segunda-feira, 19 de junho de 2017

O GRITO

Era um artista…
Gênio confuso. Mente prolixa.
Era triste…
Não gostava da vida,
E a vida, dele não gostava.

Sua tela mostrava as cores da noite.
Sua alma procurava a luz…
Que não encontrava.
Somente a negrura imensa,
A solitude infinda…

Tentou pintar a noite.
Seu pincel era preto.
Não viu as estrelas,
Não enxergou a lua,
Somente o negro vazio.

No seu quadro esquálido,
Sem cor,
Sem um gesto de amor,
Somente existia… a textura rôta,
O desespero infinito…

Gritou…
Um grito mudo, desesperador.
Tão forte era que o ouviu,
E, num vôo sem asas partiu.
No vazio sumiu…

Era escura a noite que via…
Era frio o vento que machucava.
O grito silencioso o levava ao fundo,
Do abismo adunco,
Que lhe dilacerava o corpo.

Achou ter encontrado a luz…
Pensou que vira cores.
Viu somente a mesma tela,
As negras tintas, o pincelar sêco, em desamores…
O mesmo grito…Mudo.


Assim viveu a eternidade.
Em repetições contínuas…
Pelo tempo e pelo espaço,
Em um vôo morto,
Como a noite que pintava…

Em um grito surdo…

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