quarta-feira, 9 de maio de 2018


AS GAVETAS DO CAIXÃO

(um conto no estilo de Poe)

Um era rico e o outro pobre.

O primeiro era filho de um banqueiro. Nasceu em berço de ouro, pai sovina, como todos os banqueiros. Desde cedo aprendeu a economizar. Guardava cada centavo ganho ou achado.

Com o pai aprendeu que dinheiro depositado no banco não é do depositário, pertence ao banco. Por módicas??  taxas, o banco se apossa de tudo, no final. Melhorou a performance do pai, mais ainda quando se tornou seu sucessor.

Ficou rico. Muito rico. Era mais sovina, avaro, pão duro mesmo. Um terror de banqueiro. Emprestava aos que não necessitavam, tomava tudo dos que precisavam. Sucesso garantido.

Quando morreu, achou que deveria levar umas notas de cem com ele. Poderia precisar, lá no além. Mandou fazer umas gavetas em seu caixão. Guardou nelas uma boa quantidade de grana.

Morreu, foi enterrado, botaram lápide com inscrição e tudo. Ninguém nunca foi visitá-lo. Só um cachorrinho que ali passava e cismava de fazer um xixizinho de lembrança.

Os anos se passaram e o cemitério ficou velho, mal cuidado, abandonado. Às noites pensava-se ouvir lamentos, uivos, gritos horripilantes. O fogo fátuo dava ao lugar um aspeto lúgubre. Parecia que almas penadas se levantavam aos céus escuros. Ninguém as queria.


O segundo era um pilantra. Político, nascido de berço pobre mas cheio de ideias safadas. Roubava tudo e roubava bem. Era populista. Não gostava de bancos. Achava bom roubá-los, tinha uma quadrilha bem montada e financiada com dinheiro do partido. Era para engordar os cofres.

Meio tarado, gostava de sexo no cemitério. Passava as raparigas no beiço em cima de lápides, dentro de mausoléus. Fumava uns baseados e dizia ver o além. Uma peça de sujeito.


Havia cruzado com o outro em vida. Pedira doações de campanha. O outro não deu, era sovina. Por isso, pregava o fim dos bancos. Cadeia neles, dizia.

Por acaso viu o cachorrinho no seu afazer diário. Ficou curioso, por que o bichinho só fazia xixi ali, naquela lápide? Passou a observar mais de perto. Leu as inscrições: “Aqui jaz um grande banqueiro, morreu solteiro.” Ficou mais curioso ainda...maquinou algo inimaginável...

Um dia, havia tomado umas lá no bar da vizinhança. Fumou dois baseados, pegou uma pá e se mandou para o cemitério.

A noite era escura. Ventava, um vento frio, daqueles que entra pelas costelas. Não tinha lua. Noite perfeita para o que queria. Pôs-se à cavar. Abriu a sepultura, achou o caixão, destampou, deparou-se com um esqueleto horroroso. Desinteressou-se. Ia fechando o dito quando notou que o caixão tinha gavetas.

Abriu-as e viu notas de cem, meio manchadas, mas ainda em condição de agradar à muitos. Tirou um bom tanto, mas não tudo. Fechou  cuidadosamente e se mandou.

Estava feliz, tinha dinheiro para campanha, era certo que se re-elegeria. Distribuiu cem à torto e à direito. Comprou votos “a la gordaça”. O dinheiro logo acabou...

Voltou ao cemitério, afinal aquele banqueiro safado ia dar à ele a contribuição de campanha que havia pedido. Que beleza! Tomar dinheiro assim, nem de criancinha comprando picolé. Abriu o buraco, o caixão, a gaveta e notou algo estranho. Tinha mais dinheiro lá dentro do que quando havia tirado antes.

“Ah!  pensou...devo estar enganado. Vou tirar um tanto, deixo outro para depois. Não acredito em milagres...”

E assim o fez. Fechou tudo direitinho, voltou para o bar, tomou um outro parati, fumou mais dois e foi para casa. No dia seguinte, lá estava ele dando notas de cem em troca de votos garantidos. Não poderia estar mais alegre. Mas o dinheiro acabou, de novo.

“Olha, acabou, mas tem mais lá...volto à noite e pego o resto...”

Dizem que em boca fechada não entra mosquito. Dizem também que em “vino veritas”. Pois assim foi ao bar, tomou um monte de paratis, uns torpedos, dois petardos, lavou a serpentina com cerveja e fumou mais dois baseados. A língua ficou solta...

Aos amigos contou que havia um banqueiro que o ajudava. Perguntado quem era disse “ o fulano de tal”...mas este havia morrido, ponderou um dos bêbados do local.

“E daí? Quem disse que defunto não paga?”  E em palavras confusas pelo álcool contou parte da história. Omitiu de onde saia o dinheiro, mas disse que tinha a haver com o cemitério. Largou o bar, os amigos e para lá se foi.

Tendo partido, alguns dos mais afoitos, sentindo cheiro de grana, sugeriram segui-lo. Uma posse se formou. O álcool em estado alto comandava as mentes. Bacco era rei, uma marcha se iniciou.

De início eram cautelosos e silenciosos. Espreitavam atrás de mausoléus.

A noite era horrível. Chovia, raios iluminavam árvores gerando sombras de aspeto monstruoso. Os cães latiam, um latido apavorante e lamentoso. A turba permanecia ao longe, observando o amigo à cavar a sepultura do banqueiro. Molhados, esperavam ansiosos. O que aconteceria?

Novamente abriu o caixão. À estas alturas não mais respeitava o esqueleto do banqueiro, havia jogado o mesmo para fora, chutou os ossos em desdém. Abriu a gaveta...tinha mais dinheiro ainda. Louco, jogava ao ar notas de cem molhadas que eram levadas pelo vento açoitante. Quanto mais tirava, mais apareciam outras notas. E ele, as jogava mais ainda, ao ar.

Na dança frenética, entre raios, trovões, uivos e o cantar dos ventos o dinheiro do banqueiro se espalhou pelo cemitério. A turba não se conteve. Saindo de trás dos mausoléus seus seguidores avançaram. Queriam todas as notas, queriam tudo...lutavam entre si...e lutavam com uma ferocidade jamais vista.

Aos poucos surgiram estranhas armas. Primeiro pás e paus, depois umas facas e canivetes e aí, o pau comeu. Até os clarões de tiros se fizeram ver. Os adeptos de Bacco estavam enlouquecidos. Um a um foram caindo, mortos, estropiados, massacrados. Só sobrou ele, a causa de tudo. Mas foi por pouco tempo...

Ainda com uma garrafa de Jack Daniels na mão olhou para a cena campal. Tomou o resto, levantou a pá e se julgou invencível.

Um raio de proporções jamais vistas o atingiu. Preto como um carvão caiu dentro do caixão, a tampa se fechou, logo depois. O silêncio se fez. Ouvia-se somente o cascatear do cachorrinho fazendo xixi sobre o esquife. A caveira do banqueiro, com seus dentes alvos, parecia rir da cena dantesca. A manhã se aproximava.


Ao lado do cemitério abandonado havia uma pequena capela de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis. O vigário, com lágrimas nos olhos, havia acabado de rezar. Pedia ao Santo ajuda para terminar as obras da capela. Pedia que lhe concedesse a graça de poder ajudar aos pobres do lugar. Deixando a capela, saiu para sua caminhada matinal, pela estrada ao lado do cemitério.

No alto, perto de uma vala descobriu uma pilha de dinheiro. Teria o santo respondido às suas preces? Aceleradamente colocou a enorme quantia nos bolsos mais fundos de sua batina. Agradecia comoventemente ao Santo, rezava ladainhas, cantava cânticos de fé.

O vento da noite havia soprado todas as notas de cem que se ajuntaram ao lado da vala.

No cemitério só o silêncio. Também já fazia anos que ninguém ia lá. Não haviam motivos para visitar o tal lugar.

O fato é que o povoado se tornou um lugar santo. Não faltava dinheiro. O bar havia fechado, seus clientes desapareceram. O político sumiu. Não se reportavam casos de desvios do dinheiro público. Não havia banqueiro algum.  A capela foi restaurada e os fiéis faziam fila para obter as bençãos do generoso padre e também ganhar uns cobres, é claro.

O cachorrinho era o único que não havia mudado seus hábitos. Fazia seu xixizinho tradicional, duas vezes ao dia, na mesma cova.




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