sexta-feira, 29 de junho de 2018


MENSAGEM NAS CINZAS
Miriam Rodrigues Gilberti
2-5-1946
23-1-2016

Era linda. Um sorriso infindo, um olhar meigo e um jeito doce. Um abraço que ninguém esquecia.
Foi-se há dois anos e meio.
Deixou saudades, lágrimas, corações machucados pela sua ausência. Mas teve que ir…era a sua hora.
Não se parte sem um pouco de sofrimento, não se deixa sem um choro triste… mudo.
Da bela mulher restava somente um punhado de cinzas em uma caixa, etiqueta no fundo.
Dois anos e meio…
Presa na caixa, uma vela ao lado, sempre acesa. O token para o outro lado. A luz que a deixaria cruzar o rio Styx.
Mas lá a deixei por demais.
Dois anos e meio…
No alto das montanhas que tanto amava foi dispersa. Assim o queria. Assim foi feito.
Se prova queria que existe uma outra vida, esta a tive. Pois no dispersar, as cinzas desceram ao fundo do vale e subiram…
Subiram como estrelas cintilantes. Subiram bailando alegres, livres, soltas, numa dança etérea, fantasmagórica.
Um desenhar de espectros felizes, poeira mágica, mágica no ar.
Juraria que a vi. Não como era, mas uma forma deliciosa, divina, angelical. E a forma em retrato ficou…
Mas se isso não fosse a prova que queria me dar que lá estava, deixou outra, mais cabal, mais fática, mais contundente.
Pois ao ali chegar notei as pedras limpas, o vento leve, o dia em cinzas azulados.
No preparo para render-lhe minhas últimas homenagens o fiz, primeiro com as cinzas de Max Mínimus e Eddie, seus cãezinhos adorados. Depois seguiu-se a dispersão feita pelo meu segundo filho, momento no qual a dança dos espíritos se iniciou. Ao término, uma cruz com seus restos em pó…cuidadosamente desenhada na pedra.
Olhei para o mais velho, disse-me que não a havia feito. Nem minha netinha que jogava pétalas de margaridas ao ar. Eu e o segundo não a fizemos, muito menos minha nora, que empunhava o celular registrando o momento.
Mas a cruz estava lá.
Senti-me abençoado. Senti-a livre, alegre e gentil como sempre foi.
Deixou-me vê-la, pela última vez, em sua nova forma. Deixou-me entender que ela existia e que há vida, no outro lado…
Deixou o sinal da cruz, da ressurreição, da verdade, do amor, do carinho…da redenção.
Deixou tudo, registrado em fotos.
Prendi-a por dois anos e meio.
Perdoe-me querida, por tê-lo feito…
Se quiseres me indicar as portas do mundo de Hades para pagar pelo que lhe fiz, lá irei, sem reclamar.
Obrigado pela linda mensagem.
Mesmo sem merecê-la…
Obrigado por ter me deixado amá-la.
Ashes in form of  a cross

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