quinta-feira, 26 de julho de 2018


O ÚLTIMO MARCIANO

Devido à recente descoberta de água no subsolo marciano estou publicando novamente o conto abaixo. Afinal, não é toda hora que ficção vira verdade!

O ÚLTIMO MARCIANO
Dedicado à minha colega e arquiteta Elane Frossard, alma inquisitiva, sempre à procura do impossível

2035…
O projeto de colonização de Marte entrava em seu momento mais importante. A missão internacional, tripulada, desceria em sua superfície às 21:33, Houston time.
Seis intrépidos cosmonautas. O sonho do homem, como espécie, se transformava em realidade. De criaturas da Terra, à partir daquele momento, transformados em uma civilização multi-planetária.
Romance, ficção, heroísmo, um sonho que era agora real, de fato. Um sonho recheado de mistério, de aventura e certamente de fatalidades.
A trajetória descendente da nave não foi como desenhado. Os retrofoguetes necessários para diminuir a velocidade demoraram uma fração de segundo para sua ignição. Sem eles a nave desceria depressa demais, a atmosfera marciana de menor densidade não ajudava na frenagem. O impacto foi destrutivo.

A nave desceu inclinada e deitou-se no solo marciano em vez de se posicionar verticalmente. Dois cosmonautas pereceram no impacto.
Ao longo dos três anos que antecederam o pouso o comando central na Terra havia enviado diversas naves não tripuladas, deixando no solo marciano o equipamento necessário para o estabelecimento de uma colônia, que eventualmente seria auto-sustentável. Estava tudo lá, um pouco distante do local do pouso, cerca de 12 km, mas não tão longe que inviabilizasse o projeto. Estavam todos no Marte Vallis, na Elysium Planitia, uma região onde a NASA havia detectado a existência de canais subterrâneos.
Isto porque a vida, na superfície seria extremamente difícil. A radiação intensa, os ventos solares e as tempestades violentas de areia dificultariam a presença do ser humano. Temperaturas sub zero, podendo atingir a menos 80 graus centígrados dificultariam ainda mais o que já seria mais difícil de ser habitado do que a Antártida.
Os quatro sobreviventes iniciaram o translado do material recuperado da nave mãe e utilizando-se de um rover especialmente projetado para se locomover em terreno irregular. Após quatro horas de viagem chegaram ao local onde o equipamento deixado pelas naves de carga se encontrava.

O estado era bom, não poderia ser melhor. Após minuciosa avaliação, partiram para a instalação dos módulos e acoplamento com os painéis solares, geradores nucleares, bolhas articuladas e infláveis, feitas de plastico leve, extremamente resistente, translúcido e capaz de reduzir os raios solares. Um escudo de força foi instalado. Cobria todo o acampamento, reduzia radiação mas não impedia as tempestades de areia.
O local escolhido, Marte Vallis, ficava em uma planície cujo subsolo era rico em canais formados por chaminés vulcânicas e rios que outrora existiam no lugar. Era imperativo descobrir gelo. Estudos iniciais indicavam a presença de oxigênio e hidrogênio no lugar.
As medidas, embora fracas, davam a esperança que ali, debaixo do vale, existisse gelo em quantidade capaz de permitir a implantação de uma colônia exploratória.
Três semanas se passaram. De início uma dificuldade enorme nos movimentos. O corpo, já debilitado pela longa viagem espacial não se ajustava com a velocidade esperada pelos técnicos na Terra. Aos poucos a colônia tomava forma e os cosmonautas se arriscavam em pequenas incursões na direção do grande buraco que se via no seu lado sul.
Após um ano esperavam pela nave de suprimentos necessária à continuidade da missão. Nada havia sido encontrado até então. Nada que permitisse a alimentação com algo produzido naquele lugar. Os experimentos em botânica fracassaram. O solo necessitava de corretivos mais complexos e os raios solares, embora filtrados não forneciam a fotossíntese à níveis necessários para germinação completa dos espécimens. Precisavam de mudanças genéticas para adaptar as sementes ao clima marciano e isto iria tomar mais tempo do que esperavam.
A nave programada não chegou. Havia sido destruída por um asteroide em sua viagem ao planeta vermelho. Isto havia acontecido perto de Marte o que atrasaria o envio de outra para substitui-la.
Racionamento virou a palavra de ordem. Contavam-se e re-contavam-se os dias para saber se teriam comida suficiente até a chegada do outro cargueiro.
Não existia outra alternativa senão arriscar a exploração da chaminé vulcânica. Se encontrada água ou gelo no fundo do labirinto de canais, teriam pelo menos o líquido necessário à sobrevivência e produção de oxigênio. Com os alimentos havia ainda um pouco de latitude com relação à sua duração.
A primeira descida usou cerca de 340 metros de cabo. Uma plataforma se ligava a três outros tubos inclinados e descendentes. Até aquele ponto nada. Nenhum sinal de gelo, nenhum sinal de vida microscópica entranhada nas rochas do fundo ou nas paredes negras pelas lavas vulcânicas que ali passaram.
Estabeleceram uma segunda base para irem adiante. Escolheram o tubo que seguia para o sul. Era maior e mostrava sinais de que água, em tempos idos, havia circulado caminho abaixo.
Depois de outros 400 metros chegaram a uma grande sala. A temperatura do lugar havia subido uns 10 graus. O ambiente se situava em torno de menos 20 graus centígrados. Bem mais suportável. Seguiram em frente pelo único túnel que se apresentava grande o suficiente para passar. Desceram por mais 200 metros, uma descida difícil, em solo deslizante, areia e fina argila. Parecia levemente úmida, com certa pastosidade. Acharam estranho mas se entusiasmaram. Definitivamente água havia rolado pelo tubo em outras eras.

À medida em que desciam subia a temperatura a ponto de ficar acima de zero. Mais surpresos ficaram quando depararam com uma enorme caverna iluminada por incrustações fosforescentes. A luz esverdeada se espalhava pelo salão. Este, enorme, com mais de dez metros de altura tinha dimensões equivalentes às de um teatro de três mil lugares. Era lindo…
A luz não era fixa, bruxuleava.
Ouviram água à borbulhar. Os níveis de oxigênio eram altos, perfeitamente adequados ao ser humano. A pequena piscina de água cristalina entrava por debaixo de uma parede de rocha negra, moldada pelo corrimento de lava em tempos idos. A água era limpa e potável.
Ao fundo, no encontro da abóbada com o piso, gelo em abundância. Cobria uma fenda que descia, numa queda sem fim, com seus dois metros de largura. Esta fenda circundava o grande páteo. Ali era gelado, sub-zero, mas há poucos metros adiante, a temperatura subia, controlada pelos vapores da piscina que se ligava provavelmente à uma câmara vulcânica com algum grau de atividade, do outro lado do salão.

O local era tão agradável que lhes permitiu tirar as vestimentas espaciais.
Na piscina mergulharam e ali pensaram em ficar para sempre. Por uma inexplicável razão se sentiam felizes, realizados. Algo lhes fazia sonhar. As cabeças à pensar em velocidade quântica. Visões de outros mundos, visões da Terra, visões de amores e amadas. Enquanto imersos na água imagens holográficas de uma resolução tão real que eram apalpáveis. Pensaram, por um momento, que haviam morrido. Pensaram estar recebendo a recompensa dos deuses do Olimpo, que viviam em Roma, que viviam em templos chineses, em pirâmides maias.
Mas, quando saiam daquelas águas tudo voltava ao normal. Somente a luz dançante, no seu verde exótico lhes dizia que ali ainda estavam.
Lenta, mas inexoravelmente, mudaram tudo da superfície para aquele lugar. Batizaram-no de Elysium Pédion. Campos elísios, local da felicidade eterna, governado por Hades, senhor do mundo inferior, filho de Cronos e Reia, irmão de Zeus. Como Hades também comandava o inferno, deram à superfície marciana o nome de Tártaro, o mundo do eterno sofrimento.
Ali eram felizes, os quatro, dois homens e duas mulheres.
Por um momento se esqueceram da segunda nave. O alimento se acabava…
Esta, para infortúnio de todos, destruiu-se na re-entrada. Nada pode ser salvo. Explodiu, e com ela todas as esperanças de sobrevivência.

Voltaram às entranhas de Marte, à Elysium, para seus últimos momentos. Despiram-se. Nas águas de Marte se banharam. Nas águas de Marte mergulharam e no mergulho viveram a mais intensa experiência de seres humanos. Os hologramas se multiplicavam, as cores se intensificavam, os flashes de luz verde bailavam em mudanças de matizes, em uma dança de luzes etéreas.

Amaram-se os quatro. Numa intensidade nunca vista, amaram-se como se fossem os últimos, como se fossem únicos. Fundiram-se em corpos moldados em forma ímpar, em orgasmos infindos. Na loucura do momento, na insanidade de suas mentes, se sentiram um só, e ao assim sentirem, notaram que não mais estavam sós.

Havia, naquele lugar, naquelas águas, naquele verde fantasmagórico um pequeno ser, pequeno, tão, pequeno, que havia passado desapercebido por todos. Era uma criaturinha linda, peluda, macia, de olhos doces. De olhos de amor.
Pois destes olhos o amor irradiava, desse ser mensagens telepáticas de uma doçura incomparável. Não havia como não se apaixonar à primeira vista. Era algo tão sublime que, naquele momento, pensaram estar no paraíso. Seria um anjo que cuidou deles desde o primeiro dia, quando descobriram a piscina?
De onde veio? Estava lá? Era de Marte?
Lentamente a criatura lhes revelou sua origem. Lá estava, já fazia centenas de anos, talvez milhares, não se lembrava mais de quando ali apareceu. Vivia só. Vivia a sonhar com o universo. Com sua imensa sabedoria projetava o que via e sentia em hologramas tão vivos que pareciam reais. Ali vivia, nas entranhas de Marte, num mundo quântico, o último sobrevivente daquele planeta.
O último marciano…
Sobrevivia alimentando-se dos esporos fosforescentes. Aquela matéria verde era um nutriente único, completo. Supria todas as necessidades energéticas de qualquer ser orgânico. Trazia com ele um componente inter dimensional capaz de fazer a matéria se desdobrar em viagens através dos universos, através dos tempos. Intensificava o poder quântico do DNA de qualquer ser.

Ao se alimentarem das incrustacoes verdes os cosmonautas se sentiram imbuídos de um amor que nunca haviam experimentado. Sua fome saciada, suas deficiências curadas, seus corpos eternamente jovens. Haviam encontrado o paraíso, a vida eterna…Haviam encontrado a sabedoria dos deuses…
Na Terra, após o fracasso das naves de reabastecimento, políticos deram como perdidas as vidas dos cosmonautas. No agir normal dos involuídos terráqueos, inocentes foram culpados e culpados foram exaltados.
O programa de colonização de Marte foi encerrado. Os cosmonautas esquecidos, erradicados dos livros de história.
Em Elysium Pédion quatro humanos viviam em harmonia com o último marciano. Jamais pensaram em voltar, jamais sentiram saudades. Viviam felizes onde o amor era pleno, como nos campos de junco dos antigos egípcios, Sehket Aaru, em Tian, na China, nas pradarias de Manitu, no Nirvana ou no monte Olimpo.

À Hades entregaram a Terra e a superfície de Marte, Tártaro, onde o eterno sofrimento permeava…
Ao nascerem os filhos do homem em marte, chamaram-nos de Apolo e Diana. Ao último marciano, chamaram-no de Zeus.
Nunca mais morreram…De lá nunca sairam…
A Terra nunca soube que a missão havia sido um sucesso sem precedentes…

Também, para que?

Aos medíocres restava Tártaro





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