ANGEL
A noite era fria.
Nada especial…
As estrelas cintilavam sem o brilho mágico, não mais se mostravam como outrora. Na sua dança pelo firmamento
sentia-se haver música… mas esta era muda.
A lua, tímida se escondia, meio brilho, prata amarelada, não se mostrava. Sem a
música das estrelas
escolheu ser secundária às nuvens tristes que a rodeavam.
Havia, entretanto, algo misterioso no ar.
Em marolas prateadas e fios de ouro perolados, riscos de luz, tênues, frágeis e delicados
formavam desenhos encaracolados. Procuravam ser algo que ainda não havia sido.
Se o pintor apaixonado alí estivesse, no seu canvas, as tintas se misturariam em mágicas poções, cores
luminescentes debruçariam sobre a tela e, num frenético ritmo concêntrico formariam halos de luz no céu estrelado. Impressionismo vivo em um mudo universo, um barroco de
linhas, em modernismo romântico.
Pouco a pouco formas poderiam ser absorvidas. Não eram reais aos
olhos, existiam no fundo do coração de quem via. Mas eram de certa maneira… formas.
Se houvesse um rosto, seria divino. Se houvesse um corpo, seria o
regaço do universo.
Era aconchegante, terno, delicado, puro. Mas eram um rosto e um
corpo.
Na abstração luminosa dançavam-se os olhos na procura do retrato fixo, da fotografia sólida, da impressão realista.
Perdiam-se, estes mesmos olhos, por não achar a referência, pois não as tinha. Existia somente a sensação de saber tê-la lá, sem tê-la de verdade.
Era etéreo.
No seu corpo adentrei. Na sua face encontrei os olhos. Existiam.
Eram cheios de amor, um amor tão profundo que lhe pedia o sono instantâneo onde estes,
nunca materializados, se tornavam sólidos.
Apalpei minha propria história. Chorei minhas fraquezas e implorei por um perdão que, quando o
recebí, me fez leve, puro
e imaculado. Pois era o perdão que não existe no meio real, era aquele de um corpo celestial. Flutuei no
espaço estrelado bailando
ao som da música muda.
Não mais queria
voltar…
Fios de ouro perolados em um fundo de prata translumbravam sobre
matizes de estrelas. A lua tímida voltou a brilhar. O tilintar de astros a dançar no firmamento
trouxeram de volta o som da música divina, agora audível. Oh…doces acordes celestiais. Valsa divina, passos de um
bailado flutuante em piruetas leves, graciosas e luminosas.
Minha mente pedia uma simples resposta. Onde estava eu? Teria
morrido? Estava ainda vivo, sonhando, em um mundo irreal?
Não havia morrido. Nem
estava vivo como antes.
Estava envolto no mais puro dos sentimentos. Nem vivo, nem morto.
Simplesmente existia em estado etéreo.
Estava nos braços de um anjo.
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