SOMBRA
Vivia à meu lado.
Onde ia lá estava ela. Às vezes espremida no ângulo
da luz, às vezes alongada, assanhada, esticada.
Mas sempre esteve comigo.
É bem verdade que à noite costumava fugir. Com
saudades procurava por ela.
Voltava quando acendia um fósforo, uma vela, uma
lanterna.
Mas à noite ela acha sua cor, e nela some,
desaparece, esquece de mim.
De dia, vem alegre, contorna tudo, dança uma dança
de sombras, dança um brinquedo com a luz que teima dela tirar sua forma, sua
alegria de viver.
Sim, porque sombras são alegres, bailantes,
tremulantes. São formas irresponsáveis, caricatas de um outro você. Não querem
ser somente sua forma. Querem lhe dar o farfalhar dos movimentos, o bailar de
formas sem forma, de forma alguma, de alguma forma…
Mas sombras se vão. Desaparecem no escuro, Somem
no anoitecer. Fogem, se escondem,ficam tímidas, não me querem mais.
Mas se sou eu que te projeto, que de mim sais, por
que não ficais comigo?
Tens ciúme da luz, mas sem ela não existirias,
como não existirias sem mim.
Volte sombra, volte à luz do luar, assim não fugirás
quando a noite chegar…


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