terça-feira, 11 de julho de 2017

MEMÓRIAS FRAGMENTADAS




Há mais de 50 anos atrás, no Colégio Arnaldo, fui parte de uma geração de atletas de incomparável grandeza. Liderados pelo saudoso Padre Symalla inauguramos a piscina suspensa e fomos os primeiros a nadar borboleta com  pernada de golfinho. Valeu um recorde mineiro num sábado, logo depois quebrado pelo meu colega, no domingo.

Disputamos diversos títulos colegiais em basquete, futebol de salão e futebol de campo. Deste campo sairam atletas como Zé Ernesto, Amaury Horta, Capeta, Paulo Papini, Paulo Ângelo entre muitos. Da piscina vieram Roberto Fontes, Sérgio Vieira e Eliziário Pereira, todos recordistas e grandes alunos.

Fui nadar no América, na Alameda em uma piscina que tinha um trampolim de 10 metros. O técnico era o Hebinho, grande sujeito, amigo e competente. Da piscina fui atraído pelas quadras de basquete. Etienne era o técnico. Tentava ressurgir a tradição americana de grandes times, aqueles em que jogaram José Luiz, Flexa, Stropiani, Morvan e Dalmo Assunpção.

Dalmo era o único que havia sobrado. Chegou a jogar pelo Paissandú, time que muito poucos ainda se lembram. O super craque Zé Ernesto havia assinado e era a estrela do time. Joguei com eles do juvenil à primeira. À época a guerra era entre o Ginástico, Minas e Cruzeiro, mas fazíamos o campeonato interessante junto com a turma do Quinze Veranistas.

Treinavamos na quadra externa e usavamos um dos vestiários debaixo das sociais. O time do América era alvi-verde. Camisas listradas de verde e branco. Era o capitão do time que entrava em campo com os dois Zés, Roberto e Ernesto além de Dalmo e Dionísio. Paulinho Cem Quilômetros, Celso Tripé ( que não sou eu), Júlio Kieruff e Gastão Massari eram parte efetiva do elenco.

Etienne era um grande técnico. Muito educado, falando um português impecável era ótimo nos fundamentos. Zé Ernesto e Gastão foram seleção mineira juvenil campeã brasileira no Minas Tenis. Aquele time tinha entre outras, estrelas como Armando Galizzi, Edson, Coqueiro, Rubinho (do Ginástico), Panhoca e Procopinho.

Um dia, eu, que não era de fazer muitos pontos, fiz dezessete contra o Minas. Era um domingo e, na segunda, iria me apresentar para serviço militar. Havia arranjado uma carta de grande figurão, pedindo dispensa. Estava mais preocupado em namorar do que servir no nosso glorioso exército. CPOR, com sábados e domingos, era um obstáculo à vida gostosa que levava.

Segunda chegou e com ela, às 6 da manhã, estava eu, em fila, esperando meu nome ser incluído na relação de excesso de contingente. A lista era lida e meu nome não aparecia. Por fim, ficaram somente os que serviriam. Eu não poderia estar nesta turma... Minha carta era de um pistolão inigualável, pensei.

Ouvi meu nome, fui chamado à parte, deveria conversar com o capitão chefe do recrutamento, no segundo andar.

A sala era grande, a mesa ao fundo, a bandeira do Brasil imponente, impondo respeito. O capitão havia jurado fazer times de estrêlas  em basquete, futebol de salão e volei. Queria derrotar a famosa Agulhas Negras, a academia que nunca havia perdido um jogo.

Aguardei em pé por alguns minutos. Olhando para mim perguntou: “Você gosta desta bandeira?”... Respondi que sim, respeitosamente...

“Vejo que você tem um pedido de dispensa. Posso saber a razao?”...Disse-lhe  que tinha um problema físico...

Olhando de novo, indagou: “Quantos pontos você fez ontem contra o Minas?”.... Dezessete, respondi...estupefato!...

“Vou lhe dar a escolha entre as armas de engenharia, artilharia e infantaria.”  E, antes que eu pudesse lhe responder foi escrevendo... – infantaria –

Ganhamos de Agulhas Negras em todos os esportes. Também com Paulinho DaPieve, Belfort, JosFrancis, Rubinho, Marins e outros cobras não havia chance para eles. Não mais quizeram jogar com o CPOR, acho que não gostaram de apanhar.

Nunca reclamei de ter sido convocado. Foram dois anos maravilhosos. Grandes amigos, aventuras incríveis, forma perfeita, pronto para tudo, liderança inconteste.

Dois anos inesquecíveis!



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