quarta-feira, 25 de março de 2020


JANE


Nasceu em um dia de Novembro de 1946. A guerra tinha acabado mas os efeitos tristes sobre os italianos que construíram Belo Horizonte ainda perduravam.
Era muito bonita. Pele muito branca, olhos e cabelos negros, a quarta de uma família de sete.
Naquela época era comum o parto por “mid wifes” (parteiras). Jane nasceu assim, como todos nós irmãos.
Mas algo aconteceu naquele dia, algo que marcou sua vida e a de minha mãe. Diria na verdade, de todos nós, pois aquela criaturinha sofreu um trauma que a deixou inválida por toda sua vida. Erro da parteira? Erro dos médicos que a atenderam? Não sei e nunca soube. As coisas não eram tão comentadas aquela época, especialmente as más. Nunca andou, falou ou se desenvolveu. Um bebê que durou 26 anos até que um dia um anjo a levou.
Minha mãe nos criou todos com carinho e atenção. Jane precisava de mais e todos a ajudavam. Até papai, com seu coração bom achava tempo para apoiar, do jeito que os homens fazem, solidário, mas distante.
Criar sete não é tarefa para qualquer um. Cinco homens e duas meninas. A gente ajudava, eu me encarregava de passar as fraldas e às vezes alí sentava , ao seu lado, para brincar com ela. Ela sorria e fazia uns barulhos inintelegíveis. Sabia que gostava.
Mamãe nunca, por isso e por decisão própria, pode desfrutar de uma vida de prazeres. Não viajava, não passeava, não ia à festas, só cuidava da filha querida a quem dedicou um amor profundo que a marcou para sempre.
Quando Jane foi embora deixou um vazio. Minha mãe ainda a sente por perto e sonha estar com ela novamente, mas, embora pareça egoísta acho que foi bom tê-la perdido. Sofria muito, entrevada, presa àquela cama, aos longos e intermináveis dias que se passavam. Mamãe ainda, mais de 50 anos depois a usa como desculpa para não se divertir. Acostumou-se e assim vive a vida beirando 99 anos.
Dizem os espíritas que estas criaturas nascem com uma prova a ser cumprida. Aos de seu entorno uma missão, algo que em outra encarnação foi pedido para que fosse cumprida. Uma missão e prova difíceis, cheias de dias com surpresas tristes, com dificuldades enormes mas sempre com amor e carinho de todos, especialmente de minha mãe.
Se hoje a fosse visitar e a convidasse para sair sei que me diria:
“Não posso, vocês sabem, eu tive a Jane…”
“E vocês não sabem quanto sofri…”
Mas isso foi há mais de 50 anos, mamãe!

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