PERISCÓPIO
Ele era um gênio. Enviado que fora pelo governo alemão chegou ao Brasil
falando cinco idiomas, fluentemente. Era economista. Frio com os números e
claro com os resultados. Dizia que o valor de uma pessoa na economia é o
determinante para a sociedade ser mais evoluída. Friamente dizia que aqui a
vida não vale muito, em outros lugares vale tanto que os governos se esmeram
para que ela não se perca.
Organizou uma viagem de negócios para os governantes da época. Iriam
também empresários e técnicos buscando parcerias e investimentos. Deixou os
arranjos logísticos para as secretárias dos viajantes. Erro número um.
Chegamos, em um domingo de sol em Frankfurt, pela manhã. Liberados,
fomos para o hotel. Lá chegando descobrimos que as reservas feitas não haviam
sido confirmadas. Não haviam vagas. O gerente, simpático, fez umas chamadas e
conseguiu um outro, só que em Dusseldorf. Não era tão longe assim.
O hotel se situava em uma esquina. A recepção no seu vértice, o bar à
direita, escuro e discreto. A esquerda havia um salão de festas, razoavelmente
grande. Entre um e outro, atrás da recepção ficava a escada, semi aberta. Os
apartamentos, nos andares superiores e uma piscina térmica, com sauna, abaixo
do piso da entrada. Tudo accessível pela tal escada.
Um jovem engenheiro, em sua primeira viagem internacional lhe perguntou:
“é verdade que a turma aqui na Europa é mais aberta, livre de preconceitos? A
gente pode nadar pelado? Eu não trouxe meu calção.”
Respondeu que sim. Erro numero dois.
A tarde se iniciava. Tínhamos viajado por mais de 20 horas, estávamos
cansados. Um pulo na piscina térmica seria bem vindo. Poucos trouxeram seus calções
de banho, entre eles o economista....seria isto um sinal?...Algumas toalhas,
dos quartos foram pinçadas e a turma, cerca de 20 gajos, desceu, escada abaixo
para o andar da piscina.
Entre pulos e mergulhos se acomodaram aquaticamente. O engenheiro
assanho,sem calção deixou que suas partes mais baixas ficassem estendidas, e,
assim, nadando de costas fazia um periscópio. Tal e qual um submarino com o
dito singrando as águas tépidas.
Tudo ia bem. O vozerio da turma ecoava no espaço. Tanto que nem notaram
duas garotinhas com seus 12 aninhos, vestidas de branco em babados e rendas à
apreciar a cena que lhes propiciavam. Quando notaram, era tarde demais. Num
estouro da boiada um bando de pelados correu para a sauna e nela se enfurnou.
Pela pequena janela, na porta, via-se uma pilha humana, desajeitada com partes
proibidas à mostra, ora ao lado de uma orelha , ora em cima de um ombro.
Os poucos que de fora ficaram, nos seus trajes de banho ou enrolados em
minúsculas toalhas, dirigiram-se ao anfitrião e pediram para que descobrisse
uma rota de fuga.
Após alguns longos minutos voltou dizendo que teriam de subir por onde
vieram. Erro numero três.
As garotinhas tinham partido, em gargalhadas. Mal compostos iniciaram,
em fila quase indiana, o retorno aos quartos.
No andar de cima acontecia um casamento. O salão se abria a partir da
escada. Os noivos brindavam com taças de champagne, os convidados cantando,
como em toda festa alemã, em volume alto entre sorrisos e alegria. Uma festa
feliz.
As ninfetas contavam às outras o que haviam visto e apontavam para a
escada. Certamente fariam outra incursão.
Nosso herói, o periscópio, liderava o sub reptício cordão quando, de
repente, todos os convivas perceberam a movimentação. Pararam e como estátuas
ficaram. Também pararam todos, noivos, musas, bigodudos e paramentados. Um
silêncio se fez seguido de uma gargalhada que acredito nenhum jamais esqueceu.
Subiram, a festa continuou, o economista em risadas se perdeu. O
periscópio...bem...este, diminuiu de tamanho. Não foi mais visto.
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