quinta-feira, 4 de maio de 2017

“WITCH   SHOP”


1978…o frio úmido de Londres entrava em meus ossos. Ruas cinzas, edificações austeras e equilibradas, casacos, chapéus e sombrinhas. Chovia fino, nevoeiro ainda leve, o som dos Beatles no fundo traziam-me ao presente onde o passado ainda estava marcado em cada esquina, prédio, porta e ponte.

Tinha tido sucesso em minhas negociações. Queria conhecer uma Londres diferente, longe do caminho dos turistas, fora do burburinho, fora do comum. Existem cidades que trazem consigo mistérios e surpresas. Esta era uma delas.

Mais cedo havia encontrado uma loja de livros. Era magnífica. Cinco andares, departamentos diferentes, livros de países distantes, encardenados, decorados, arrumados. Filas de clientes ávidos por conhecimento se faziam em frente aos caixas. Filas para comprar aquilo que ilumina a alma. Só na Inglaterra.

Ví bares deliciosos. Sempre austeros, madeira em excesso, clima esfumaçado. Mulheres em seus terninhos ingleses, sombrinhas ao lado, sorvendo “pints of beer” quando não preferiam o velho escocês, “single malt, straight up”. Vi pequenas lojas com seu solitário funcionário vendendo aquilo que só se compra lá. Certificadas pela coroa, traziam em sua vitrine o diploma de fornecedores da rainha.

Procurava por algo único em lugares onde o único prevalecia. Nada de mais único se revelou quando em uma esquina deparei-me com uma jóia arquitetônica. A edificação linda e de características vitorianas, com pequenas janelas e uma porta de madeira trabalhada com entalhes misteriosos, trazia bem em sua esquina uma loja de livros.

“Witch Shop” dizia o letreiro. Um atendente, vestido em veludo negro, era dono de um olhar escuro e sorriso enigmático. Com amável voz pediu-me que usasse meu tempo, pesquisasse e procurasse até por aquilo que não sabia. Prometeu-me que encontraria.

Entre livros gigantescos, alguns manuscritos e ornamentados com gravuras de qualidade estupefacientes me perdí , não sei por quanto tempo. Embevecido tentava decifrar citações em latim, escritas celtas antigas e outras de natureza cuneiforme. Não que as conseguisse decifrar, mas eram tão lindas e estranhas que faziam minha alma de artista entrar em devaneios que nem eu conhecia.

A loja era certamente diferente, algo de um passado distante, diria que provavelmente do século XVI. O mobiliário denso, pesado em mogno mostrava sinais do uso através dos anos . Era certamente elegante, mais do que isso, estonteante.

Os livros pareciam de edições únicas, como único era o espaço em que se encontravam. Um frio mais frio do que havia sentido do lado de fora, penetrava meu ser. Pensei que viajava no tempo, pensei que talvez já havia estado lá, em outras épocas, mas imaginava ser isso impossível. Era um homem do século XX, havia lido sobre religiões místicas, misteriosos costumes. Mas alí, naquela loja tudo que havia visto se materializava com a forma mais estranha, mais surrealista.

 O frio aumentou...deveria comprar uma de suas preciosas mostras? Seria esta uma lembrança digna de presente para minha amada? Ou seria um passo para o desconhecido, um pacto com entidades, coisas, seres, que tomariam de mim a minha mais pura essência? Hesitei...e este momento de fraqueza  tirou-me do transe que de mim se havia  apoderado.

Deixei a “Witch Shop”, deixei-a para voltar dois anos mais tarde, fazendo o mesmo trajeto, procurando pela loja que havia dado a mim a experiência mais transcendental que havia vivido até então. Não a encontrei, nem sequer um traço. Não encontrei  o prédio, nem a esquina, ou mesmo o nevoeiro.

Se houve ou existiu não posso afirmar. Se esqueci isso, posso dizer que não. Se foi em outra dimensão, tempo ou em danças quânticas, jamais poderei explicar. Que pena...quando vou a Londres,  por lá tento ainda achá-la.

“Witch Shop” abra-me suas portas...mais uma vez...prometo que não a deixarei.



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