quinta-feira, 27 de julho de 2017

O MOCORONGO DO GASTÃO




Foi na década de 60, no século passado. Meu irmão, o Tirano, havia partido para Suez e lá fez amizade com um amigo que eu tinha nos tempos de basquete. Este, grande jogador, seleção mineira, jogava no América. Lá na Alameda existia outro, super cobra, chamado Zé Ernesto. Era tão bom que praticava qualquer esporte. Foi até goleiro nos profissionais.

Conheci o Zé desde o Colégio Arnaldo, ainda tenho fotos dos times que jogamos juntos. O outro, Gastão, vim à conhecer no América. Torna-se-ia, mais tarde grande amigo de meu irmão, o Tirano das Montanhas.

Gastão era aventureiro, como meu caro fratello. Partiram para salvar o mundo à comecar por Suez. Lá jogou no time do Brasil que disputou um campeonato com as seleções dos outros países que compunham a força de paz. Gastão era o fino da bola. Meu irmão, entretanto, um carniceiro contumaz. Ganharam o título como ganharam também a medalha de Paz da ONU.

Voltaram, com dinheiro no bolso. Gastão comprou um carro, um Nash 1949. Uma jóia do passado. O carro parecia um bólido. Tinha polainas nas rodas traseiras, todo arredondado, de janelas pequenas, uma delas, a de trás, em forma de amêndoa. Sentado na frente à olhar pelo retrovisor tinha-se a impressão que havia lá um tunel interminável. Um buraco para outra dimensão.

Como não sabia dirigir, contratou um chofer.

O dito era meio diminuto. Feio feito a fome, mais burro do que a porta e custava barato. Nós o apelidamos de “Mocorongo do Gastão”.

Feliz da vida Gastão nos convidara para um passeio em sua poderosa máquina. Sentávamos no banco de trás, afinal éramos a fina flor de um passado que não voltaria mais.

O Nash tinha 3 marchas à frente. A ré ficava na mesma linha da terceira, mais esticada. O motor tinha uma quantidade enorme de cavalos, todos famintos. Tão famintos que sugavam os tanques dos postos de gasolina simplesmente ao passar por perto.

Fomos até a praça da Liberdade e descíamos a João Pinheiro. Lá na frente do Detran o “mocorongo” resolveu engatar uma terceira com duas debreadas. Entrou a ré.

Um barulho ensurdecedor se fez ouvir. Olhamos para trás, pela janela amendoada e vimos um rastro de óleo salpicado de peças metálicas entre molas, planetários, satélites, parafusos e o eixo traseiro com suas duas rodas.

A gente ainda andou por uns15 metros naquela descida. O carro havia falecido. Morte súbita, cruel, pois nunca mais veio à rodar.

O Mocorongo...bem...saiu correndo. Foi pego pelo Gastão após calçado pelo Tirano. Levou bolachas mil, cascudos e impropérios impublicáveis. Também nunca mais foi visto.


Gastão saiu pelo mundo afora assim como o Tirano. Aposto que ainda aprontam por aí. Afinal está no DNA dos dois. Ficou a saudade, mas que foi divertido, foi...

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