GAMBÁ AO MOLHO DE PIZZA
Era frio.
Uma noite gelada, doze polegadas de neve. Tudo
branco. Lindo…
Um bangalô, um subsolo aconchegante, lareira
acesa, TV ligada.
Bells
were jingling…
O vinho descia rápido, o cômodo quente. Ar
condicionado perfeito.
Cleo, a cadela alegre e jovial pedia para sua
visita ao jardim. Já era hora.
No amarelar da neve viu algo a se mover. Cão que
se preza não deixa oportunidades passarem. Como uma flexa partiu para debaixo
do deck. Um barulho de algo temerário
se fez ouvir. Um gambá assanho, com um arsenal de perfumes franceses defendia
seu território.
Diria que penas voaram, mas nem o gambá nem a
cachorra tinham penas.
Mas Cleo foi borrifada em cheio. Espirrava, balançava,
sacudia e espalhava o perfume de emanações morféticas em seu incauto dono. Desesperado,
o dito fugiu para o aconchego da casa, abandonando a fiel escudeira a decidir sobre
o destino do fedorento animal.
No processo da insana luta, resolveram espalhar
seus resultados sobre o condensador do ar condicionado. A brilhante manobra
levou, de uma só vez, uma borrifada substancial do perfume de Belzebú, direto
para as entranhas da casa. Perfumada com os bafos do demônio esta se
transformou na morada dos capetas.
Dizem que se lavam aqueles borrifados pelo
atleticano animal com suco de tomate. Tira o cheiro, assim consta.
Mas na casa não havia tal suco. Havia sim, um
molho de pizza, cheio de tomates, alho em abundância.
A bela da casa não teve dúvidas … entregou seu
consorte à própria sorte.
Deu-lhe o molho, ordenou-o à lavar a cadela e ligou
para seu melhor amigo pedindo que o mesmo viesse para lhe dar um banho.
“O que??? Dar um banho??? Em um homem???....Jamais!”
Inútil dizer que o mesmo não veio.
O amado e fedorento ser passou então à lavar-se e
ao seu bichinho querido, aplicando doses generosas de molho de pizza.
Finda a obra notou que havia ficado rosado. Também
assim se encontrava Clio, ambos com cheiro de alho misturado a bafos ainda
remanescentes de “Gambá de Coty”, o novo e recém criado perfume.
A casa demorou uma semana a voltar ao normal. Ele
também demorou a voltar à sua cor natural. Seu cheiro ainda deixa dúvidas se
voltará à originalidade do passado. Clio rosa ficou. Uma cachorra preta e rosa,
cheirando a alho.
Ele, andou segregado no escritório, por um bom
tempo. Dizem que os eflúvios afetaram seus neurônios. Há até quem o comprove.
Quanto ao amigo, ainda se sente insultado pelo
pedido.
E olhe que ele era atleticano…


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