FARRA EM
SPANDAU
Berlin, cidade linda. O muro tinha caído. Estavamos ao
lado do Bradenburg Gate. Eu, minha bela, meu sócio e sua amada. Um alemão de
trejeitos ortodoxos nos levara à conhecer a cidade.
O hotel era seis estrelas. Tinhamos três dias em uma
conferência, as divas os tinham para fazer compras. Na KDV, é claro.
Chegamos e à noite fomos conhecer o calabouço do castelo de Spandau. O Rudolph
Hess ainda estava lá, no topo da torre. Em baixo, nas antigas masmorras ficava
o restaurante, à moda medieval, com música e tudo mais.
Pedimos cerveja, as belas queriam vinho. Sorviam como
discípulas de Bacco, estavam ficando tão alegres quanto os alemães que chegavam
sérios e sóbrios e, em questão de minutos, passavam à cantar, dançar e beber
sem parar. Serviram tambem honey wine, em chifres de boi. Não dava para
descansar, tinham de tomar tudo. Preferi a cerveja e assim escapei da destita
final.
Atrás de nossa mesa doze valkírias bebiam e cantavam.
Eram do tipo versátil, ou seja, adeptas de Lesbos. Estavam de olho na mulher de
meu sócio, uma loura do midwest americano, olhos azuis, seios fartos e protúberos.
Verdadeiro K.O. de mulher.
Lá para as tantas resolveu ir ao banheiro. A mesa de
trás se esvaziou. Voltou vinte minutos depois com um olhar meio morno,
hipnotizada. Algo havia acontecido. Disse-me que não se lembrava de nada.
Comia-se com as mãos. Bebia-se em chifres e conchas. A
quantidade farta indicava um final esfuziante. O show medieval, com bruxas,
duendes, bardos e fanfarrões infernava o espaço. Os alemães cantavam, brindavam
e dançavam. Acho que não dava para o Herr Hess dormir bem, lá em cima. Também,
para quem fez tanta sacanagem contra os coitados dos judeus, que ficasse
acordado...merecia.
Ao sair pegamos um táxi. Daqueles mixurucas. Era só
uma mercedes, cheirando à nova. Novo tambem era o chofer, um alemão do leste, só
falava alemão e olhe lá.
A bela loira estava fora de controle. Como toda
americana não entendia porque o coitado não falava inglês. Ante a recusa,
dava-lhe safanões possantes em seu braço direito. O carro zigzagueava pelas
ruas.
Chegamos ao destino. Descemos e ela correu à frente
achando, no processo, um bar onde um australiano de tamanho gigantesco tocava
Garota de Ipanema. Pediu seis caipirinhas.
As ditas chegaram e eram enormes. Ficou com duas para
ela mesma, deu outras duas para o pianista. As demais acho que foram liquidadas
pelo meu sócio.
Bacco havia sucedido em sua empreitada. As duas já
haviam se entragado ao sabor dos ventos etílicos que emanavam e, assim,
tentaram ir ao toalete. Para se refrescar, disseram.
Como bolas de boliche batiam nas paredes em um andar
trôpego, tentando chegar ao destino pretendido. Disse-me, minha bela, que via
um túnel sem fim à sua frente. O chão era macio e as paredes se assemelhavam a
colchões de espuma delirantes.
Neste certo delírio voltaram à seus quartos não antes
de sucumbirem à outras libações do mesmo gênero.
Os quartos se localizavam de maneira oposta. Um vão
central trazia luz do teto. Da janela se via a outra, persianas levantadas.
A esfuziante loura chegou primeiro. Não percebeu a
janela aberta. Despindo-se como em um filme pornô americano revelou toda a sua
pujança quando , num piscar de olhos,
seus seios pularam fora da jaula que os continha. Eram incríveis.
Apaguei a luz, fechei as persianas e voltei-me para
minha doce brunete. Notei que havia desmaiado, nua, atravessada em diagonal na
macia e convidativa cama. Alí ficou. Por mais de 24 horas não se mexeu.
Gemia...sons estranhos e disconexos. Maldizia algo de natureza inexplicável.
Estava meio verde.
Perderam a KDV. Não puderam fazer as compras que
pretendiam...
De coração despedaçado concordaram a fazê-lo, conosco,
no último dia. Não foi a mesma coisa.
Eu e meu sócio compramos tudo que estava à vista.
Elas, tolhidas e com o pensamento ainda turvo pelo álcool, raciocinavam
lentamente. Tão lento era o processo que dava para tirá-las da contemplação
natural que as mulheres fazem antes de se decidirem a gastar dinheiro.
Era o que queríamos. Não compraram nada...nadinha
mesmo.
Vingaram-se em Florença, um dia depois.
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