O POLÍTICO
Gritava…
Um grito horrível, mudo.
Ali
onde estava, ninguém ouvia, ninguém ligava. Mas gritou…
Contorceu-se,
rastejou. Já havia rastejado antes, de onde veio, de onde cresceu.
Não
queria fazê-lo, de novo, mas fê-lo. E gritou…ninguém ouviu.
Por um
momento pareceu que via sua vida desenrolar-se à sua frente.
Um
palanque, voz tonitruante, verve frouxa. Um barítono, talvez?
Era
pastor? Por que as ovelhas não prestavam atenção?
Um púlpito,
sectários e sicários. Estes ouviam, mas parecia um passado. Passado que
reconhecia, vozes que ouvira, palavras que falou…para moucos ouvidos.
Surdos
eram, talvez mudos como se sentia agora. Certamente cegos.
Por
isso gritou de novo. Um grito surdo, um lamento, um uivo de cães na noite
vazia. A lua era cheia, pedia o choro, o canto triste, ululante, desesperante,
desfalecente. Mas gritou.
E
ninguém ouviu…
Por
que não olham para mim? Onde estão as multidões?
Prometi prometer, queria
querer, fazer o que não farei, nem fiz, nem faria, nem quero. Jamais quereria.
Pois sei o que sou…um político.
Um político…
Minto
e quero mentir, Grito palavras ao vento. Espero ouvidos que ouçam, pois se
ouvem, votarão em mim…
Oh…imbecís
criaturas. Ouçam minha voz, escutem o meu grito.
Por vós grito, falo, berro.
Por vós, minha boquirrota voz ressona, reverbera as mentiras que fiz e que
sempre farei.
Mas
por que não ouvem?
Por
que sinto um mundo surdo? Um mundo cego, um mundo roto, vermelho, em chamas…
Ah…
Não
pode ser…
Não, não, é
injusto…
Estou
no inferno.
Por
favor me ouçam…aqui não pertenço!
Sou
imaculado, ilibado, probo…
Sou um
político…
Por
favor, ouçam meus gritos…
Por
favor…por favor…por
favor…


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