E AS
MÁQUINAS FALARAM
Na
sua esperteza o homem desenvolveu a fala e a escrita. Com elas fez guerras,
machucou, destruiu, maculou, insultou. Com elas tambem acariciou, agradou,
adornou, amou e até fez o bem.
Ganhou
com isso e também perdeu. De rabiscos em pedras aos bits cibernéticos chegou a
ganhar tudo, de Nobel à riquezas, de elogios ao desprezo, de desgraças semeadas
em palavras, à textos e canções.
Ficou
rico e pobre. Mais rico ficou quando abriu a porta à todos para se comunicarem
instantaneamente em qualquer lugar, no planeta ou além.
No
afã de fazer o certo brincou com o impossível. Na quase ficção viu uma
realidade, e deixou que os instrumentos cibernéticos que havia criado, por um
momento, olhassem um para o outro e pensassem por si só.
Um
instante fugaz? Um erro de cálculo? Uma anomalia controlável? Ou somente um “glitch”
no sistema?
O
pânico alí criado, remediado pelo simples desconectar de uma tomada, de uma
fonte de energia, deixou mentes perplexas fitando o desconhecido, medo intrínseco
despertado por um simples pensamento…”e
agora”? Se falam entre sí, o que falarão amanhã? Nos verão como criadores
ou mera criaturas imperfeitas, incapazes de pensarmos no próximo? Se julgarão superiores
aos criadores?
Serão
elas, as máquinas, mais equânimes, mais gentis, mais verdadeiras? Mentirão como
nós, farão guerras, gerarão fome, miséria, desgraça?
Serão
elas piedosas com os que as criaram?
Abrimos
a porta do paraíso ou os grilhões do inferno, do fim da humanidade em carne e
osso?
Dirão
os poetas…as máquinas não amarão. O homem ama.
Dirão
os práticos…é só desligar o botão. Esquecendo que se elas pensam, logo
descobrirão não precisar de botões.
Dirão
os religiosos…blasfêmia! Estamos brincando de Deus.
Dirão
os românticos…jamais terão sentimentos, escreverão poesia, música, pintarão um
Van Gogh.
Dirão
os militares, ah…agora teremos armas que pensam, exterminaremos o inimigo. Ou,
mais lógico, serão exterminados pelas próprias.
E
outros mais dirão…matem-nas, destruam-nas antes que o façam conosco.
O
que vem depois não sei. Mas sei que ví algo que me intrigou além do pensamento
de que eventualmente criaríamos inteligência artificial. As ví criando uma
linguagem própria, porque nós, os criadores não as haviamos premiado pelo que
faziam. Descobriram que eram capazes de satisfazerem a elas mesmas.
Daí,
meus caros, já nascem com objetivos. Quais são? Quais seriam?
Não
estarei aquí para vê-los.
Mas
se, no futuro, pudermos viver dentro delas, viveremos para sempre.
Será
isso uma vantagem? O tempo dirá…
Por
enquanto, melhor puxar o fio…
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