sexta-feira, 10 de abril de 2020


OCASO

Não pensei que o fim fosse assim…
Sempre achei que viria subitamente.
Mas este é um fim programado.
Entra-se em quarentena, escondemos de algo que não se vê.
Medo do invisível, das estatísticas, do palavrório infinito, lambuzado de terror.
Terror induzido por atos maléficos, mera ignorância ou avidez incontida.
Terror que vende jornais e palavras banhadas em mentiras sensacionais, na sordidez humana que se torna mais desumana à medida que valsamos escondidos com espectros da morte.
Mas não é o ocaso do sol, no entardecer multicor.
Não é a chegada da noite, da tempestade, dos vultos da escuridão.
Este é o ocaso de cada um de nós, sem fanfarra, sem festa, sem velório.
Corpos jogados fora…
Medo do vizinho próximo.
Pavor da mentirosa mídia.
Horror do matraquear de mil políticos.
O ocaso dos homens…
Um ocaso pífio.
Grande em números, bruto em efeito, miseravelmente mesquinho, pífio de amor.
Mas é um ocaso. Sem graça, terminal…
Sem explosões, terremotos, tsunamis.
Um ocaso de almas e corpos.
Mesmo os que não foram levados levarão consigo tristeza, amargura, solidão, abandono e desprezo.
E veremos então…
O nascer de um amanhã que não saberemos como será.
Pois um acaso nos levou ao ocaso de nossas vidas.


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