quarta-feira, 9 de setembro de 2020

 

A BELA E O DIVÃ

 

 

Comprou um divã…

Tinha acabado de formar-se.

Consultório novo, pintado, arrumado.

O divã era lindo…

Curvas sensuais, couro macio, botões dourados.

Sentou-se, olhou, admirado,

Sentiu-se encantado.

 

Loira ela era.

Bela, esguia, cabelos longos.

Entrou como a brisa da primavera,

Esvoaçante, como seu vestido transparente,

Curto, seda e renda, cor da pele alva que tinha.

No divã assentou-se…

No divã aninhou-se…

 

Falou, contou, disse tudo com voz macia.

Que lindos lábios!

Rubros, brilhantes, sedutores.

Olhos de mel,

Exalavam a doçura que vinha de dentro de seu corpo.

 

O ventilador rodava em volutas lentas,

Levemente seu vestido elevou-se…

E pernas tão lindas se deixaram ver,

Até onde tudo acaba ou começa.

 

 

Não sabia o que fazer.

Lhe ensinaram a ouvir somente.

Mas queria balbuciar algo,

Provocar tudo,

Incendiar seu diploma,

Mergulhar no triângulo,

Cuidadosamente aparado, penteado.

 

 

 

Não tinha nada por baixo.

Mas lá havia tudo…

A perdição, amor, paixão, veneno.

Não sabia se fitava …

Lábios, olhos, vértice ?

Teve vertigem…

Empertigou-se.

 

 

Ouviu dela histórias de amor.

Ouviu dela que era tântrica.

Sentia prazer em tudo,

À toda hora…

Em qualquer lugar!

Estremeceu…

 

 

Seu bloco de notas não tinha nada escrito.

Somente linhas tortas.

Linhas retas.

Linhas soltas,

Soltas como seus pensamentos,

Em um turbilhão de emoções.

A saia subiu mais ainda…

Sua pressão, nem se sabe…

Sabia que tinha de fazer algo.

Mas perdido estava.

Estático…

Trêmulo…

Em êxtase…

 

 

Num movimento gracioso,

Suas longas pernas a levaram.

Levaram-na dalí.

Partiu…

O silêncio ruidoso,

De mil sinos à tocarem,

O levaram à um mergulho frenético.

 

 

No divã se estatelou.

E nele desmaiou.

Pelo divã se apaixonou…

Por ela…não soube dizer…

 

Nem sabia o seu nome…

 

 

 

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