sexta-feira, 27 de setembro de 2019


FRESHLY  SQUEEZED  ORANGE  JUICE




Seattle é linda. Fica entre montanhas, um braço de mar e vulcões espetaculares. A arquitetura, da melhor qualidade, pontos turísticos e a simpatia dos habitantes do noroeste americano a fazem melhor ainda.

Existe um mercado antigo chamado Pike Market. Fica no alto de uma colina e tem entre as coisas que vende, uma peixaria, cujos empregados malabaristas jogam os peixes ao ar num ritual plástico à pesar, embrulhar e entregá-los ao cliente hipnotizado pela mágica dos movimentos.

Existe também um café, bem decorado, especializado em grãos de todo o mundo, pães deliciosos e um suco de laranja, espremido na hora, absolutamente delicioso.

Levei minha amada e queridos filhos para apreciar as delícias de Seattle. Lá estava construindo as oficinas gráficas do Seattle Times, o maior jornal da cidade. Pensava até em deixar Cleveland e morar ao sopé do Mount Rainier, um vulcão de 14 mil pés de altitude.

Ela queria um suco, espremido na hora.

Era cedo e o local estava vazio. Pedi o suco, procurei por uma mesa que acomodasse cinco e sentei-me à cabeceira. Ela, faceira e alegre escolheu o lado oposto. Sorridente esperava pelo café com o suco pedido.

O garçom, um jovem falante, vinha trazendo o mesmo em uma bandeja. Como manda o figurino serviu primeiro a madame. Abaixando-se ofereceu o néctar acondicionado em copo longo.

Não sei bem o que houve, mas o movimento feito por ela fez com que o copo levantasse voo. Até parecia o lançamento de um foguete em Cape Canaveral. O tempo parecia mais lento do que o normal. Vi o líquido laranja se movimentando para fora do copo. Vi o copo dar duas piruetas e procurar o chão não antes de expelir todo o conteúdo em minha direção.

Havia comprado uma calça branca, elegante e bem talhada. Queria impressionar minha bela. O líquido laranja vinha em sua direção. Não houve tempo para esquivar-me. Toda aquela massa despejou-se em minhas partes baixas, concentrando-se no dito cujo o qual estava calmo à descansar.

O garçom riu. Um riso nervoso pois tinha de limpar os cacos do copo. Quanto ao suco, havia ficado inteiramente em mim. Tentei ser esportivo. Era só um acidente, tudo se resolveria à contento. Olhei para ela e, cruzando olhares, senti que deveria pedir outro. E assim o fiz.

Troquei de mesa. Uma maior, cabendo oito. Sentei-me à cabeceira e exigi que ela se sentasse à outra. Meus filhos que mal continham gargalhadas profusas se comportavam dignamente, com pena do pai.

O garçom voltou, ainda com um copo em uma bandeja. Ela afoitou-se. Quis pegar o copo antes que este chegasse. Havia óleo, graxa ou qualquer outro deslizante em suas mãos, pois elas, as duas, espremeram o copo que por entre os dedos saiu em acrobacias únicas.

No voar artístico e desprendido separou-se do líquido e espatifou-se ao chão. O suco, como um tsunami amarelo atravessou a mesa. Seu destino era, novamente, minhas partes baixas. Lá se acomodou. Por um instante achei que iria escapar mas somente o melado do açúcar me fazia lembrar que certas coisas estavam no processo de se colarem.

Não gostei mas me contive. O rapaz já não tão alegre, se dispunha à novamente recolher os cacos. Meus filhos já gargalhavam, partindo para soluços convulsivos.

Ela pediu outro suco. Disse com voz melosa: “I really want my freshly squezed orange juice.” Quem não atenderia a tal súplica? E outro suco foi-se fazendo.

Eu sou, ou pelo menos acho que sou inteligente. Mudei-me para outra mesa, separada, aquela de quatro lugares. Decretei terra interditada. Ali só eu. Os outros foram isolados em outra mesa, também longa como a anterior, à alguns metros de distância. Estava à salvo. Isso não acontece três vezes, pensei.

Não tão feliz como no início o garçom voltou. Segurava o copo na mão, firmemente. Acho que não queria correr riscos. Fez até uma gracinha, servindo do lado oposto. Erro cruel. Tal mudança de destino selou a fuga do suco, que do copo saiu, vulcanicamente.

A erupção amarela misturou-se com as tentativas de salvar o copo. Como os outros dois, encontrou o seu fim ao rés do chão.

Com certo incômodo observava a cena imbuído da certeza dos imbecis. Jamais me atingirão.

Ledo engano. A força explosiva do líquido assanho afunilou-se e, como um esguicho de mangueira depositou-se, novamente, no infeliz lugar. Achei que ia perder meus filhos. Não sei se eram risos, gargalhadas, gaitadas ou soluços. Estavam rolando em convulsões contínuas.

O garçom desesperado não sabia o que fazer. Seu olhar estupefato indicava que não gostava mais da gente. Eu, sentia a partes grudentas mais grudadas do que super cola.
Decidi partir.

Mas eu ainda não tomei o meu “freshly squeezed orange juice”, falou. Não foi ouvida por mim e, certamente, também pelo garçom.

Em casa, tive de colocar as partes de molho. Gastou tempo descolar uma da outra. O mais incrível não foi ter acontecido o mesmo por três vezes...ela ainda quer, até hoje, o “freshly squeezed orange juice”.

Não me arrisco voltar à Seattle.





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