segunda-feira, 3 de junho de 2019


AMANTE DESAMADO

 Quando a viu pela primeira vez uma onda de amor dele se apossou.
Sonhou, chorou, implorou. Queria que fosse sua, queria ser somente dela.
Aqueles lindos olhos cristalinos, curvas suaves faziam nela ver somente virtudes, unicamente a beleza de um cego amor que não mais se esvaneceria.
Trocaram palavras, nem sequer se tocaram.
Para ele bastava a presença.
Mas a bela amada não o amava. Talvez achasse interessante aquele desvario, talvez quisesse ser idolatrada. Mas a linda moça, rebelde, esvoaçante partiu para outro e com ele se casou.
No farfalhar de pensamentos desconexos viu onde havia errado.  Médico que era, no afã de proteger a amada  pediu-lhe que não fumasse. O interesse que ela tinha por ele esvaneceu-se como a fumaça de seu cigarrete. Nunca mais a viu…
Mas nunca é somente uma expressão, pois nunca e sempre não existem e quiçá em sonhos se assanham.
Casou também, trocou de amores como se trocava de camisas, sempre a procura daquela em outras. Mas não achava, por isso trocava.
Um belo dia o sol lhe iluminou com raios diferentes. Reflexos de olhos de cristal aos dele se cruzaram. A diva havia ressurgido e um raio fulminante nele tocou bem no fundo de seu coração, acendendo a chama do amor perdido.
Louco ficou.
Insano de delícias amorosas, pensamentos em espirais divinas se desenhavam em um amor mais ardente, uma paixão mais tórrida, uma luxúria escaldante.
Ela, à estas alturas descasada, vivia com um certo desdém para seres do sexo oposto. A vida lhe havia tirado os prazeres das carícias o desejo de corpos nus, a embriagues do amor por corriqueiras histórias entre os amigos que tinha, os filhos que tivera e o netos que se avizinhavam.
Ele, voltou aos sonhos, e cego continuou…
Aceitou seus avanços. Estes entretanto, somente com distância regulamentar. Nada de beijos, abraços, mãozinhas e afagos. Podia a ela adorar, somente venerá-la, somente idolatrá-la. Era o preço do reencontro, a penalidade das fumaças proibidas.
À essas fumaças sucumbiu. Não faria mais nada para contrariá-la. Somente queria embevecidamente ser seu escravo.
Mas a bela diva, peça de um conto shakespeariano, somente o aceitava. Não o amava. Ou se o fizesse, era sem os adereços e enrolar de mãos e beijos.
Se fosse platônico penso que ele talvez aceitaria. Se fosse distante certamente, pois à distância já havia ficado e à distância continuava amá-la.
Mas amor unilateral soa como masoquismo inconteste.
No sofrer masoquista se entregou ao sadismo oposto e nele sucumbiu…
O proposto amante desamado ficou.
Hoje procura por moça em seus vintes, assanha e sedenta de prazeres. Pensa ele ser capaz de nesta aventura ter sucesso. Mas os amigos, sábios que são, já lhe avisaram…
Outros que esta trilha de aventuras seguiram morreram.
E, o fizeram na noite de núpcias.

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