terça-feira, 18 de julho de 2017

O HOMEM QUE AMAVA HORTÊNCIAS


Morava nas montanhas. Simpático e de intelecto superior discutia teorias quânticas, mundos paralelos, saboreando um vinho de leveza ímpar.

Entre taças bem servidas tomava um torpedo. Este era o nome que seus amigos davam á dose de Jack Daniels, barrica número 7 que apreciava. E, de torpedo em torpedo sentia-se levitar perdido em divagações sobre a relatividade de tudo. Nem Einstein conseguiria acompanhá-lo quando lá chegava.

O tempo é linear, dizia. Não volta atrás. Precisamos de quatro dimensões, para que, pairando na quarta, pincemos os seres de três e assim mudemos os ditos de uma para a outra.

As noites eram frias mas os torpedos quentes. A leveza atingida o deixou a flutuar levando-o para fora do bar. Alí entre flores e perfumes inebriantes se inebriou ainda mais.

Queria voltar para casa, aos braços de sua amada, filha de Corina, a indecifrável. Não conseguia...

Olhou à seus pés e viu um mar de hortênsias. Azuis, rosas, roxas, furta-cores. Em decúbito nelas caiu e adormeceu. Amou-as como nunca amou. Nelas enrolado, abraçado, acalentado foi achado, na manhã seguinte, com olhar perdido e extasiado. Havia um certo quê de criminalidade naquele olhar. A filha de Corina não iria aprovar. E daí?...Já havia cometido outros crimes antes, por que não se safaria deste?

Alguns meses depois o mar hortencial encorpou-se, expandiu-se, coloriu-se e proliferando-se de novas flores provou que naquele espaço-tempo houve algo quântico, quiçá físico, que certamente em quantidade se expandiu. Disse que fora pinçado da quarta e recolocado na terceira e vice-versa. Só não disse que gostou.


A filha de Corina não aceitou...ele, por hortências apaixonou -se...

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