JANE
Nasceu em
um dia de Novembro de 1946. A guerra tinha acabado mas os efeitos tristes sobre
os italianos que construíram Belo Horizonte ainda perduravam.
Era muito
bonita. Pele muito branca, olhos e cabelos negros, a quarta de uma família de sete.
Naquela época era comum o parto por “mid wifes” (parteiras). Jane
nasceu assim, como todos nós irmãos.
Mas algo
aconteceu naquele dia, algo que marcou sua vida e a de minha mãe. Diria na verdade, de todos nós, pois aquela criaturinha sofreu um trauma que a deixou inválida por toda sua vida. Erro da parteira? Erro dos médicos que a atenderam? Não sei e nunca soube. As coisas não eram tão comentadas aquela época, especialmente as más. Nunca andou, falou ou se
desenvolveu. Um bebê que durou 26 anos até que um dia um anjo a levou.
Minha mãe nos criou todos com carinho e atenção. Jane precisava de mais e todos a ajudavam. Até papai, com seu coração bom achava tempo para apoiar, do
jeito que os homens fazem, solidário, mas distante.
Criar
sete não é tarefa para qualquer um. Cinco
homens e duas meninas. A gente ajudava, eu me encarregava de passar as fraldas
e às vezes alí sentava , ao seu lado, para brincar
com ela. Ela sorria e fazia uns barulhos inintelegíveis. Sabia que gostava.
Mamãe nunca, por isso e por decisão própria, pode desfrutar de uma vida de
prazeres. Não viajava, não passeava, não ia à festas, só cuidava da filha querida a quem
dedicou um amor profundo que a marcou para sempre.
Quando
Jane foi embora deixou um vazio. Minha mãe ainda a sente por perto e sonha
estar com ela novamente, mas, embora pareça egoísta acho que foi bom tê-la perdido. Sofria muito, entrevada,
presa àquela cama, aos longos e intermináveis dias que se passavam. Mamãe ainda, mais de 50 anos depois a usa como desculpa para não se divertir. Acostumou-se e assim vive a vida beirando 99
anos.
Dizem os
espíritas que estas criaturas nascem com uma prova a ser
cumprida. Aos de seu entorno uma missão, algo que em outra encarnação foi pedido para que fosse cumprida. Uma missão e prova difíceis, cheias de dias com surpresas
tristes, com dificuldades enormes mas sempre com amor e carinho de todos,
especialmente de minha mãe.
Se hoje a
fosse visitar e a convidasse para sair sei que me diria:
“Não posso, vocês sabem, eu tive a Jane…”
“E vocês não sabem quanto sofri…”
Mas isso
foi há mais de 50 anos, mamãe!
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