A LENTA E INEXORÁVEL MORTE DA DEMOCRACIA
Poder pelo
povo. Demos e Kratos = Demokratia.
Sonho grego que deu ao homem a decisão de organizar a vida pelo desejo
coletivo.
Como sonho,
vai e volta, manifestando-se de forma transvestida de tempos em tempos.
Julius Cæsar assim o
fez quando na Roma democrática se transformou em ditador da república.
Mas o homem
só se sente bem tendo um senhor para quem se dirigir. Se não em forma feudal o é em forma religiosa. Nas versões popularescas da democracia se inventou o socialismo e sua expressão mais rígida na doutrina do controle de tudo pelo todo, uma idiotice que acaba com alguns
mandando e outros escravizados.
O ditador
benevolente ainda tem seu apelo mas, pode se dizer, que todas estas manifestações de organização social duram um certo tempo e
depois sucumbem diante de tentativas novas ou remendos à velhos chavões políticos que nada mais são do que a mera manipulação de teses e dogmas em favor de um
tirano qualquer ou figura carismática capaz de iludir incautas mentes.
Sim, porque
o povo vira e mexe se volta ao antigo líder feudal, o senhor, rei, ditador, ente
supremo, seja lá o que for. Se não existe aqui, certamente existiria no outro mundo, onde na
ausência de poder vê-lo com ele se encontra em altares de
religiões imbecilizantes.
Mas, de
tempos em tempos aparece a tal da anarquia.
Do século XIX para cá passou à existir, de início na Espanha e Itália, mais
tarde passando pela França e se espalhando
em movimentos menores e localizados em outras partes do mundo.
No final
deste século teve seu ápice quando Sante Geronimo Caserio matou Marie
Francois Sadi Carnot em 1894, com uma facada certeira em seu peito. Caserio, um rapaz jovem e bem apessoado
era um anarquista italiano. Morreu pela lâmina da guilhotina. Idolatrado, teve
seus feitos e sua morte expressos em música, lindas canções populares que marcaram o coração italiano a ponto de Tchaikowsky
incluí-la como tema de seu Capriccio
Italiano.
Meu avô chegou ao Brasil em 1896 para ser parte da construção de Belo Horizonte.
Com ele um disco de baquelite em 78 rotações para gramophone. Nele gravado, a
morte de Caserio. Tocava para mim e
deixava lágrimas em sua face escorrer. Saudades da bela Itália, saudades de seus amigos partigianos, saudades de suas belas canções. O norte d’Italia
era anarquista.
Nesta anárquica forma de governo o que havia era a ausência do mesmo. Cabia à cada cidadão ser dono de si mesmo, respeitar o próximo, não jurar obediência a nada, principalmente à qualquer forma estruturada de hierarquia e comando.
Acho que
tudo talvez tenha começado com a bela França. Ao matar a monarquia, literalmente,
os franceses fundaram uma república de loucos. Mataram tudo e à todos, inclusive eles mesmos, idealizadores da revolução. Talvez quisessem se livrar do jugo do senhor feudal.
Talvez quisessem ser donos deles mesmos, mas acabaram sendo apossados por uma
ordem social caótica que se a liberdade lhes foi dada,
esta se deu sem a ègalitè e fraternitè, pois Napoleões da hora surgiram e à eles se sucumbiram. Não antes de se espalhar pelo mundo.
Do outro
lado do oceano, seres com um grau de civilidade maior fundaram uma
carta de direitos e deveres que permanece quase imutável. Ali, nasceu a constituição de uma república realmente democrática. Prevalece até hoje embora com sinais de que está doente, talvez moribunda.
No interregno
da francesa, do florescer da americana aos dias de hoje a tal da anarquia deu
seus ares de vida. Se pululou com mais ou menos acertos pelos séculos XIX e XX, hoje volta assanha. Volta não menos que na França. Les Gilets Jeunes, rostos mascarados,
em atos vandalizantes protestam. À
eles juntam-se os Black Blocs e, por dentro, idiotas com
ideologias pútridas que tentam se infiltrar e se perdem no emaranhado de um
grupo sem ideologia, sem objetivo, somente a desobediência ao sistema vigente, à auto determinação, mesmo que sem sentido algum.
A democracia
cansou. Ficou velha, não excita, não responde. A bagunça global com agendas diluidoras dos
padrões culturais, do rejeito à identidade individual às fronteiras abertas, migrações desenfreadas ,desmanchou os resquícios do mundo feudal. Dilui sistematicamente o propósito democrático com investidas pelo voto que
acobertam a perda de todos os direitos. Alia-se à isto o fundamentalismo religioso que
nada mais é do que a volta ao senhor (lord) como entidade onipresente,
seja na forma de um Alah, Deus, Cristo ou qualquer outra entidade etérea. Mistura-se à isto um quê de juridiquês com togados safados cumprindo
agendas ideológicas ou os próprios ideólogos vomitando suas besteiras. Os aiatolás e falsos profetas que saltitam nesta terra.
No mais
tenebroso delinear de um futuro próximo está a divisão pseudo democrática dos globalistas fundamentada em um socialismo roto, gerador de castas burocráticas e políticas sugando o escravizado povo, mentindo e retirando seus
valores culturais autênticos pela substituição de uma nova ordem miscigenada, assexuada, transvestida e
descerebrada. Some-se à ela (ordem) a obliteração do patrimônio histórico, das origens, do orgulho e da auto determinação. Esta forma de organização, já em andamento pelo planeta afora se
contrapõe à outra, mais à direita, perigosa e poderosa forma institucional: o corporativismo democrático, uma
estrutura onde o capital geraria uma forma de dominação das massas pelo consumo, seus líderes intocáveis e vivendo um universo utópico, com o acesso desenfreado de todos por tudo premiando os
adaptáveis, aqueles que na estrutura creditícia e comportamental teriam suas vantagens e viveriam em um
mundo rico.
Mais abaixo, uma casta de párias, viciados, estragados, deletérios e revoltados que habitariam os sub-mundos das sociedades,
rejeitados, sem acesso à quaisquer bens, ausentes do crédito, divorciados das benesses e condenados à própria morte pelo simples descaso da
sociedade constituída.
Nesta última forma já se vê o controle do indivíduo pelo estado através da cibernética. Comportamento individual monitorado, reconhecimento
facial e correlação à bancos de dados comportamentais,
enfim, uma forma de controle Orwelliana
já em prática na China e não tão longe de se alastrar pelo mundo. Os
computadores quânticos facilitarão sua implementação. O indivíduo seria premiado ou rejeitado pelo seu crédito comportamental. Um mundo onde somente os amados existirão. As cidades crescerão verticalmente e seus porões serão habitados pelos que se perderam.
Verdadeiros ratos dominados pelos vícios e premiados por uma desorganização social onde se paga com a vida para viver efemeramente.
Inexoravelmente
a democracia sucumbiria. O anarquismo existiria em manifestações esdrúxulas por blocos de encapuzados sem
destino. Milionários em palácios rivalizando contrapostos políticos, profetas da desgraça à procura das mentes ainda adaptáveis ao conceito feudal.
Não vejo o futuro com bons olhos.
Vejo
sociedades decadentes, sem objetivo.
Talvez seja
a hora de partirmos para outros planetas, começar de novo, esquecer a destruição que já fizemos à nós mesmos. A premonição de Hawking está mais próxima do que achamos.
A democracia
está morrendo.
Uma nova
ordem surgirá?




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