sábado, 15 de setembro de 2018


ESTÁ TUDO TRISTE


Sou feliz…
Uma vida cheia de aventuras onde as desventuras foram poucas. Mas existiram, pois existem para qualquer um.
Sim, sou feliz.
Amei, fui amado, amo e sou amado.
Por si somente já é motivo de alegria.  Agradeço, pois estas bençãos vêm de outro mundo melhor.
Tropeços, erros, dúvidas, todos temos e cometemos. Ao as reconhecermos, melhor ficamos.
Disse a bela que falo demais. Um blá-blá-blá de interminável cadência. Mas, quando falo, e admito, falo muito, sai de mim o que está dentro, escondido, silencioso. No ruidoso falar me sinto leve, livre, pronto para em outras peripécias me meter. Às vezes escrevo.
Disse a bela que procrastino. Talvez o faça, mas não sou dono da linha do tempo, somente nela vivo, um viver interessante, cativante, estimulante.
Disse ela que quer viver intensamente. A intensidade não é a melhor forma de moldar o destino, se e que ele é moldável. Um pouco de paz, ouvidos atentos em um mundo rouco, quiçá mouco, que fica dolente quando a gente deixa. Que fica quente, queima, mata e arrebata, quando se precipita.
Meu irmão, de olhos azuis de meu pai, ficou enfermo. Sua brilhante mente afetada por um misterioso tumor. Frases desconexas, incompletas, cálculos faltantes de um cérebro matematicamente perfeito. As mãos dos médicos ávidas e assanhas já querem fazer suas intervenções. Mas dizem meus parentes espiritualizados…não antes de fazê-lo com aqueles do outro mundo.
Ahh…médicos, seres que se acham meio deuses…que suas mãos sejam guiadas pelos iluminados…
Minha mãe, com seus 97, mostra sua indestrutível longevidade. O coração já pediu pausa. Pulula erraticamente. Em vez de ficar no compasso de espera, vamos marcar-passo. E para lá vai ela, ficando mais robótica neste mundo do amanhã. Acho que todos nós, os seis que restam, irão embora e ela, ficará para semente.
Nas encostas das montanhas as cinzas de uma bela moça serão dispersas. Sua viagem foi curta. Longa é a saudade deixada.
A noite desceu escura, nebulosa. No caminho da amada nem a estrada se via. Uma chuva marcava o vidro de meu carro com desenhos surrealistas. Seria este o caminho do umbral?
O dia amanheceu enevoado. Cinza, triste e pálido. As gotas do espaço ainda caiam. No seu precipitar molhavam gentilmente os rostos dos aventureiros. Mas, no triste tom de cinza de nuvens abraçantes, me perdi, pois uma tristeza infinda de mim se apossou. Vi num relance, num piscar de olhos lentos, o fim da estrada. Não sei se lá haverá luz. Posso não merecê-la, mas, esperançoso, otimista que sou a vejo mais distante. Sei que não tão distante ela está.
Ohh…por que achamos que somos perpétuos? Miseráveis criaturas que habitam um mundo belo, que, em sua suprema arrogância se arvoram em algo superior. Não somos nada, e neste nada…
Procrastinarei.
Afinal, minha bela amada pode estar com a razão.

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