O CRIADO MUDO
Sexta Feira, dia de encontrar com a turma, dia de se deixar ao sabor do
vento e da sorte. Aquele que amava hortências preparava-se para nova aventura.
Qual seria? Deixou-se abraçar pela Barrica #7, lá do Tennessee, aquela que o
fazia perder os sentidos, aquela que o deixava no Nirvana. No terceiro torpedo
notou que seus amigos partiram mais cedo e o haviam abandonado.
Triste, olhou para o copo e viu algumas gotículas no fundo. Pediu reforço,
e, de outro em outro, descobriu-se leve, a flutuar.... novamente.
Caminhou passando pelas suas amadas hortências. Hoje não havia nada para
elas, tinha outro programa. Ao chegar ao fim da trilha olhou para o céu
estrelado e pensou ter ouvido a voz de amigos. Deixou-se cair, inclinando-se
para trás. Os amigos o receberiam, com braços abertos...certamente.
Ledo engano, não havia nenhuma alma penada ou sem penas nas
proximidades. Somente o vazio interrompido que foi com a queda ao cimento frio.
Machucou as costas, doía. Passou alguns minutos estudando o que fazer. Chegaria
ao carro? Como? Num esforço ímpar conseguiu dêle se aproximar e adentrar.
Pensou...se cheguei até aqui, chego até em casa. Deu partida e se foi.
Encontrou-se à frente da porta. Não se lembrava exatamente como chegara, mas lá
estava. Abriu a porta e procurou o quarto.
A filha de Corina, sua encantadora esposa tinha sempre preocupações com
o estético. Assim havia comprado um tapete que adornava sua casa, logo abaixo
de um degrau inventado por algum arquiteto desvairado. Naquele lugar, em outra
festa, uma digníssima madame levantou vôo antes de ter bebido nada. O vôo foi
breve mas a aterrisagem sensacional.
Por causa do incidente, a filha de Corina, a indecifrável, mudou o local
de repouso do tal tapete voador. Colocou-o no quarto à frente do criado mudo. E
foi alí que ele o encontrou.
O vôo foi mais longo do que o de sua amiga. Teve até piruetas. A
aterrisagem mais espalhafatosa. Foi-se o criado mudo. Dizem que ao espedaçar-se
gritou. Não era mais mudo, e faleceu em pedaços, ferpas, cacos, estilhaços
adornando nosso herói.
Cabisbaixo nos encontrou no dia seguinte. Mostrou as marcas de sua
desdita, pareciam arranhões de uma mulher que lutara por sua virgindade. Achou
que podia mentir e...disse:
A criada era muda.
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