2019


PALAVRAS



Sussurro…namora
Frisson…sufoca
Amante…perfume
Delícia
Nunca deixa, envolve…
Suave sede
Molha a mulher macia…
Intenso arrepio
Sente, finge, lambe…
Sensação
Que me declara às claras
Oh linda morena
Sonho de amor

JOHNNY

quinta-feira, 20 de junho de 2019


CONTOS DE OURO PRETO I

Toledo

Nas montanhas de Minas existe um brinco de cidade. No sobe e desce morro esconde algo lindo que o tempo ainda não destruiu.

Casarios coloniais justapostos, igrejas barrocas quebrando o ritmo das portas e janelas, cores deliciosas contrastando com o anil do céu e a silhueta do Itacolomi.

Nos seus 300 e poucos anos esconde não somente o ouro que ainda lá está mas junto á ele, os fantasmas daqueles que materialmente daqui partiram deixando seus espíritos à vagar, atrelados ainda à cobiça, ao brilho do metal, às intrigas e traições que ali frutificaram.

Em cada bar, na sacristia das igrejas, em contos nas noites frias de junho seus espectros ainda vivem assanhos à encostar no curioso turista, à pedir por algo que não escuta, à sugerir subliminarmente onde seus tesouros se escondem, onde o amor perdido se foi, onde o amigo se matou.

Nos ardis, nas elucubrações soturnas, nas histórias contadas e escritas, nas sepulturas, no fundo de suas minas abandonadas acha-se o vestígio da verdade, as intrigas não resolvidas, a curiosidade satisfeita e aquela que move almas à procura de uma resposta ou recompensa.

No caminho de Mariana encontrei, quando ainda estudante de arquitetura, uma figura simpática de um ex-sapateiro, esperto, de olhar brilhante e sorriso alegre. Dizem as línguas ouro pretanas, e são muitas, que teve a fortuna a lhe sorrir. Seu nome era Toledo.

Trabalhador que era deu-se ao gosto das belezas antigas que existiam em cada casa, em cada canto desta misteriosa cidade. 

Passou, quando podia, a colecionar umas e outras peças que podia comprar com as economias de seu trabalho.

Casado que era com uma mulher de dotes culinários exemplares, oferecia aos amigos e clientes de sua lojinha de antiguidades um delicioso cafezinho, uma linguicinha frita de sabor ímpar e, não menos importante, as cachacinhas que trazia das fazendas que visitava quando de suas incursões à procura de imagens barrocas de capelas rurais, fazendas e coleções de família. O pequeno elétrico e espoletado filho único o acompanhava e ele o ensinava à apreciar a arte de comprar e vender com uma paixão tão efusiva que incendiava os olhos do comprador como sua mais bela aquisição.

Curioso que era perguntava sempre por objetos que podiam ser vendidos. Numa destas aventuras comprou uma casa semi abandonada e cheia de fantasmas. A casa era real, os fantasmas talvez nem tanto, mas o ouro que nas paredes achou era da mais fina qualidade. Isso é o que todos dizem. Ele, entretanto nunca o confirmou, mas eu que o conheci por muitos anos acho que um pingo de verdade ali estava. Talvez os fantasmas existissem e lhe sussurraram para quebrar a parede e encontrar o botim. Talvez fosse sorte. O fato é que outras casas comprou e a tal sorte lhe sorriu de novo.

Seu negócio expandiu. Dele comprei muitas peças barrocas. Uma Nossa Senhora do Rosário, de artista português, mais linda do que qualquer imagem do famoso Museu do Oratório. 
Dele ouvi histórias, regadas à mais fina birita e sempre acompanhadas de linguiças inesquecíveis.

Um pouco antes de partir deste mundo por saudades da amada que já havia ido, comprou uma casa cuja lenda dizia…” Ali foi enterrada a cabeça de Tiradentes. Com ela um tesouro em prata e ouro”. Ligou-me nos States e pediu-me que comprasse para ele um detector de metais. Dizia que acharia o tesouro mas tinha medo do feito. Isso porque todos os que ali moraram e tentaram, morreram de morte horrível. Um fantasma de um guardião ali estava e trazia fim terrível àqueles que se aventurassem a descobrir o mistério. O detector o salvaria das garras de tal guardião.

Acho que desistiu. Seu espoletado filho que a casa herdou não se arrisca. Mas arriscou a comprar outra mansão, mais histórica, mais velha ainda e, é claro, cheia de fantasmas. Nela coloca suas economias para restaurar e dela fazer um centro de eventos. Já vi a obra, algo para levantar sobrancelhas. Cheia de minas de ouro, algumas ainda com o vil metal, fantasmas de feitores e escravos num morro chamado de Queimada, onde em passado distante milhares de negros morreram torrados pelo fogo.

Mas esta é uma história para o conto de numero dois.

Os fantasmas do morro da queimada!

Até, então.

terça-feira, 18 de junho de 2019


FALÁCIAS E MENTIRAS

Mentir, mentir, mentir…
De tanto falar, verdade ficou!
Dizem os mestres da mentira…
Em terra dominada e aparelhada por bandidos e crápulas a mentira é usada para convencer os vazios intelectuais daqueles que idolatram cretinos que se dizem defensores de pobres e oprimidos.
Sim, infelizmente uma verdade na mentira que pregam, oh embevecidas criaturas, com seus lavados cérebros, que acreditam em tudo que vem da boca destes famigerados seres.
Transformam o fato, retorcem a história, inventam, chafurdam, insultam, atacam.
Bando de lobos famintos interessados somente no vil metal que roubam sem piedade.
Segundo esses ratos…os fins justificam os meios.
Um notório ladrão, hoje encarcerado, mas de natureza vocífera, brada:
Não foi facada…não saiu nem sangue!
Os babacas de plantão repetem…Não foi…não foi…
Dá-lhe mortadela…
Soltem o apedeuta! Injustamente condenado. Roubou só um pouquinho…bilhões e bilhões…
Mais mortadela…
Prendam o juiz honesto…botou o Ali Babá na cadeia…Que horror, tadinho do bichinho barbudo, só vomita besteira!
A anta, que presidenta já foi, está na Rússia…fazendo o quê?? Reciclagem em Lenine? Abluções à Stalin??
Quem paga??
Enquanto isso aqui estamos, com jornais safados trabalhando a notícia em mentira, o fato em falácia.
Com tantos ignaros nesta terra não me surpreende que haja ouvidos e olhos para tal enxurrada de asnices.
Sorry, I couldn’t resist!

domingo, 16 de junho de 2019


CLEPTONISMO



Cleptonismo, neologismo petista.

Um transtorno de controle de impulsos que resulta em um impulso irresistível de roubar (cleptomanismo) somado à deletéria doutrina comunista. Prefixo clepto + sufixo nismo (de comunismo).
Nova forma de fazer política à todo o custo desde que resulte em sacos de dinheiro para os cretinos que se dizem representantes do povo.
No Pindorama esta prática é bastante comum. Gera debates intermináveis nos quais os vermelhinhos se despontam como defensores de um povo (massa de manobra) contra fantasmagóricas elites que assombram o planeta. Têm um líder…claro…um ladrão. Mas é um ladrão ídolo. Meio parecido com o tal de Ali Babá, um habibe idolatrado nos contos das mil e uma noites. A ele se misturam Robin Hoods, os tais que roubam mas fazem e os que se dizem ilibados e vítimas de aleivosias quando pegos com dólares em cuecas e calcinhas.

Diziam que comunismo não pegaria no Brasil. Mas, já pegou.

Diziam que o povo é honesto. Mas, não é, pois defende ladrões.

Na mistura insana da roubalheira e da ideologia dèmodè sai o CLEPTONISMO. Verdadeira mercadoria fabricada ao sul do equador. Material de exportação. Estamos à frente da Nigéria, dos regimes comunas que ainda existem, agora bancados por narcotraficantes e criaturas do gênero.
Querem livrar o super ladrão da cadeia nem que para tal soltem outros do tipo Cabral, Cunha e espúrios do gênero.
Saiem às ruas vestidos de vermelho. Entoam cânticos de ordem, comem pães com mortadela, ateiam fogo em pneus.
Aparelham as cortes de justiça com togados safados e regados em espécies verdes.
Nada como uma “gruja”, um caraminguá…

Viva a Cleptocracia…

O Cleptonismo nasceu!!!


sábado, 8 de junho de 2019


ELOCUBRAÇÕES


O presente, passado e futuro são concomitantes. Em um círculo se interagem no imenso vazio do tempo.
Se assim são ou o fazem estamos sempre vivendo com as alternativas que se apresentam, inclusive aquelas de forma quântica.
No emaranhado das opções e oportunidades, vivemos todas, somos gatos de Shorödinger escolhidos quando a caixa de surpresas da vida é aberta.
Caminhos bifurcados, amores achados e perdidos, coisas que fizemos e não queríamos fazer, enfim, todas as opções realizadas. Somente não sabemos vivê-las simultaneamente, embora o façamos sem interagir.
Num universo de mundos paralelos e infinitas resoluções continuamos a nos achar ser nele o centro.
Oh… pobres criaturas. Não tens o mínimo de compreensão para veres que não passamos de um atmo na existência de tudo.

segunda-feira, 3 de junho de 2019


AMANTE DESAMADO

 Quando a viu pela primeira vez uma onda de amor dele se apossou.
Sonhou, chorou, implorou. Queria que fosse sua, queria ser somente dela.
Aqueles lindos olhos cristalinos, curvas suaves faziam nela ver somente virtudes, unicamente a beleza de um cego amor que não mais se esvaneceria.
Trocaram palavras, nem sequer se tocaram.
Para ele bastava a presença.
Mas a bela amada não o amava. Talvez achasse interessante aquele desvario, talvez quisesse ser idolatrada. Mas a linda moça, rebelde, esvoaçante partiu para outro e com ele se casou.
No farfalhar de pensamentos desconexos viu onde havia errado.  Médico que era, no afã de proteger a amada  pediu-lhe que não fumasse. O interesse que ela tinha por ele esvaneceu-se como a fumaça de seu cigarrete. Nunca mais a viu…
Mas nunca é somente uma expressão, pois nunca e sempre não existem e quiçá em sonhos se assanham.
Casou também, trocou de amores como se trocava de camisas, sempre a procura daquela em outras. Mas não achava, por isso trocava.
Um belo dia o sol lhe iluminou com raios diferentes. Reflexos de olhos de cristal aos dele se cruzaram. A diva havia ressurgido e um raio fulminante nele tocou bem no fundo de seu coração, acendendo a chama do amor perdido.
Louco ficou.
Insano de delícias amorosas, pensamentos em espirais divinas se desenhavam em um amor mais ardente, uma paixão mais tórrida, uma luxúria escaldante.
Ela, à estas alturas descasada, vivia com um certo desdém para seres do sexo oposto. A vida lhe havia tirado os prazeres das carícias o desejo de corpos nus, a embriagues do amor por corriqueiras histórias entre os amigos que tinha, os filhos que tivera e o netos que se avizinhavam.
Ele, voltou aos sonhos, e cego continuou…
Aceitou seus avanços. Estes entretanto, somente com distância regulamentar. Nada de beijos, abraços, mãozinhas e afagos. Podia a ela adorar, somente venerá-la, somente idolatrá-la. Era o preço do reencontro, a penalidade das fumaças proibidas.
À essas fumaças sucumbiu. Não faria mais nada para contrariá-la. Somente queria embevecidamente ser seu escravo.
Mas a bela diva, peça de um conto shakespeariano, somente o aceitava. Não o amava. Ou se o fizesse, era sem os adereços e enrolar de mãos e beijos.
Se fosse platônico penso que ele talvez aceitaria. Se fosse distante certamente, pois à distância já havia ficado e à distância continuava amá-la.
Mas amor unilateral soa como masoquismo inconteste.
No sofrer masoquista se entregou ao sadismo oposto e nele sucumbiu…
O proposto amante desamado ficou.
Hoje procura por moça em seus vintes, assanha e sedenta de prazeres. Pensa ele ser capaz de nesta aventura ter sucesso. Mas os amigos, sábios que são, já lhe avisaram…
Outros que esta trilha de aventuras seguiram morreram.
E, o fizeram na noite de núpcias.

sexta-feira, 31 de maio de 2019


O COVEIRO 
                                                                                                


Nunca soube de si de maneira diferente. Era feio, mal falava, morava em um cômodo, com duas janelas e uma porta. Mas tinha algo incomum...um par de olhos de azul brilhante, cativantes e sedutores. Duas luzes em uma máscara de horror.

Não lembrava de ter sido criança. Não lembrava de mulher alguma. Em sua memória somente a casa de um cômodo só. Lá tinha um fogão, uma mesa, cama e pia. No chão um buraco diretamente ligado ao esgoto.

Bebia Natu Nobilis, na garrafa. Comia ratos, que saíam do buraco e ele os pegava e punha em uma gaiola.  De vez em quando uma aranha ou escorpião. Tinha uma pá e uma picareta. Tinha um corvo de estimação, feio, bico longo e afiado, fazia um barulho dos diabos.

Morava em um cemitério. A casinha de um cômodo só era parecida com os mausoléus. Estava em casa. Lá, era o coveiro. De dia abria as covas, enterrava os defuntos, de noite,violava sepulturas. Estava sempre à procura de algo valioso. Era assim que comprava o seu uísque barato.

Seu nome era Zacharias Axelrod. Chamavam-no de Zach.

O cemitério era bonito. Longas estradas ladeadas por carvalhos. Quadras limpas, bem cuidadas. Ele era um bom jardineiro e o lugar pequeno, dava para cuidar de tudo. Não morria tanta gente assim.

O parque tinha seus duzentos anos, ele, nem sabia quantos tinha.

Foi um sábado. Havia morrido alguém importante. O cemitério estava cheio, padres e até policiais fardados. Vieram para o lado dos mausoléus. Ficavam no alto da colina rodeados por azaleias e ciprestes. Enterravam um amigo.

Abriu a cova como sempre abria. Esperou. Finda a cerimônia, fechou-a, colocou a lápide e foi para casa. Como ficava do lado oposto, nos baixios, seguiu por outra trilha. Deparou-se com uma construção diferente. Era igual à sua casa, em forma, mas rica e detalhada, com mármores e granitos. Lembrava-lhe de algo que não sabia identificar. Ficou curioso.
                                                                                                   
A noite chegou e com ela a vontade de voltar para ver como era por dentro.              Rica que era, poderia conter coisas preciosas, urnas, bronze, um defunto cheio de joias. Bebeu dois goles do uísque, tossiu, pigarreou e se mandou.

Como pensou, era do mesmo tamanho, tinha duas janelas e no meio, em uma plataforma baixa, um belíssimo esquife. Dobradiças de prata macica, joelhos de bronze, um em cada canto, à frente uma placa também de prata com poucas inscrições. Não dava para ler o que lá estava gravado, o pó dos tempos cobria tudo.

Não teve dúvidas. Usou sua pá e forçou a tampa. Com cuidado e pressa destacou as dobradiças. Dariam um bom dinheiro na loja de penhor. Deu uma espiada por dentro. Não viu nada, só o cetim branco, amarelado pelos anos.

Embasbacado limpou a placa. Queria saber de quem era o caixão.

Em letras gravadas cuidadosamente lia-se:

“Here lies a vile soul. No body attached...”

( Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo...)


“Que diabo! Onde estava o nome, a data... isto lá é coisa que se escreva em uma urna mortuária? Muito estranho, mas devia ser muito rico, e isto é o que importava naquele momento, pensou.”

Voltou para casa. Seu corvo o recebeu com animação. Beliscava as migalhas de um pão velho, gralhava estridentemente. Bicho chato...

Tomou um golo e desceu para a cidade.

A loja de penhor era imunda. Paredes sujas, encardidas, melequentas.
Um balcão gradeado e um sujeito barbado, de camiseta de alças longas foi logo perguntando: “diga-me o que queres ou saia já daqui”. Mostrou-lhe as dobradiças.

“São de prata pura....                                                                                        

Eu sei, respondeu, e pôs-se a pesá-las...trezentas e trinta gramas...falou.”

Tirou um maço de notas e enrolando-as as entregou.

“É só isso, agora saia, não gosto da tua laia...”

Passou na mercearia, comprou umas latas de salsicha, duas de ravióli do chef Boyardee e um uísque de verdade...uma garrafa de Jack Daniels. Voltou para o cemitério.

No cômodo em que morava procurou por um copo. Entre caixas e coisas sem nexo o encontrou. Estava sujo, encardido e com bolor. Lavou-o, esfregou-o, raspou com bucha e areia. Meio turvo, mas com aspeto mais agradável encheu-o com o Jack que comprara. Era a primeira vez que bebia em um copo.

A noite estava fria. Vestiu seu único casaco. Era de veludo azul marinho. Havia ficado preto, meio marrom e meio roxo de tanta sujeira. Mas era quente. Pôs um cachecol listrado e um boné surrado, ensebado. Bebeu mais, bebeu tanto que desmaiou.

Quando acordou teve a sensação que só havia dormido por umas duas horas. Pensou ser noite ainda, mas havia luz entrando pelas pequenas janelas. Resolveu sair...

Era dia e era lindo, flores da primavera brotavam do chão. Lindas dafodils, crócus brancos e azuis penetravam a camada fina de gelo que se havia depositado.

Surpreso notou que o parque estava cheio. Homens e mulheres de preto, casacos longos, coletes, chapéus. As mulheres de véu negro, os homens de costas para ele. Por mais que quisesse e se esforçasse não conseguiu ver suas faces.

Uma mulher de corpo esbelto, bem torneado, botas pretas e um vestido escuro, quase negro, dele se aproximou. Sua mão, branca como a neve que caiu ao chão, o tocou.  Magicamente deixou-se guiar pela misteriosa dama.

Após uma longa caminhada em total silêncio aproximaram-se de uma mansão bem cuidada, em estilo vitoriano, muitas janelas, portas e excesso de detalhes em madeira. A escadaria frontal levava à um vestíbulo que antecedia uma enorme sala.

Ainda conduzido pela misteriosa dama aproximou-se de uma mesa, no meio do espaço decorado com móveis de estilo, do século XVIII,meticulosamente arrumados e decorados com adereços preciosos. A mesa era longa. Em cima, deitada, cercada por velas acesas havia uma mulher deslumbrante,totalmente nua.

Sua tez era pálida como a neve, seus cabelos louros como o sol, suas unhas pintadas em carmim contrastavam com a sisudez do local.

Estava morta.

No peito a marca profunda de uma faca, provavelmente de cozinha, ao lado do plexo, no coração.

Olhou para o lado tentando se comunicar com a misteriosa criatura que o havia levado até lá. Havia desaparecido. Surpreendeu-se. Por um momento teve medo, não sabia de quê ou o quê, mas teve medo, paúra, fear. Tremeu...

Uma luz bruxuleante vinha do cômodo ao lado. Resolveu investigar.

Era a cozinha, bem equipada, armários de louças, talheres, vasos. O caos era total. No chão panelas reviradas, poças de sangue já coagulado, nas paredes respingos e esguichos rastreavam o sangue advindo de uma batalha pela vida, certamente perdida. Havia sangue até no teto.

Fugiu em desabalada carreira. Voltou ao seu refúgio. Sorveu o resto do Jack Daniels, pela garrafa. Desfaleceu...

Os gritos do corvo eram mais fortes e estridentes. Pioravam quando olhava para ele. Zach não entendeu porquê.

Acima da pia estava seu fiel espelho. Um pedaço de vidro quebrado, pendurado em um prego enorme. Assustou-se com o que viu. Seu rosto havia tomado feições mais agradáveis, mais bem torneadas. Não estava tão horroroso. Até suas roupas pareciam ter mudado, estavam mais vibrantes, vivas. Gostou mas não entendeu. O corvo entretanto, dele se afastava.

Zach era cético de tudo. Passado algumas horas já estava como antes, pronto para nova incursão ao mausoléu. Havia gostado do uísque. Precisava de dinheiro para outra garrafa. Tomou o resto, comeu o ravióli. Até soltou o rato que ali estava preso para o próximo jantar. Este, sumiu como uma flecha, desaparecendo no buraco do esgoto.

Já era noite. Antes havia enterrado uma criança em um funeral choroso. Felizmente para ele não durou muito. Caixão menor, buraco menor.

Subiu a colina tentando localizar o mausoléu. Ficava em um lugar de vegetação densa. Sem luz, à noite, não era fácil de achar. Mas lá estava o dito. Bela obra de mármore.

Encontrou tudo como havia deixado. Resolveu remover os joelhos de bronze. Deu mais trabalho, estavam bem encaixados no mogno. Não teve dúvidas, quebrou os cantos, expondo o caixão, por dentro. Lá estava o cetim branco e amarelado, nada mais.

Colocando as peças em um saco resolveu ler a placa, novamente. Afinal, deveria haver um nome, em algum lugar. Acendeu os tocheiros, precisava de mais luz. O tremular das chamas iluminavam a placa com ondas avermelhadas entre sombras escuras. O texto gravado dizia:

“Here lies a vile soul. No body attached, for he who killed also took his own life. The soul rests inside, the body never found…”

(Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo, pois aquele que matou tomou também sua própria vida. A alma descansa  dentro, o corpo nunca encontrado...)

“Isto não é possível!  Talvez não tenha prestado a atenção, mas não me lembro de ter lido esta sentença toda… Deve ter sido a luz...O diabo é que não acho o nome” ...pensou em voz alta.

Levou os proventos do roubo para a loja de penhor. Não sabia por que, mas o dono da loja foi, desta vez, mais gentil. Não demonstrou o asco que havia sentido por ele quando da primeira vez. Até lhe deu mais dinheiro, novamente em um rolo de notas.

Comprou outra garrafa de Jack, comprou também dois Cohibas, charutos de primeira. Nunca havia fumado um destes antes. Fá-lo-ia nesta noite.

Na casa de um cômodo só bebeu e fumou. Comeu as salsichas, bebeu no copo. Só o corvo não gostava. Gralhava ao ponto que o pôs para fora. Caiu duro, estava totalmente inebriado.

Acordou.

Havia sol pelas janelas. Abriu a porta. Luz, flores, neve. Achou até que ouvia o som de um órgão. Seria Bach? Nunca soube que entendia de música. Nunca soube que sabia o nome de um autor.

Os homens e mulheres andavam em passos lentos. Todos em negro, todos com chapéus, todas com véus. Como antes, não conseguiu ver-lhes os rostos, só os via pelas costas.

O toque leve e gentil se fez sentir. A mesma dama, o mesmo vestido, puxando-o para segui-la. Fizeram o mesmo trajeto até a casa vitoriana, subiram os degraus da escada, adentraram a enorme sala.

O mesmo corpo desnudo. Seios lindos, curvas sensuais, feições angelicais. Branca como a neve. Pálida e loura.

Um órgão de foles, belíssima peça renascentista o convidava à tocar. Não sabia que o fazia, mas tocou como um mestre. Em toques mágicos fez o Prelúdio e Fuga BWV 552 em Mi bemol maior de Bach penetrar cada canto da casa, vibrando paredes, cristais, enchendo os ouvidos com a mais celestial das músicas. Mas o som do órgão é também assustador. Seu volume, as notas penetrantes , abrem portais em outras dimensões.

Sentiu que pertencia àquele lugar. Sentiu que ali não queria permanecer. Fugiu, em desabalada carreira. Sentiu-se diferente. Parecia mais jovem, lépido, forte.

Voltou para seu refúgio. No caminho, correndo por entre lápides e sepulturas notou a dança de espíritos perdidos, esvoaçando-se sobre jazigos, mergulhando entre galhos de árvores, sumindo em fendas no chão. Espectros com luz, espectros negros. Apavorou-se.

Trêmulo, bebeu novamente. Mais uma vez perdeu os sentidos, exausto, consumido.

Se não fosse o corvo não teria acordado. Era um domingo, dia de visitas. Foi ao espelho dar uma arrumada nos cabelos. Estava mais novo, era até bonito. Seus dentes eram alvos, seu sorriso cativante, seus cabelos escuros e fartos. Seus olhos azuis brilhavam. Traziam uma luz que não havia visto antes. Era jovem, de novo.  Suas vestes novas, reluzentes. Seu outrora querido corvo já não o reconhecia.

Não sabia como explicar. Quem sabe era o uísque de melhor qualidade? Ou seriam os charutos? Até o ravióli? Era tudo delicioso... Mas já acabara. Voltaria ao mausoléu, ainda havia a placa de prata pura, certamente seria a mais valiosa do butim. Iria lá à noite. Antes, tinha de cumprir seus deveres com os visitantes, mostrando-lhes onde estavam enterrados seus entes queridos.

Chovia. A noite era escura e triste. No mausoléu somente se ouvia o som do vento e da água açoitando as paredes. Acendeu os tocheiros. De novo a luz dançava. Estranhos vultos se formavam nas paredes. Teve a sensação de que haviam rostos disformes observando tudo o que fazia. Em sua cabeça o Prelúdio ainda tocava. Poderia jurar que havia um órgão naquele lugar.

Com a pá forçou a placa de prata. Não saía, não se movia. Trouxe o tocheiro para mais perto...em pânico deixou cair a pá.

A inscrição gravada se mostrava mais longa. Dizia:

“Here lies a vile soul. No body attached, for he who killed also took his own life. The soul rests inside, the body never found, for he who played the organ played with the life of his beloved wife. Vengeance will follow when his body meets his soul again, and then, only then, together again, will rest the vile soul and vile body.”

( Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo, pois aquele que matou também tomou sua própria vida. A alma descansa dentro, o corpo nunca encontrado, pois aquele que tocou o órgão tomou a vida de sua amada esposa. A vingança se realizará quando seu corpo encontrar sua alma de novo, e então, somente então, juntos de novo, sua vil alma e seu vil corpo descansarão...)

Era agora uma tempestade. Ventos uivantes, árvores curvadas sofrendo o peso da água que inundava os páteos. O órgão fantasma tocava as mais pungentes notas do Prelúdio. A porta se abriu em um estrondo, os tocheiros se apagaram. Em pânico fugiu de volta para casa.

Sorveu em goles loucos tudo que tinha na garrafa. A música não parava. Pensou estar sonhando um pesadelo sem fim. Atordoado caiu ao chão.

O sol da manhã era o mesmo dos outros dias. Olhando-se no espelho notou-se jovem e belo. Seus olhos azuis eram mais sedutores do que nunca. Sua voz era melodiosa, sua mente tocava acordes divinos em órgão e violino. Sentiu-se revigorado. Talvez aquilo que acontecia era prenúncio de dias melhores. Aventurou-se lá fora, de novo.

As mesmas flores, as mesmas pessoas. A mesma dama. Desta vez se recusaria a acompanhá-la. Achou que deveria voltar ao mausoléu, só que sendo dia tudo seria diferente. Para lá caminhou.

As criaturas o acompanhavam, à distância. A dama, mais perto, murmurava o Prelúdio de Bach. O corvo o seguia, do alto. Era estranho, surreal.

Ao entrar deparou com o esquife quebrado, o cetim rasgado, a placa ainda no mesmo lugar. Virou-se e notou que agora todos estavam de frente, seus rostos à mostra. Tirando as cartolas e os chapéus, sorriram. Não eram sorrisos lindos, eram sarcásticos, demoníacos. Sorrisos da morte... Lentamente, saiam vermes dos olhos de cada um deles. Moscas, maganos, até cobras e lacraias moviam-se para fora das bocas sorridentes.

Seus tecidos ficaram rotos, maxilares se desprendiam, caindo ao chão. Em pó se transformaram, ao pó tornaram-se.

A dama de quase negro levantou seu véu.

Um horror indescritível se apoderou de Zacharias. O rosto revelado era o da bela e pálida loura, desnuda, aquela da mesa de jantar.

A dama despiu-se, e a ferida aberta, ao lado do coração sangrava.

Gritou, mas não gritou mais alto do que o gralhar do corvo. Como uma flexa o pássaro mergulhou em direção aos seus olhos. Bicando furiosamente os arrancou. Caídos ao chão fitavam estáticos a dama de quase negro que lentamente se desmanchava em pó.

Cego, esvaindo-se em sangue caiu no cetim branco amarelado, cobrindo-o de sangue.

Ali morreu.

A placa de prata reluzia como nova. O Prelúdio tocava alto. O som do inferno era lindo. Como em um papel num cilindro de uma Remington a gravação se estendia ritmadamente. Dizia:

“Here lies a vile soul.  No body attached, for he who killed also took his own life. The soul rests inside, the body never found, for he who played the organ played with the life of his beloved wife. Vengeance will follow when his body meets his soul again, and then, only then, together again, will rest the vile soul and the vile body. The organ will play again... may God have mercy of the condemned.”

(Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo, pois aquele que matou também tomou a sua própria vida. A alma descansa dentro, o corpo nunca encontrado, pois aquele que tocou o órgão tomou a vida de sua amada esposa. A vingança se realizará quando seu corpo encontrar sua alma de novo, e então, somente então, sua vil alma e o seu vil corpo descansarão. O órgão tocará de novo... que Deus tenha pena do condenado.)


ZACHARIAS  AXELROD
Maestro and Composer

Born: August 13th. 1713
Died: Today



FIM

Written by Celso R. Gilberti
December 2015

In Memory of :  Míriam R. Gilberti

quarta-feira, 29 de maio de 2019