“WITCH SHOP”
1978…o frio úmido de Londres entrava em meus ossos.
Ruas cinzas, edificações austeras e equilibradas, casacos, chapéus e
sombrinhas. Chovia fino, nevoeiro ainda leve, o som dos Beatles no fundo
traziam-me ao presente onde o passado ainda estava marcado em cada esquina, prédio,
porta e ponte.
Tinha tido sucesso em minhas negociações. Queria
conhecer uma Londres diferente, longe do caminho dos turistas, fora do
burburinho, fora do comum. Existem cidades que trazem consigo mistérios e surpresas.
Esta era uma delas.
Mais cedo havia encontrado uma loja de livros. Era
magnífica. Cinco andares, departamentos diferentes, livros de países distantes,
encardenados, decorados, arrumados. Filas de clientes ávidos por conhecimento
se faziam em frente aos caixas. Filas para comprar aquilo que ilumina a alma. Só
na Inglaterra.
Ví bares deliciosos. Sempre austeros, madeira em
excesso, clima esfumaçado. Mulheres em seus terninhos ingleses, sombrinhas ao
lado, sorvendo “pints of beer” quando
não preferiam o velho escocês, “single
malt, straight up”. Vi pequenas
lojas com seu solitário funcionário vendendo aquilo que só se compra lá.
Certificadas pela coroa, traziam em sua vitrine o diploma de fornecedores da
rainha.
Procurava por algo único em lugares onde o único
prevalecia. Nada de mais único se revelou quando em uma esquina deparei-me com
uma jóia arquitetônica. A edificação linda e de características vitorianas, com
pequenas janelas e uma porta de madeira trabalhada com entalhes misteriosos,
trazia bem em sua esquina uma loja de livros.
“Witch Shop” dizia o letreiro. Um atendente, vestido
em veludo negro, era dono de um olhar escuro e sorriso enigmático. Com amável
voz pediu-me que usasse meu tempo, pesquisasse e procurasse até por aquilo que
não sabia. Prometeu-me que encontraria.
Entre livros gigantescos, alguns manuscritos e
ornamentados com gravuras de qualidade estupefacientes me perdí , não sei por
quanto tempo. Embevecido tentava decifrar citações em latim, escritas celtas
antigas e outras de natureza cuneiforme. Não que as conseguisse decifrar, mas
eram tão lindas e estranhas que faziam minha alma de artista entrar em
devaneios que nem eu conhecia.
A loja era certamente diferente, algo de um passado
distante, diria que provavelmente do século XVI. O mobiliário denso, pesado em
mogno mostrava sinais do uso através dos anos . Era certamente elegante, mais
do que isso, estonteante.
Os livros pareciam de edições únicas, como único era o
espaço em que se encontravam. Um frio mais frio do que havia sentido do lado de
fora, penetrava meu ser. Pensei que viajava no tempo, pensei que talvez já
havia estado lá, em outras épocas, mas imaginava ser isso impossível. Era um
homem do século XX, havia lido sobre religiões místicas, misteriosos costumes.
Mas alí, naquela loja tudo que havia visto se materializava com a forma mais
estranha, mais surrealista.
O frio
aumentou...deveria comprar uma de suas preciosas mostras? Seria esta uma
lembrança digna de presente para minha amada? Ou seria um passo para o desconhecido,
um pacto com entidades, coisas, seres, que tomariam de mim a minha mais pura
essência? Hesitei...e este momento de fraqueza tirou-me do transe que de mim se havia apoderado.
Deixei a “Witch Shop”, deixei-a para voltar dois anos
mais tarde, fazendo o mesmo trajeto, procurando pela loja que havia dado a mim
a experiência mais transcendental que havia vivido até então. Não a encontrei,
nem sequer um traço. Não encontrei o prédio,
nem a esquina, ou mesmo o nevoeiro.
Se houve ou existiu não posso afirmar. Se esqueci isso,
posso dizer que não. Se foi em outra dimensão, tempo ou em danças quânticas,
jamais poderei explicar. Que pena...quando vou a Londres, por lá tento ainda achá-la.
“Witch Shop” abra-me suas portas...mais uma
vez...prometo que não a deixarei.
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