CONTOS DE OURO PRETO I
Toledo
Nas montanhas de Minas existe um brinco de
cidade. No sobe e desce morro esconde algo lindo que o tempo ainda não
destruiu.
Casarios coloniais justapostos, igrejas
barrocas quebrando o ritmo das portas e janelas, cores deliciosas contrastando
com o anil do céu e a silhueta do Itacolomi.
Nos seus 300 e poucos anos esconde não somente
o ouro que ainda lá está mas junto á ele, os fantasmas daqueles que
materialmente daqui partiram deixando seus espíritos à vagar, atrelados ainda à
cobiça, ao brilho do metal, às intrigas e traições que ali frutificaram.
Em cada bar, na sacristia das igrejas, em
contos nas noites frias de junho seus espectros ainda vivem assanhos à encostar
no curioso turista, à pedir por algo que não escuta, à sugerir subliminarmente
onde seus tesouros se escondem, onde o amor perdido se foi, onde o amigo se
matou.
Nos ardis, nas elucubrações soturnas, nas histórias
contadas e escritas, nas sepulturas, no fundo de suas minas abandonadas acha-se
o vestígio da verdade, as intrigas não resolvidas, a curiosidade satisfeita e
aquela que move almas à procura de uma resposta ou recompensa.
No caminho de Mariana encontrei, quando ainda
estudante de arquitetura, uma figura simpática de um ex-sapateiro, esperto, de
olhar brilhante e sorriso alegre. Dizem as línguas ouro pretanas, e são muitas,
que teve a fortuna a lhe sorrir. Seu nome era Toledo.
Trabalhador que era deu-se ao gosto das belezas
antigas que existiam em cada casa, em cada canto desta misteriosa cidade.
Passou, quando podia, a colecionar umas e outras peças que podia comprar com as
economias de seu trabalho.
Casado que era com uma mulher de dotes culinários
exemplares, oferecia aos amigos e clientes de sua lojinha de antiguidades um
delicioso cafezinho, uma linguicinha frita de sabor ímpar e, não menos
importante, as cachacinhas que trazia das fazendas que visitava quando de suas
incursões à procura de imagens barrocas de capelas rurais, fazendas e coleções
de família. O pequeno elétrico e espoletado filho único o acompanhava e ele o
ensinava à apreciar a arte de comprar e vender com uma paixão tão efusiva que
incendiava os olhos do comprador como sua mais bela aquisição.
Curioso que era perguntava sempre por objetos que
podiam ser vendidos. Numa destas aventuras comprou uma casa semi abandonada e
cheia de fantasmas. A casa era real, os fantasmas talvez nem tanto, mas o ouro
que nas paredes achou era da mais fina qualidade. Isso é o que todos dizem.
Ele, entretanto nunca o confirmou, mas eu que o conheci por muitos anos acho
que um pingo de verdade ali estava. Talvez os fantasmas existissem e lhe
sussurraram para quebrar a parede e encontrar o botim. Talvez fosse sorte. O
fato é que outras casas comprou e a tal sorte lhe sorriu de novo.
Seu negócio expandiu. Dele comprei muitas peças
barrocas. Uma Nossa Senhora do Rosário, de artista português, mais linda do que
qualquer imagem do famoso Museu do Oratório.
Dele ouvi histórias, regadas à
mais fina birita e sempre acompanhadas de linguiças inesquecíveis.
Um pouco antes de partir deste mundo por
saudades da amada que já havia ido, comprou uma casa cuja lenda dizia…” Ali foi
enterrada a cabeça de Tiradentes. Com ela um tesouro em prata e ouro”.
Ligou-me nos States e pediu-me que comprasse para ele um detector de metais.
Dizia que acharia o tesouro mas tinha medo do feito. Isso porque todos os que
ali moraram e tentaram, morreram de morte horrível. Um fantasma de um guardião
ali estava e trazia fim terrível àqueles que se aventurassem a descobrir o mistério.
O detector o salvaria das garras de tal guardião.
Acho que desistiu. Seu espoletado filho que a
casa herdou não se arrisca. Mas arriscou a comprar outra mansão, mais histórica,
mais velha ainda e, é claro, cheia de fantasmas. Nela coloca suas economias
para restaurar e dela fazer um centro de eventos. Já vi a obra, algo para levantar
sobrancelhas. Cheia de minas de ouro, algumas ainda com o vil metal, fantasmas
de feitores e escravos num morro chamado de Queimada, onde em passado distante
milhares de negros morreram torrados pelo fogo.
Mas esta é uma história para o conto de numero
dois.
Os fantasmas do morro da queimada!
Até, então.



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