quinta-feira, 18 de maio de 2017

POLITíCA DO TINHOSO


Seu nome era Genésio do Sacolão, Gené para os mais íntimos
Gené parecia besta como a mula do vizinho, mas era esperto. Fingia de burro para ficar igual àqueles que o elegiam.
Verdade, era eleito toda vez que concorria à cargos, e, cada vez mais altos.
Como político, desta maravilhosa safra nacional, não tinha pai nem mãe. Por isso, como todos os outros, não tinha sobrenome. Trabalhou por dois dias no tal sacolão. Suficiente para dar-lhe nome batismal.
Não fazia nada. Não legislava, não trabalhava, jamais ia às sessões das diversas câmaras que participou.
Mas era bom de voto, diziam.
À época das eleições distribuía bodes para o povo.
“Pode pegá uns bode, dizia. São da minha fazenda. Sangue puro, come lata e tudo!”
Ficava rico que nem foguete. Não se sabe como, mas findo o termo de cada legislatura comprava mais “uns gado, uns bode e até uns frango”. Tinha um monte. Era “prá dá pro povo”, dizia.
O Tinhoso já estava prestando atenção no cabra. Achava que seria bom material de investimento. Tinha aquelas coisas somente presente nos cretinos que o povo gosta. Disseminar miséria e desgraça é coisa boa, pro demônio, é claro.
Um dia , no bar do Zé Puto, lá na favela, o Tinhoso apareceu, vestido de gente da capital. Foi chegando, chegando, até encostar no Gené. Puxou conversa e depois de umas pingas caprichadas deu o bote.
Ô Gené, você é um sujeito “jeitado”. Tem caixa pra ir mais em frente. Já pensou ser presidente?”
Gené arregalou os olhos…pensou…”será que eu tenho que cortar um dedo”?
O Tinhoso leu seu pensamento e logo retrucou..”não Gené, tem não…”
“Cumé qui ele sabia o qui ele pensou? Diabo, vai ver qui o cabra é bom de coisa, sô.”
Resolveu entrar na conversa mais a fundo e perguntou: “Qui é qui eu tenho qui fazê?”
“Olha seu Gené, pode continuar dando uns bodes, galinhas e até camelos se você quizer. Eu arranjo uns empreiteiros para financiar, uns juizes para afugentar qualquer coisa contra você, uns banqueiros para por dinheiro na mesa. Eles são os melhores para lavar a coisa. Até uns traficantes a gente põe na nossa folha, caso se precisar de matar uns cabras chatos, tipo jornalistas.
O negócio é por a mão na cumbuca. O povo, que  vota em você, nem vai sentir. Afinal eles vão ter garantido uns bodes novinhos a cada quarto anos.
A gente espalha que você é comunista, esquerdista, sei lá. Qualquer coisa sinistra, esquerda ou gauche. Isso é para pegar os intelectuais desta terra de burros. Eles adoram imbecís, e você é dos bons.”
“Que isso seu Tinhoso, imbecí eu num sô. Nem sei qui é isso. Fiz até um ano di grupo. Dá pra contá até deiz.”
“Deixa para lá. Isso é só figura de retórica”, respondeu o Cão.
Tudo bem, eu topo. “E você u qui vai ganha cum isso?”
“Assina aqui, é só a sua alma. Sei que você nem acredita que ela exista. Então, não vai lhe fazer diferença.”
Negócio feito, negócio fechado.
Genésio do Sacolão virou presidente. Em dois anos quebrou o país. E quebrou tão bem que nem os bodes, camelos, galinhas e outros bichos foram capazes de segurar o povo burro que o elegeu. Foi massacrado em praça pública.
Morreu…
Os intelectualóides daquela nação de energúmenos juntaram-se aos jornalistas gauches e escreveram epitáfios maravilhosos sobre o gênio populista, homem de coração, que ousou cuidar das massas indefesas. Alienaram, por certo, as consequências da nefasta destruição da economia, das instituições. Puseram a culpa nos imperialistas de praxe. Rezavam para que ressuscitasse.
Gené, baixou nos portões dos infernos. Tinha uma alma afinal. Sentiu um friozinho na barriga quando encontrou, de novo, com o Tinhoso.
Este, não mais se vestia como um homem lá da capital, era vermelho, tinha um rabo, fedia enxofre e segurava um tridente na mão, afiado que nem peixeira.
“Bem vindo seu Gené. Durou menos que eu pensava. Você só conseguiu uns milhares de outros politícos, empreiteiros e banqueiros para participarem do nosso programa. Esperava um pouco mais de você.”
“Pera aí seu Diabo, era pra mim ficar mais um mandato. Tem jeito ainda?”
“ Tem…
Para mim é até melhor que você fique por lá gerando desgraça.”
“Me manda di vorta…Vou fudê tudo. Me faz ditador.”
“Olha, vou lhe mandar de volta, mas se não fizer direito, quando voltar, vira churrasco. Se der certo, vira meu assistente, imortal.”
E assim Gené ressuscitou.
Milagre garantido, bodes distribuídos, festa, foguetes, declararam-no santo dos pobres, ditador eterno.
Fudeu à todos e a tudo. Gerou a maior desgraça já vista na humanidade. Se reclamavam, fuzilavam-nos. Cooptou o máximo de políticos, juízes, empreiteiros, banqueiros e outros baderneiros. Distribuía maconha nos jogos de futebol para manter o povo de porre. Estes, embora rezassem para que voltasse aos infernos o viam imortal. Nem câncer matava a praga.
Mas como a ordem divina tarda mas não falha, acabou morendo de morte morrida.
No seu enterro o povo foi obrigado à perfilar e render homenagens. Era a maneira com que os intelectualóides de esquerda demonstravam a vontade de  perpetuar a ignorância. Logicamente, idiotas e títeres de outros rincões do planeta alí compareceram para contemplar suas deletérias cinzas.
Ele, voltou aos infernos.
Genésio do Sacolão era pior que o Diabo.
Não durou muito e subverteu a ordem local. Como era imortal o Tinhoso não conseguia se livrar dele.
Deu tanto trabalho que esculhambou todo o esforço de cooptação de almas na Terra.
Lá em baixo, Gené distribuía bodes para os churrascos locais. A capetada já acostumada em comer carne humana desde o início da eternidade achou uma delícia a variação do menu. Gené passou a liderar movimentos sindicais de capetas descontentes querendo mais mamatas. Criou tanto caso que os ditos filhos do Cão, se revoltaram e o destituíram.
Foi o fim do inferno. Virou comunista, com lutas de classes, cérebros lavados. Tinham até de ouvir doze horas de poesias de segunda classe, por dia, feitas por intectuais importados lá de cima. Todas financiadas por uma tal lei Roedores da Net. Um saco!
Bem, lá em cima, uma vez deportados aos infernos todos aqueles que Gené cooptou e com a capetada em greve e incapaz de tentar os habitantes da superfície,  tudo se transformou.
Só tinha gente honesta.
Acabaram os advogados, sumiram os banqueiros, os empreiteiros se comportavam e não existiam mais políticos.
Gené acabou virando Deus.
Desgraça pouca é bobagem…






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