A SINFONIA DA ARQUITETURA
Parte 1 :
UMA AGRÁDAVEL SURPRESA
FORMA e FUNÇÃO, duas máximas arquitetônicas intrinsecamente dependentes.
Não funcionam isoladamente e quando isto acontece, o resultado é ruim.
Nas longínquas montanhas das Gerais as duas se encontram em um projeto ímpar
e raro no mundo da arquitetura. Embora
incompleta, a obra causa agradável surpresa quando nela se adentra pois existe
harmonia na magnífica sala dedicada à Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.
Um casamento perfeito entre a perfeita música por ela produzida e o
perfeito espaço para ela criado.
Sim, pois este é um exemplo de arquitetura que nasceu da função à ela
dedicada, o espírito do lugar, o genius
loci dos grandes arquitetos romanos, dando alma à uma sala única, de
qualidade excepcional, rivalizado aos melhores e mais famosos Concert Halls do mundo.
É feita para música. Um instrumento musical gigantesco, com peças móveis
e ajustáveis
que calibram e direcionam o som aos mais exigentes ouvidos.
Salas sinfônicas famosas tem sua marca sonora. Algumas trazem a música
em acordes mais secos, outras mais frios. Como os pedais de um piano que
amplificam a nota tocada, as paredes deste grande instrumento devolvem o som da
orquestra em notas moldadas pelos materiais que as reverberam.
A Sala Minas Gerais tem um som macio, envolvente e carinhoso. Faz com
que as obras dos grandes mestres sejam ouvidas com toda a força e beleza nelas
existentes. E para que esta união fosse perfeita necessitava-se de uma grande
orquestra. E esta se faz presente.
Deixando a esperiência da chegada para um outro dia, adentra-se um espaço
de volume e forma agradáveis. Cadeiras confortáveis circundam um palco central
bem dimensionado abraçado por curvas de leve graciosidade em níveis diversos,
criando espaços íntimos em um conjunto aberto.
O teto circundado por componentes acústicos móveis tem, no seu centro,
em madeira, um grande painel ajustável
que paira sobre o posicionamento da orquestra a qual se situa sobre plataforma,
também móvel e harmoniosamente colocada no coração da sala.
As cores são leves, as madeiras claras. Quando da visita, a iluminação
ainda não havia sido afinada, o que faz com que a sala esteja sob excesso de
luz.
Os instrumentos pesados são facilmente removíveis através de paineis bem
projetados que servem também de back drop para a disposição dos músicos e
instrumentos. Ao fundo se vê, no alto, o lugar reservado para o órgão. A presença
do mesmo irá acrescentar uma nova definição da musicalidade do espaço. Sua existência
aumentará as possibilidades interpretativas da Filarmônica e certamente trará
algo ainda não experimentado para os ouvidos mineiros.
Os arquitetos e seus consultores acústicos se utilizaram das mais novas
tecnologias para a criação deste espaço. E o fizeram com maestria.
Parte 2 :
EXEMPLOS E COMPARAÇÕES
Como música, arquitetura se diferencia pela qualidade e perfeição. Uma
obra de Mozart, Beethoven ou Vivaldi enche nossos ouvidos com acordes
inebriantes. Uma grande obra arquitetônica cativa e nos prende pela beleza e
harmonia.
Grandes casas sinfônicas, as chamadas de Concert Halls, são raras e preciosas. Tão raras que quando são
construídas renomados arquitetos disputam palmo a palmo a indicação para projetá-las.
E elas não acontecem com frequência. Quando o são, jornais e revistas nelas se
debrucam tecendo ou não elogios àquela criação. E os fazem mundo afora.
Existem poucas cidades que podem se gabar de ter uma sala sinfônica.
Belo Horizonte acaba de ganhar a sua. Com ela ganhamos todos, nós mineiros, que
deveriamos ser um pouco mais falantes para podermos contar ao mundo o que
temos.
Cito entre as melhores salas do gênero a sede da Boston Simphony, o
Carneguie Hall e Severance Center. Para não ser injusto, minha lista poderia
ter mais uns 20 nomes, entre estes o Disney Concert Hall, em Los Angeles,
projetado por Frank O. Ghery. A Sala São Paulo, embora digna de nota, apresenta
problemas nas linhas de visão. Seua assentos não são dispostos radialmente
causando ligeiro desconforto aos espectadores.
Uma sala sinfônica é diferente de um teatro que abriga diversas formas
de arte. A presença do proscênio, colunada de abertura entre o palco e o auditório
é nescessária para óperas, balé e peças que precisam do back stage. Este arco separador é obstáculo para acústica sinfônica.
Esta fica melhor quando a orquestra é trazida mais próxima da platéia. A interação
entre a música e os ávidos ouvidos se faz sem
reverberação ou medida incorreta de tempo na propagação das ondas
sonoras.
Como são salas únicas e caras, a grande maioria prefere construir salas
de múltiplo uso. Assim foi em Belo Horizonte com a construção do Palácio das
Artes. Lá a orquestra tocava mal, pois a acústica é péssima e o som era
engulido pela enorme boca de cena, desproporcional à forma do auditório.
Surge então a nossa nova casa de música. E só para música! Nos coloca
entra as poucas metrópolis do mundo com obras do gênero. A primeira em Minas
desde a construção do teatrinho de Sabará, este perfeito para música de câmara.
E isto foi a uns duzentos anos atrás.
Parte 3:
O QUE NÃO DEVIA TER ACONTECIDO
Para uma obra de tão grande importância não se vislumbra uma experiência
tão negativa quanto a chegada ao destino. Caminhando-se em vias deletérias,
passeios deformados, pavimentacao deformada, árvores retorcidas, postes avessos a posição vertical penteados
por fios díspares e mal colocados, chega-se a um espaço acanhado e escondido.
A escolha do terreno foi errada. Cercado por um hospital, ladeado por
uma escola e sombreado por uma instalação militar está um edifício difícil de
ser visto como um todo. As perpectivas de perto não fazem jus ao jogo de
massas, luz e sombras.
Salas de importância como esta se localizam em parques, vias importantes
e bem urbanizadas, pontos focais e icônicos pois se transformam e cartões
postais. O conjunto da Sala Minas Gerais, Rádio Inconfidência e Rede Minas não
pode ser visto como um todo, somente em fragmentos.
Estas vias de acesso, desprovidas de charme e mal arrumadas, emolduram a obra em pinceladas pobres, parcas
e infelizes.
A Sala Minas Gerais, pela sua importância, pela presença da Filarmônica
não poderia ter sido inaugurada incompleta. Políticos têm a tendência de forçar
a abertura de uma grande realizaçao dentro do calendário que lhes interessa. Se
fossem mais competentes programariam o evento de maneira a fazê-lo. Não o são.
Entretanto, há de se louvar o fato que o governo anterior foi o que mais fez
pela cultura mineira, em sua história. O conjunto da praça da Liberdade é
exemplo insofismável.
O recente evento, fechando o Palácio da Liberdade é, no minimo, lamentável.
Com a desculpa de cupins à solta, impede-se a visitação de uma jóia. Acredito
que os cupins, na realidade, habitam na ôca cabeça dos novos dirigentes.
Espera-se que os poucos neurônios que lá sobraram não impeça que a magnífica
Sala Minas Gerais seja terminada corretamente, sem a introdução de materiais de
segunda e sem modificações que interfiram com a qualidade do espaço. Que sejam
urbanizados os arredores, com classe, charme e beleza.
Que sejam benvindos os deuses da música e que nós, mineiros, tenhamos a
capacidade de cantar aos sete ventos as nossas realizações, a nossa Filarmônica,
a nossa Sala.
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