quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O POLÍTICO


 Gritava…

Um grito horrível, mudo.

Ali onde estava, ninguém ouvia, ninguém ligava. Mas gritou…

Contorceu-se, rastejou. Já havia rastejado antes, de onde veio, de onde cresceu.

Não queria fazê-lo, de novo, mas fê-lo. E gritou…ninguém ouviu.

Por um momento pareceu que via sua vida desenrolar-se à sua frente.

Um palanque, voz tonitruante, verve frouxa. Um barítono, talvez?

Era pastor? Por que as ovelhas não prestavam atenção?

Um púlpito, sectários e sicários. Estes ouviam, mas parecia um passado. Passado que reconhecia, vozes que ouvira, palavras que falou…para moucos ouvidos.

Surdos eram, talvez mudos como se sentia agora. Certamente cegos.

Por isso gritou de novo. Um grito surdo, um lamento, um uivo de cães na noite vazia. A lua era cheia, pedia o choro, o canto triste, ululante, desesperante, desfalecente. Mas gritou.

E ninguém ouviu…

Por que não olham para mim? Onde estão as multidões? 

Prometi prometer, queria querer, fazer o que não farei, nem fiz, nem faria, nem quero. Jamais quereria. Pois sei o que sou…um político.

Um político…

Minto e quero mentir, Grito palavras ao vento. Espero ouvidos que ouçam, pois se ouvem, votarão em mim…

Oh…imbecís criaturas. Ouçam minha voz, escutem o meu grito. 

Por vós grito, falo, berro. Por vós, minha boquirrota voz ressona, reverbera as mentiras que fiz e que sempre farei.

Mas por que não ouvem?

Por que sinto um mundo surdo? Um mundo cego, um mundo roto, vermelho, em chamas…

Ah…

Não pode ser…


Não, não,  é injusto…

Estou no inferno.

Por favor me ouçam…aqui não pertenço!

Sou imaculado, ilibado, probo…

Sou um político…

Por favor, ouçam meus gritos…


Por favor…por favorpor favor

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