MEMÓRIAS FRAGMENTADAS
Há mais de 50 anos atrás, no Colégio Arnaldo, fui
parte de uma geração de atletas de incomparável grandeza. Liderados pelo
saudoso Padre Symalla inauguramos a piscina suspensa e fomos os primeiros a
nadar borboleta com pernada de golfinho.
Valeu um recorde mineiro num sábado, logo depois quebrado pelo meu colega, no
domingo.
Disputamos diversos títulos colegiais em basquete,
futebol de salão e futebol de campo. Deste campo sairam atletas como Zé
Ernesto, Amaury Horta, Capeta, Paulo Papini, Paulo Ângelo entre muitos. Da
piscina vieram Roberto Fontes, Sérgio Vieira e Eliziário Pereira, todos
recordistas e grandes alunos.
Fui nadar no América, na Alameda em uma piscina que
tinha um trampolim de 10 metros. O técnico era o Hebinho, grande sujeito, amigo
e competente. Da piscina fui atraído pelas quadras de basquete. Etienne era o técnico.
Tentava ressurgir a tradição americana de grandes times, aqueles em que jogaram
José Luiz, Flexa, Stropiani, Morvan e Dalmo Assunpção.
Dalmo era o único que havia sobrado. Chegou a jogar
pelo Paissandú, time que muito poucos ainda se lembram. O super craque Zé
Ernesto havia assinado e era a estrela do time. Joguei com eles do juvenil à
primeira. À época a guerra era entre o Ginástico, Minas e Cruzeiro, mas fazíamos
o campeonato interessante junto com a turma do Quinze Veranistas.
Treinavamos na quadra externa e usavamos um dos vestiários
debaixo das sociais. O time do América era alvi-verde. Camisas listradas de
verde e branco. Era o capitão do time que entrava em campo com os dois Zés,
Roberto e Ernesto além de Dalmo e Dionísio. Paulinho Cem Quilômetros, Celso
Tripé ( que não sou eu), Júlio Kieruff e Gastão Massari eram parte efetiva do
elenco.
Etienne era um grande técnico. Muito educado, falando
um português impecável era ótimo nos fundamentos. Zé Ernesto e Gastão foram
seleção mineira juvenil campeã brasileira no Minas Tenis. Aquele time tinha
entre outras, estrelas como Armando Galizzi, Edson, Coqueiro, Rubinho (do Ginástico),
Panhoca e Procopinho.
Um dia, eu, que não era de fazer muitos pontos, fiz
dezessete contra o Minas. Era um domingo e, na segunda, iria me apresentar para
serviço militar. Havia arranjado uma carta de grande figurão, pedindo dispensa.
Estava mais preocupado em namorar do que servir no nosso glorioso exército.
CPOR, com sábados e domingos, era um obstáculo à vida gostosa que levava.
Segunda chegou e com ela, às 6 da manhã, estava eu, em
fila, esperando meu nome ser incluído na relação de excesso de contingente. A
lista era lida e meu nome não aparecia. Por fim, ficaram somente os que
serviriam. Eu não poderia estar nesta turma... Minha carta era de um pistolão
inigualável, pensei.
Ouvi meu nome, fui chamado à parte, deveria conversar com
o capitão chefe do recrutamento, no segundo andar.
A sala era grande, a mesa ao fundo, a bandeira do
Brasil imponente, impondo respeito. O capitão havia jurado fazer times de estrêlas em basquete, futebol de salão e volei. Queria
derrotar a famosa Agulhas Negras, a academia que nunca havia perdido um jogo.
Aguardei em pé por alguns minutos. Olhando para mim
perguntou: “Você gosta desta bandeira?”... Respondi que sim, respeitosamente...
“Vejo que você tem um pedido de dispensa. Posso saber
a razao?”...Disse-lhe que tinha um
problema físico...
Olhando de novo, indagou: “Quantos pontos você fez
ontem contra o Minas?”.... Dezessete, respondi...estupefato!...
“Vou lhe dar a escolha entre as armas de engenharia,
artilharia e infantaria.” E, antes que
eu pudesse lhe responder foi escrevendo... – infantaria –
Ganhamos de Agulhas Negras em todos os esportes. Também
com Paulinho DaPieve, Belfort, JosFrancis, Rubinho, Marins e outros cobras não
havia chance para eles. Não mais quizeram jogar com o CPOR, acho que não
gostaram de apanhar.
Nunca reclamei de ter sido convocado. Foram dois anos
maravilhosos. Grandes amigos, aventuras incríveis, forma perfeita, pronto para
tudo, liderança inconteste.
Dois anos inesquecíveis!
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