TESOURAS E ESCADAS
Grande
jornalista.
De sua pena saiam as mais encantadoras frases. De sua
boca, discursos que faziam Cícero voltar
do passado, curvando-se ao palavreado folheado à ouro.
Casou-se com uma francesa. Mulher de fino trato,
firme, como todos da terra de Asterix, o verdadeiro equilíbrio, a balança da
sensibilidade e sensatez que modelava o ilustre mestre das palavras.
Longe dela, entretanto,coisas aconteciam...nem sempre
dentro dos padrões por ela estabelecidos.
Foi assim num belo dia de maio.
O sol brilhava no céu azul. Poucas nuvens pincelavam a
abóboda anil, como num quadro de Monet. Olhava para cima, fitando o firmamento,
quando notou que sua árvore querida, que adornava seu belo jardim, havia
crescido em busca do Olimpo.
Houve por bem decapitar a sua viagem em busca da luz.
Celeremente saiu á procura de um tesourão e uma escada, daquelas de abrir, notórias
por suas qualidades de fechar sem explicar.
O tesourão necessitava de ser afiado. Como Sir
Galahad, preparando-se para salvar a bela Guienevere,
usou uma pedra para trazer sua lâmina ao fio de navalha. Para teste, ousou
retirar um dos poucos fios que adornavam sua reluzente careca e o dividiu ao
meio, longitudinalmente. Partiu-se como manteiga.
Sorriu, um sorriso maquiavélico, quase infernal. Suas
sobrancelhas dobravam em circunflexos.
Tinha amigos arquitetos e nucleares. Pensou usar do
conhecimento métrico e proporcional, por eles ensinados, para definir seu plano
de ação. Ao pé da árvore calculou: minha altura+altura da escada+tesourão
esticado=topo da árvore.
Tudo planejado...seus amigos ficariam com inveja.
Abriu a escada, subiu, tesourão na mão, em busca do
topo. Algo não estava certo. Seu cálculo não batia com a situação real. Mas era
um homem de recursos mil. Um pequeno contratempo de míseros centímetros não
impediria sua missão de ceifar o topo daquele espécime vegetal.
Ficou na ponta dos pés. Esticou-se ainda mais quando
passou a usar as os dedos, como um bailarino em cena de Romeu e Julieta. O
tesourão em riste, a ceifar, em movimentos rítmicos...tchoff, tchofff,
tchofff...
Não alcançava o topo...esticou-se mais, um pouco além...
mais ainda...
A escada de abrir, fez o que todas fazem...fechou-se.
O tesourão em voo partiu, rodopiando, ceifando, em vão...tchoff...tchoff...
Flutuou por um momento que lhe pareceu eterno. No ar,
parado, via o tesourão na sua dança insana, procurando algo para cortar. Asas
de borboletas eram ceifadas, o beija flor que se deliciava no mel das azaleias
fugiu como uma flexa, apavorado. Passarinhos desesperados partiam em fuga pelos
ares.O tchoff, tchoff contínuo os amedrontava.
Descobriu que Einstein estava certo. O tempo é
relativo. Para ele o flutuar passava em momentos tão lentos quanto os dos
ponteiros de segundos em uma torre de igreja. Sua viagem, dentro dos conformes
de Newton, já havia iniciado. O tesourão à rodar, como um helicóptero de
fabricação russa, pilotado pelo Arnold Swarzeneger.
Nesta viagem, de costas, com a relva macia a esperá-lo,
teve tempo para pensar em tudo. Na sua bela francesa, nos momentos de amor
sublime, no cantar dos pássaros, no ritmo ensurdecedor do tesourão, rondando
sua brilhante cabeça. O tempo era lento, o destino, entretanto, já estava traçado.
Aterrizou.
Um baque de costas, um repousar no cóxis, um tesourão
adentrando o gramado, à cinco centímetros de suas partes preciosas, um silêncio
sepulcral.
Não mexia. Não falava. Não piscava.
Teria ficado paraplégico? Ou talvez tetraplégico?
Ah... meu Deus, e se ficou hexaplégico? Decaplégico?..
Apavourou-se...
Lembrou-se do dizer do amigo arquiteto: “se você
morrer e souber que está morto, então você está vivo.”
Lentamente tentou mexer um dedo, depois outro e assim
por diante...Estava vivo, inteiro e até mais leve. Levantou-se como uma mola em
plena expansão.Era indestrutível...
No processo notou que sua dor na coluna havia
desaparecido. Estava novo, em folha.
Descobrira um novo tratamento...
Iria patenteá-lo. Evitaria o uso do tesourão. Afinal,
quando cai, passa muito perto das partes interessantes. Um verdadeiro perigo...


Mucho loco 😜
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