quinta-feira, 6 de abril de 2017

A SINFONIA DA ARQUITETURA



Parte 1 :    UMA AGRÁDAVEL SURPRESA



FORMA e FUNÇÃO, duas máximas arquitetônicas intrinsecamente dependentes. Não funcionam isoladamente e quando isto acontece, o resultado é ruim.

Nas longínquas montanhas das Gerais as duas se encontram em um projeto ímpar e raro no mundo da arquitetura.  Embora incompleta, a obra causa agradável surpresa quando nela se adentra pois existe harmonia na magnífica sala dedicada à Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.

Um casamento perfeito entre a perfeita música por ela produzida e o perfeito espaço para ela criado.

Sim, pois este é um exemplo de arquitetura que nasceu da função à ela dedicada, o espírito do lugar, o genius loci dos grandes arquitetos romanos, dando alma à uma sala única, de qualidade excepcional, rivalizado aos melhores e mais famosos Concert Halls do mundo.

É feita para música. Um instrumento musical gigantesco, com peças móveis e ajustáveis
que calibram e direcionam o som aos mais exigentes ouvidos.

Salas sinfônicas famosas tem sua marca sonora. Algumas trazem a música em acordes mais secos, outras mais frios. Como os pedais de um piano que amplificam a nota tocada, as paredes deste grande instrumento devolvem o som da orquestra em notas moldadas pelos materiais que as reverberam.

A Sala Minas Gerais tem um som macio, envolvente e carinhoso. Faz com que as obras dos grandes mestres sejam ouvidas com toda a força e beleza nelas existentes. E para que esta união fosse perfeita necessitava-se de uma grande orquestra.  E esta se faz presente.

Deixando a esperiência da chegada para um outro dia, adentra-se um espaço de volume e forma agradáveis. Cadeiras confortáveis circundam um palco central bem dimensionado abraçado por curvas de leve graciosidade em níveis diversos, criando espaços íntimos em um conjunto aberto.

O teto circundado por componentes acústicos móveis tem, no seu centro, em madeira, um grande painel  ajustável que paira sobre o posicionamento da orquestra a qual se situa sobre plataforma, também móvel e harmoniosamente colocada no coração da sala.
As cores são leves, as madeiras claras. Quando da visita, a iluminação ainda não havia sido afinada, o que faz com que a sala esteja sob excesso de luz.

Os instrumentos pesados são facilmente removíveis através de paineis bem projetados que servem também de back drop para a disposição dos músicos e instrumentos. Ao fundo se vê, no alto, o lugar reservado para o órgão. A presença do mesmo irá acrescentar uma nova definição da musicalidade do espaço. Sua existência aumentará as possibilidades interpretativas da Filarmônica e certamente trará algo ainda não experimentado para os ouvidos mineiros.

Os arquitetos e seus consultores acústicos se utilizaram das mais novas tecnologias para a criação deste espaço. E o fizeram com maestria.



Parte 2 :  EXEMPLOS E COMPARAÇÕES

Como música, arquitetura se diferencia pela qualidade e perfeição. Uma obra de Mozart, Beethoven ou Vivaldi enche nossos ouvidos com acordes inebriantes. Uma grande obra arquitetônica cativa e nos prende pela beleza e harmonia.

Grandes casas sinfônicas, as chamadas de Concert Halls, são raras e preciosas. Tão raras que quando são construídas renomados arquitetos disputam palmo a palmo a indicação para projetá-las. E elas não acontecem com frequência. Quando o são, jornais e revistas nelas se debrucam tecendo ou não elogios àquela criação. E os fazem mundo afora.

Existem poucas cidades que podem se gabar de ter uma sala sinfônica. Belo Horizonte acaba de ganhar a sua. Com ela ganhamos todos, nós mineiros, que deveriamos ser um pouco mais falantes para podermos contar ao mundo o que temos.

Cito entre as melhores salas do gênero a sede da Boston Simphony, o Carneguie Hall e Severance Center. Para não ser injusto, minha lista poderia ter mais uns 20 nomes, entre estes o Disney Concert Hall, em Los Angeles, projetado por Frank O. Ghery. A Sala São Paulo, embora digna de nota, apresenta problemas nas linhas de visão. Seua assentos não são dispostos radialmente causando ligeiro desconforto aos espectadores.

Uma sala sinfônica é diferente de um teatro que abriga diversas formas de arte. A presença do proscênio, colunada de abertura entre o palco e o auditório é nescessária para óperas, balé e peças que precisam do back stage. Este arco separador é obstáculo para acústica sinfônica. Esta fica melhor quando a orquestra é trazida mais próxima da platéia. A interação entre a música e os ávidos ouvidos se faz sem  reverberação ou medida incorreta de tempo na propagação das ondas sonoras.

Como são salas únicas e caras, a grande maioria prefere construir salas de múltiplo uso. Assim foi em Belo Horizonte com a construção do Palácio das Artes. Lá a orquestra tocava mal, pois a acústica é péssima e o som era engulido pela enorme boca de cena, desproporcional à forma do auditório.

Surge então a nossa nova casa de música. E só para música! Nos coloca entra as poucas metrópolis do mundo com obras do gênero. A primeira em Minas desde a construção do teatrinho de Sabará, este perfeito para música de câmara. E isto foi a uns duzentos anos atrás.


Parte 3:     O QUE NÃO DEVIA TER ACONTECIDO

Para uma obra de tão grande importância não se vislumbra uma experiência tão negativa quanto a chegada ao destino. Caminhando-se em vias deletérias, passeios deformados, pavimentacao deformada, árvores retorcidas,  postes avessos a posição vertical penteados por fios díspares e mal colocados, chega-se a um espaço acanhado e escondido.

A escolha do terreno foi errada. Cercado por um hospital, ladeado por uma escola e sombreado por uma instalação militar está um edifício difícil de ser visto como um todo. As perpectivas de perto não fazem jus ao jogo de massas, luz e sombras.

Salas de importância como esta se localizam em parques, vias importantes e bem urbanizadas, pontos focais e icônicos pois se transformam e cartões postais. O conjunto da Sala Minas Gerais, Rádio Inconfidência e Rede Minas não pode ser visto como um todo, somente em fragmentos.

Estas vias de acesso, desprovidas de charme e mal arrumadas,  emolduram a obra em pinceladas pobres, parcas e infelizes.

A Sala Minas Gerais, pela sua importância, pela presença da Filarmônica não poderia ter sido inaugurada incompleta. Políticos têm a tendência de forçar a abertura de uma grande realizaçao dentro do calendário que lhes interessa. Se fossem mais competentes programariam o evento de maneira a fazê-lo. Não o são. Entretanto, há de se louvar o fato que o governo anterior foi o que mais fez pela cultura mineira, em sua história. O conjunto da praça da Liberdade é exemplo insofismável.

O recente evento, fechando o Palácio da Liberdade é, no minimo, lamentável. Com a desculpa de cupins à solta, impede-se a visitação de uma jóia. Acredito que os cupins, na realidade, habitam na ôca cabeça dos novos dirigentes. Espera-se que os poucos neurônios que lá sobraram não impeça que a magnífica Sala Minas Gerais seja terminada corretamente, sem a introdução de materiais de segunda e sem modificações que interfiram com a qualidade do espaço. Que sejam urbanizados os arredores, com classe, charme e beleza.

Que sejam benvindos os deuses da música e que nós, mineiros, tenhamos a capacidade de cantar aos sete ventos as nossas realizações, a nossa Filarmônica, a nossa Sala.








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