FRESHLY SQUEEZED ORANGE JUICE
Seattle é linda. Fica entre montanhas,
um braço de mar e vulcões espetaculares. A arquitetura, da melhor qualidade,
pontos turísticos e a simpatia dos habitantes do noroeste americano a fazem
melhor ainda.
Existe um mercado antigo chamado Pike Market. Fica no alto de uma colina e tem entre as coisas que
vende, uma peixaria, cujos empregados malabaristas jogam os peixes ao ar num
ritual plástico à pesar, embrulhar e entregá-los ao cliente hipnotizado pela mágica
dos movimentos.
Existe também um café, bem decorado, especializado em
grãos de todo o mundo, pães deliciosos e um suco de laranja, espremido na hora,
absolutamente delicioso.
Levei minha amada e queridos filhos para apreciar as
delícias de Seattle. Lá estava
construindo as oficinas gráficas do Seattle
Times, o maior jornal da cidade. Pensava até em deixar Cleveland e morar ao sopé do Mount
Rainier, um vulcão de 14 mil pés de altitude.
Ela queria um suco, espremido na hora.
Era cedo e o local estava vazio. Pedi o suco, procurei
por uma mesa que acomodasse cinco e sentei-me à cabeceira. Ela, faceira e
alegre escolheu o lado oposto. Sorridente esperava pelo café com o suco pedido.
O garçom, um jovem falante, vinha trazendo o mesmo em
uma bandeja. Como manda o figurino serviu primeiro a madame. Abaixando-se
ofereceu o néctar acondicionado em copo longo.
Não sei bem o que houve, mas o movimento feito por ela
fez com que o copo levantasse voo. Até parecia o lançamento de um foguete em Cape Canaveral. O tempo parecia mais
lento do que o normal. Vi o líquido laranja se movimentando para fora do copo.
Vi o copo dar duas piruetas e procurar o chão não antes de expelir todo o conteúdo
em minha direção.
Havia comprado uma calça branca, elegante e bem
talhada. Queria impressionar minha bela. O líquido laranja vinha em sua direção.
Não houve tempo para esquivar-me. Toda aquela massa despejou-se em minhas
partes baixas, concentrando-se no dito cujo o qual estava calmo à descansar.
O garçom riu. Um riso nervoso pois tinha de limpar os
cacos do copo. Quanto ao suco, havia ficado inteiramente em mim. Tentei ser
esportivo. Era só um acidente, tudo se resolveria à contento. Olhei para ela e,
cruzando olhares, senti que deveria pedir outro. E assim o fiz.
Troquei de mesa. Uma maior, cabendo oito. Sentei-me à
cabeceira e exigi que ela se sentasse à outra. Meus filhos que mal continham
gargalhadas profusas se comportavam dignamente, com pena do pai.
O garçom voltou, ainda com um copo em uma bandeja. Ela
afoitou-se. Quis pegar o copo antes que este chegasse. Havia óleo, graxa ou
qualquer outro deslizante em suas mãos, pois elas, as duas, espremeram o copo
que por entre os dedos saiu em acrobacias únicas.
No voar artístico e desprendido separou-se do líquido
e espatifou-se ao chão. O suco, como um tsunami amarelo atravessou a mesa. Seu
destino era, novamente, minhas partes baixas. Lá se acomodou. Por um instante
achei que iria escapar mas somente o melado do açúcar me fazia lembrar que
certas coisas estavam no processo de se colarem.
Não gostei mas me contive. O rapaz já não tão alegre,
se dispunha à novamente recolher os cacos. Meus filhos já gargalhavam, partindo
para soluços convulsivos.
Ela pediu outro suco. Disse com voz melosa: “I really want my freshly squezed orange juice.” Quem não
atenderia a tal súplica? E outro suco foi-se fazendo.
Eu sou, ou pelo menos acho que sou inteligente.
Mudei-me para outra mesa, separada, aquela de quatro lugares. Decretei terra
interditada. Ali só eu. Os outros foram isolados em outra mesa, também longa
como a anterior, à alguns metros de distância. Estava à salvo. Isso não
acontece três vezes, pensei.
Não tão feliz como no início o garçom voltou. Segurava
o copo na mão, firmemente. Acho que não queria correr riscos. Fez até uma
gracinha, servindo do lado oposto. Erro cruel. Tal mudança de destino selou a
fuga do suco, que do copo saiu, vulcanicamente.
A erupção amarela misturou-se com as tentativas de
salvar o copo. Como os outros dois, encontrou o seu fim ao rés do chão.
Com certo incômodo observava a cena imbuído da certeza
dos imbecis. Jamais me atingirão.
Ledo engano. A força explosiva do líquido assanho
afunilou-se e, como um esguicho de mangueira depositou-se, novamente, no
infeliz lugar. Achei que ia perder meus filhos. Não sei se eram risos,
gargalhadas, gaitadas ou soluços. Estavam rolando em convulsões contínuas.
O garçom desesperado não sabia o que fazer. Seu olhar
estupefato indicava que não gostava mais da gente. Eu, sentia a partes
grudentas mais grudadas do que super cola.
Decidi partir.
Mas eu ainda não tomei o meu “freshly squeezed orange juice”, falou. Não foi ouvida por mim e,
certamente, também pelo garçom.
Em casa, tive de colocar as partes de molho. Gastou
tempo descolar uma da outra. O mais incrível não foi ter acontecido o mesmo por
três vezes...ela ainda quer, até hoje, o “freshly
squeezed orange juice”.
Não me arrisco voltar à Seattle.
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