VEMAGUETE HERÓICA
Eram cinco destemidos amigos. Um deles viria a ser um desembargador, o
outro um médico de experiência internacional, um terceiro, tambem irmão, um
advogado à ser marceneiro e o outro, com bigode de Salvador Dalí, um magnata do
dinheiro. Eram enormes, mal cabiam em qualquer carro. O quinto era cunhado do
primeiro, de menor estatura, veio a ser o senhor dos anéis.
Iriam para o Rio, pela BR3, estrada dominada por Cometas que caiam ponte
abaixo.
A viatura, uma vemaguete bordô, com seu motorzinho de dois tempos. Zunia
até de banda.
Acordaram cedo, vestiram o carro pois a entrada era difícil. O menor
ficou no meio do banco de trás, era o recheio do sanduíche. Partiram ao raiar
do sol, alegres e falantes.
O futuro desembargador dirigia. Afinal já tinha sido piloto de kart, uma
cena rara de se ver, pois o dito cujo era grande demais para o brinquedo.
Parecia um louva-deus dirigindo deitado.
A estrada, de pista simples, subia e descia pelas montanhas das Gerais.
Difícil de ultrapassar, mas não impossível para um piloto de tamanha destreza.
Costeava que nem um foguete de São João. Passava tudo, carros, vacas, caminhões,
bicicletas. Um bólido à motor.
Lá pelas tantas encontrou um ônibus da Cometa. Naquela época os tais ônibus
vinham com um toilet atrás. Funcionava meio prècariamente pois dada a descarga
soltava tudo na estrada, por trás.
A heróica vemaguete miava. RPMs de alta intensidade. Parecia uma abelha
tarada. Queria passar o ônibus mas só emparelhava na descida. Na subida tinha de
ficar colada na traseira. Na bricadeira, tentaram diversas vezes, falharam em
todas.
Dentro do dito veículo um passageiro resolve ir ao banheiro. Dava para
ver toda a vez que emparelhavam. Entrou, fez sua deletéria obra e saiu, não
antes de dar descarga.
Acontece que a vemaguete estava perseguindo o ônibus de perto. A bomba
expelida bateu no asfalto e, numa onda marron e morfética explodiu no vidro
dianteiro. Era tanto que a noite se fechou. À procura de luz resolveram ligar
os limpadores. Pior a emenda do que o soneto. A maçaroca se espalhou, o cheiro
aumentou e não era nada bom. Parecia carniça de gambá misturada com repôlho
velho.
Uma longa descida permitiu que ficassem ao lado. Viram o produtor do
bolo pútrido saindo do banheiro. Colocaram as cabeças para fora e
gritaram: CAGÃO, CAGÃO...MISERÁVEL.
PONHA UMA ROLHA NO SEU RABO, SEU FILHO DE UM CAMELO BICHA!!!!
Quatro gigantes, um recheio e uma vemaguete marrom. Todos no ônibus
olharam para trás, identificaram o criminoso, olharam para o lado e verificaram
o carro-bosta, morrendo de rir em gargalhadas tão altas que não mais se ouvia o
ronco da vemaguete.
Com o pé no fundo conseguiram passar. Tiveram de parar no próximo posto
onde niguém se habilitava à limpar o decorado veículo. Pior, quando voltaram à
estrada tiveram de passar por tudo novamente. Nunca mais conseguiram
ultrapassar o ônibus.
Vendeu a desditosa vemaguete para mim mas só contou o caso depois que eu
já havia pagado todas as prestações.
Nenhum comentário:
Postar um comentário