LOFRAKS
(palavras para um pai que se foi)
Escrito no ano passado. Repito e o farei enquanto vivo, uma homenagem
perpétua.
Nome carinhoso que lhe demos. Nosso pai, que já se foi era uma figura
diferente. Seu sorriso era constante. Simpático, quase folclórico, fazia coisas
que não dava para explicar, como no dia em que bebeu um copo de pasta de
pimenta achando que era suco de tomate.
Contava a história como se fosse a coisa mais natural. Era simplesmente
delicioso de se ouvir.
Agora silente, faz uma falta enorme. Não mais o encontramos na rua, em
frente ao prédio onde morava, esperando para um de nós chegar. Não tinha paciência
para esperar no apartamento. Descia e nos aguardava. Assim achava que não nos
faria esperar, mas queria mesmo era nos ver de novo, o mais rápido possível.
Quando se foi, há treze anos atrás, não tinha mais nada... Um armário
com uma muda de roupa, uma parede cheia de fotos da família, sua maior
preciosidade. Deixou somente a lembrança em nossas mentes, os retratos perdidos
em álbuns, alguns tapes que havia feito, das saladas musicais que produzia.
Gostava do som das óperas, nas suas melhores árias. Tito Schipa, Beniamino Gigli,
Caruso. Tinha até uns 78 quebrados com fragmentos da Morte de Casério, um trecho da Sinfonia Italiana. Gostava de Sinatra e Silvio Caldas.
Sua ária favorita era Una Furtiva Lágrima.
Se divertia com canções napolitanas, tarantellas e outras do gênero.
Tenho uma foto dêle, com menos de 30, ao lado de um biplano. Acho que
seu sonho era ser aviador, mas quaisquer que tenham sido estes sonhos, ao produzir sete filhos deve ter ficado
impossível... Então passou a sonhar conosco, e se realizava com nosso sucesso.
Sempre quiz a família unida e isso conseguiu com maestria. Não somente
os irmãos mas também os primos, sobrinhos e todos aqueles que a nós se
agregaram. Até nossas sogras eram bem tratadas.
Se fosse escrever sobre tudo que fez me perderia em laudas incontáveis,
por isso escolhi somente uns poucos momentos para, nos dias dos pais, dizer que
não o esqueci. E, não o esqueceremos jamais, eu e meus irmãos.
Quando lhe demos o apelido carinhoso de Lofraks o pintamos como um
artista hollywoodiano com óculos cor-de-rosa, pois era deste jeito que via o
mundo.
Quando se foi descobrimos que em sua vida havia uns mistérios que nunca
nos contou. Ajudava a todos os primos e sobrinhos que passavam por necessidades
levando a mercearia, ajudando nas compras. Era como uma alma do bem que surgia
nas horas mais difíceis. Minha mãe não
sabia que ao fazê-lo nos deixava com menos. E este foi um menos que nos fez
mais, pois mesmo que nunca cheguemos a ser como ele somos mais generosos uns
com os outros. Nos gostamos, nos amamos.
Sei que você não volta mais, mas sei também que você está muito bem. Só
nos resta esperar encontrá-lo de novo, do outro lado. E, quando acontecer, lhe
direi:
Te amo meu pai.
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