NO VERDE
SE PERDEU
Ou
Lauro “ O Vegetariano”
Trabalhava
em uma entidade agro-pecuária. Era bom no assunto.
Queria
sempre ficar ainda melhor, por isso, criava, passeava, visitava. Queria ver tudo,
opinar, melhorar e transformar.
Em suas
andanças viu muitas coisas. Viu também bichinhos em fila para morrer, serem triturados,
esquartejados.
Machucou
seu coração.
Gostava
de beber. Bebia todas e de tudo. Dizia: “É para não ficar viciado em nenhuma”
Tinha um
paladar apurado, afrancesado pela bela francesa com quem se casou.
Nos
torresmos, pururucas, cachaças e uísques regados à cervejas, se deliciava. Na roça parava em todos os alambiques para beber, de cuia, a
“marvada” caninha. Nos devaneios etílicos pensava em Bacco, no paraíso cercado de belas garotas, discursos ruidosos em verve
barroca derretendo corações, iludindo incautos e floreando o
mundo com doces e gentis palavras.
Pululava
entre mesas do bar favorito. Oferecia espíritos de safras especiais entre
mordazes elocubrações e metáforas sutis.
Mas sua
visão não mais era a mesma. Corrompida pelas
cenas terríveis das mortes de criaturinhas
inocentes do reino animal revoltou-se…
E
revoltou-se com a força dos titãs gregos. Invocou os trabalhos de Hércules e decidiu viver a vida no verde das plantas sem o
sangue que tingia os pratos, sem a carne que anuviava seus sentimentos.
Virou
vegetariano…
E, em
alfafas se perdeu.
Achou que
se verde ficava ainda podia beber. Mas, sem o colesterol dos deliciosos
torresmos e afins seu metabolismo não mais processava as dádivas etílicas.
Ficou
mais tonto do que dantes e, na tontura, sua verve se perdeu em balbucios
loucos, desconexos.
Tentou
voltar, ainda tenta. Mas verde já estava e verde ficou.
Queria amadurecer
de novo. Beber, comer, sonhar com vacas inteiras num espeto, porquinhos pururucados,
aves assadas, peixes fritos. Mas maduro não mais ficou. Também, quem quer ser venezuelano?
Recolheu-se
à insignificância da mais simples relva. Nas salsas
temperou-se, nos ruibarbos apimentou-se, nos jilós amargou-se. E, realmente verde transformou-se.
Agora,
perdido, implora pelo álcool amigo, mas este, cruel, não o deixa mais feliz.
Resiste,
mas não resistirá mais…
Seus
amigos reunidos planejam jantares onde o churrasco sangrento prevalece.
O
Tinhoso, avisado sugere torresmos e picanhas.
Volte
amigo Lauro, o mundo com você verde não é mais o mesmo.
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