sexta-feira, 17 de janeiro de 2020


NO VERDE SE PERDEU
Ou
Lauro “ O Vegetariano”

Trabalhava em uma entidade agro-pecuária. Era bom no assunto.
Queria sempre ficar ainda melhor, por isso, criava, passeava, visitava. Queria ver tudo, opinar, melhorar e transformar.
Em suas andanças viu muitas coisas. Viu também bichinhos em fila para morrer, serem triturados, esquartejados.
Machucou seu coração.
Gostava de beber. Bebia todas e de tudo. Dizia: “É para não ficar viciado em nenhuma”
Tinha um paladar apurado, afrancesado pela bela francesa com quem se casou.
Nos torresmos, pururucas, cachaças e uísques regados à cervejas, se deliciava. Na roça parava em todos os alambiques para beber, de cuia, a “marvada” caninha. Nos devaneios etílicos pensava em Bacco, no paraíso cercado de belas garotas, discursos ruidosos em verve barroca derretendo corações, iludindo incautos e floreando o mundo com doces e gentis palavras.
Pululava entre mesas do bar favorito. Oferecia espíritos de safras especiais entre mordazes elocubrações e metáforas sutis.
Mas sua visão não mais era a mesma. Corrompida pelas cenas terríveis das mortes de criaturinhas inocentes do reino animal revoltou-se…
E revoltou-se com a força dos titãs gregos. Invocou os trabalhos de Hércules e decidiu viver a vida no verde das plantas sem o sangue que tingia os pratos, sem a carne que anuviava seus sentimentos.
Virou vegetariano…
E, em alfafas se perdeu.
Achou que se verde ficava ainda podia beber. Mas, sem o colesterol dos deliciosos torresmos e afins seu metabolismo não mais processava as dádivas etílicas.
Ficou mais tonto do que dantes e, na tontura, sua verve se perdeu em balbucios loucos, desconexos.
Tentou voltar, ainda tenta. Mas verde já estava e verde ficou.
Queria amadurecer de novo. Beber, comer, sonhar com vacas inteiras num espeto, porquinhos pururucados, aves assadas, peixes fritos. Mas maduro não mais ficou. Também, quem quer ser venezuelano?
Recolheu-se à insignificância da mais simples relva. Nas salsas temperou-se, nos ruibarbos apimentou-se, nos jilós amargou-se. E, realmente verde transformou-se.
Agora, perdido, implora pelo álcool amigo, mas este, cruel, não o deixa mais feliz.
Resiste, mas não resistirá mais…
Seus amigos reunidos planejam jantares onde o churrasco sangrento prevalece.
O Tinhoso, avisado sugere torresmos e picanhas.
Volte amigo Lauro, o mundo com você verde não é mais o mesmo.

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