CARLÃO
Sujeito ameno, simpático e bom partido. Fazia parte de
um grupo de play boys que se auto intitulavam Irmãos Brothers. Aprontavam à bessa, porém, nesta ocasião eram inocentes.
Um domingo ensolarado, um aniversário à comemorar, um
churrasco no topo da montanha. Fora convidado e para lá foi. Penteou seus dois
fios de cabêlo com esmêro, colocou a mais guapa camisa e, com sorriso pleno,
aproximou-se do quiosque para o abraço do amigo que o convidara.
A festa acontecia alegre. Uma ilustre senhora de traços
finos sorvia seu escocês habitual. Já havia tomado uma loura para limpar a
serpentina. Passou por uma garrafa do melhor tinto e mergulhava nos braços de um Johnny,
vermelhinho. Seguia os conselhos de um laureado ícone que aconselhava, entre
outras pérolas, beber sempre variando as marcas e tipos. Evita ficar viciado,
dizia.
Um brado se fez ouvir...
“Penetra! Vejam só, filando bóia, bebendo
uisquinho...Penetra, miserável!!!”
Olhou para um lado e para outro. Achou, infelizmente,
que era com ele mesmo. A doce senhora discursava com veemência petista.
“Vá penetra...volte para donde viestes!.. Vade retrum.”
Pensou, aquilo devia ser um mal entendido. Iria para o
deck acima, fumaria um cigarrinho e voltaria quando tudo estivesse calmo. E
assim o fez.
No alto, encontrou com uma bela e formosa criatura.
Achava que era a namorada do amigo, do irmão brother que o convidara. Foi ótimo! Bateram longos papos, ela à dar
corda e ele tentando esquecer a furiosa madame lá de baixo.
De repente, eis que surge outra, tão bela e tão
formosa quanto a primeira, e, era igualzinha a ela. “Meu Deus tem duas, e ele não
me falou nada! Balbuciou.”
Desceu meio atordoado, meio escamoteado e meio abalado.
“Véio, tem duas...fui expulso...tô tonto...tô vendo em dobro...vou embora!”
Os dias se passaram e a doce senhora já havia
recuperado o bom senso que a permeava. Dos amigos ouviu o relato de seu feito.
Quase em prantos pedia a todos que a perdoassem. Não sabia mais o que fazer. “Não
me lembro nem do rosto do coitado, meu Deus, acho que bebí demais.”
Um outro domingo chegou e com ele mais uma sessão em
homenagem à Bacco.
A irmã do amigo em conlúio com sua namorada (a tal
duplicata) planejavam vingança. Aproximaram-se de um alto e elegante rapaz e
com ele prepararam uma armadilha perfeita.
“Doce senhora, lembra-se do Carlão? Ele esta alí, no
deck, tomando uma cerveja.”
Foi o gatilho necessário. Subiu correndo e esbaforida
jogou-se aos pés do rapaz. Perdoe-me Carlão, não sabia...Perdoe-me, eu não sou
assim, não sei o que aconteceu.
O suposto Carlão virou o rosto com desdém e respondeu:
“Jamais, jamais...”
Até hoje, vive a se desculpar. O verdadeiro Carlão
ainda não voltou, bebeu demais para esquecer, perdeu seus dois últimos fios e continua
a ver em dobro. A vida na montanha continua...
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