POLITíCA DO TINHOSO
Seu nome era Genésio do Sacolão,
Gené
para os mais íntimos
Gené parecia besta como a
mula do vizinho, mas era esperto. Fingia de burro para ficar igual àqueles
que o elegiam.
Verdade, era eleito toda vez que concorria à
cargos, e, cada vez mais altos.
Como político, desta maravilhosa
safra nacional, não tinha pai nem mãe. Por isso, como todos
os outros, não
tinha sobrenome. Trabalhou por dois dias no tal sacolão.
Suficiente para dar-lhe nome batismal.
Não fazia nada. Não
legislava, não
trabalhava, jamais ia às sessões das diversas câmaras
que participou.
Mas era bom de voto, diziam.
À
época
das eleições
distribuía
bodes para o povo.
“Pode pegá uns bode, dizia. São
da minha fazenda. Sangue puro, come lata e tudo!”
Ficava rico que nem foguete. Não
se sabe como, mas findo o termo de cada legislatura comprava mais “uns gado,
uns bode e até
uns frango”. Tinha um monte. Era “prá dá
pro povo”, dizia.
O Tinhoso já estava prestando atenção
no cabra. Achava que seria bom material de investimento. Tinha aquelas coisas
somente presente nos cretinos que o povo gosta. Disseminar miséria
e desgraça
é
coisa boa, pro demônio, é claro.
Um dia , no bar do Zé Puto, lá
na favela, o Tinhoso apareceu, vestido de gente da capital. Foi chegando, chegando,
até
encostar no Gené. Puxou conversa e depois de umas pingas caprichadas
deu o bote.
“Ô Gené,
você
é
um sujeito “jeitado”. Tem caixa pra ir mais em frente. Já
pensou ser presidente?”
Gené arregalou os
olhos…pensou…”será que eu tenho que cortar um dedo”?
O Tinhoso leu seu pensamento e logo retrucou..”não
Gené,
tem não…”
“Cumé qui ele sabia o qui ele
pensou? Diabo, vai ver qui o cabra é bom de coisa, sô.”
Resolveu entrar na conversa mais a fundo e perguntou:
“Qui é
qui eu tenho qui fazê?”
“Olha seu Gené, pode continuar dando
uns bodes, galinhas e até camelos se você quizer. Eu arranjo uns
empreiteiros para financiar, uns juizes para afugentar qualquer coisa contra
você,
uns banqueiros para por dinheiro na mesa. Eles são os melhores para lavar
a coisa. Até
uns traficantes a gente põe na nossa folha, caso se precisar de matar uns
cabras chatos, tipo jornalistas.
O negócio é
por a mão
na cumbuca. O povo, que vota em você,
nem vai sentir. Afinal eles vão ter garantido uns
bodes novinhos a cada quarto anos.
A gente espalha que você é
comunista, esquerdista, sei lá. Qualquer coisa
sinistra, esquerda ou gauche. Isso é
para pegar os intelectuais desta terra de burros. Eles adoram imbecís,
e você
é
dos bons.”
“Que isso seu Tinhoso, imbecí
eu num sô.
Nem sei qui é
isso. Fiz até
um ano di grupo. Dá pra contá até
deiz.”
“Deixa para lá. Isso é
só
figura de retórica”,
respondeu o Cão.
Tudo bem, eu topo. “E você
u qui vai ganha cum isso?”
“Assina aqui, é só
a sua alma. Sei que você nem acredita que ela exista. Então,
não
vai lhe fazer diferença.”
Negócio feito, negócio
fechado.
Genésio do Sacolão
virou presidente. Em dois anos quebrou o país. E quebrou tão
bem que nem os bodes, camelos, galinhas e outros bichos foram capazes de
segurar o povo burro que o elegeu. Foi massacrado em praça
pública.
Morreu…
Os intelectualóides daquela nação
de energúmenos
juntaram-se aos jornalistas gauches e
escreveram epitáfios maravilhosos sobre o gênio
populista, homem de coração, que ousou cuidar das massas indefesas.
Alienaram, por certo, as consequências da nefasta destruição
da economia, das instituições. Puseram a culpa nos imperialistas de
praxe. Rezavam para que ressuscitasse.
Gené, baixou nos portões
dos infernos. Tinha uma alma afinal. Sentiu um friozinho na barriga quando encontrou,
de novo, com o Tinhoso.
Este, não mais se vestia como um
homem lá
da capital, era vermelho, tinha um rabo, fedia enxofre e segurava um tridente na
mão,
afiado que nem peixeira.
“Bem vindo seu Gené. Durou menos que eu
pensava. Você
só
conseguiu uns milhares de outros politícos, empreiteiros e
banqueiros para participarem do nosso programa. Esperava um pouco mais de você.”
“Pera aí seu Diabo, era pra mim
ficar mais um mandato. Tem jeito ainda?”
“ Tem…
Para mim é até
melhor que você
fique por lá
gerando desgraça.”
“Me manda di vorta…Vou fudê
tudo. Me faz ditador.”
“Olha, vou lhe mandar de volta, mas se não
fizer direito, quando voltar, vira churrasco. Se der certo, vira meu
assistente, imortal.”
E assim Gené ressuscitou.
Milagre garantido, bodes distribuídos,
festa, foguetes, declararam-no santo dos pobres, ditador eterno.
Fudeu à todos e a
tudo. Gerou a maior desgraça já
vista na humanidade. Se reclamavam, fuzilavam-nos. Cooptou o máximo
de políticos,
juízes,
empreiteiros, banqueiros e outros baderneiros. Distribuía
maconha nos jogos de futebol para manter o povo de porre. Estes, embora
rezassem para que voltasse aos infernos o viam imortal. Nem câncer
matava a praga.
Mas como a ordem divina tarda mas não
falha, acabou morendo de morte morrida.
No seu enterro o povo foi obrigado à
perfilar e render homenagens. Era a maneira com que os intelectualóides
de esquerda demonstravam a vontade de
perpetuar a ignorância. Logicamente, idiotas e títeres
de outros rincões
do planeta alí
compareceram para contemplar suas deletérias cinzas.
Ele, voltou aos infernos.
Genésio do Sacolão
era pior que o Diabo.
Não durou muito e
subverteu a ordem local. Como era imortal o Tinhoso não
conseguia se livrar dele.
Deu tanto trabalho que esculhambou todo o esforço
de cooptação
de almas na Terra.
Lá em baixo, Gené
distribuía
bodes para os churrascos locais. A capetada já acostumada em comer
carne humana desde o início da eternidade achou uma delícia
a variação
do menu. Gené
passou a liderar movimentos sindicais de capetas descontentes querendo mais
mamatas. Criou tanto caso que os ditos filhos do Cão,
se revoltaram e o destituíram.
Foi o fim do inferno. Virou comunista, com lutas de
classes, cérebros
lavados. Tinham até de ouvir doze horas de poesias de segunda classe, por
dia, feitas por intectuais importados lá de cima. Todas
financiadas por uma tal lei Roedores da Net. Um saco!
Bem, lá em cima, uma vez
deportados aos infernos todos aqueles que Gené cooptou e com a
capetada em greve e incapaz de tentar os habitantes da superfície,
tudo se transformou.
Só tinha gente honesta.
Acabaram os advogados, sumiram os banqueiros, os
empreiteiros se comportavam e não existiam mais políticos.
Gené acabou virando Deus.
Desgraça pouca é
bobagem…
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