O ROUBO DE
MEFISTÓFELES
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Nome poderoso, no mal sentido. Chamavam-me de Mef.
Nascí em pequena cidade do leste americano. Muitas árvores,
cores magníficas no outono, gostava de “halloween”.
Crescí entre travessuras e gostosuras. Gostava de
cemitérios, tinham algo de inexplicável, eram ainda mais misteriosos quando a
noite caía e a neblina chegava.
Péssimo estudante, bom atleta, seduzia inocentes
garotas levando-as ao local do descanso final para, desafiando os deuses, amá-las
em lápides e mausoléus abandonados. Nunca tive mêdo, gostava da sensação de
impunidade.
É claro que não me transformei em nada descente.
Indescente que era resolví ficar rico mais depressa. Tinha idéias, e muitas.
Resolví assaltar um banco.
Bancos não são legais. Oferecem dinheiro quando você não
precisa e tomam tudo, até sua amada, quando você mais precisa. Minha alma
escura tinha um quê de Robin Hood.
Roubaria para os pobres. Poderia ter sido político e usado da mesma premissa,
mas em política tem a imprensa, e esta chateia muito. Robin Hoods, entretanto, fazem notícia de um jeito mais alegre.
Escolhi o depositário. Planejei com cuidado e sozinho
executei um plano. Tomaria o seu rico dinheirinho, esvaziando seus nojentos
cofres e esconderia o butim no cemitério. Tinha escolhido o mausoléu. Escuro,
em granito, mostrava que aquele que lá estava não tinha tido grandes amigos.
Estava abandonado à mais de dois séculos. Perfeito para meus planos.
Dentro, uma urna em mármore com a inscrição “rest in peace”, jazia uma ex-criatura de
nome Max Supremus. O sarcófago, dentro da urna, era em mogno e prata. Tinha
cadeados dourados, seis deles. Deixei para abrí-los quando fizesse meu primeiro
depósito.
O roubo foi um sucesso. Fizeram tanto alarde do
sistema de segurança que esqueceram da porta antiga, que dava para a viela atrás
do banco. A abertura se fazia para um banheiro antigo. Havia sido fechada por
dentro, mas o vão ainda estava lá e por lá entrei.
Roubei, e roubei muito, tinha dinheiro à bessa.
Coloquei-o em duas sacolas, tive de deixar um pouco para trás, não cabia mais.
Vestido de preto, máscara e tudo fugí para o cemitério.
Abrí a urna de pedra, quebrei os cadeados e levantei a
tampa do sarcófago. Notei que bem abaixo da horrível criatura falecida havia
gavetas. Quem tem gavetas em caixão? Deviam servir para alguma coisa, que tal
guardar meu butim? Lá deixei os proventos daquela noite profícua. Fui para casa
esperar pelo noticiário.
Espantoso! Desafiador! Incrível! Adjetivos pululavam
nas bocas dos apresentadores. Roubo do século, escreveu o folhetim da cidade.
Fiquei extasiado.
Voltei, uma semana depois, para retirar o dinheiro e
distribuí-lo aos pobres da cidade de acordo com meu plano original. Abrí as
gavetas e retirei diversos maços. Por alguma razão que não posso ainda explicar,
tive a sensação de que havia mais do que o que fôra depositado.
Sorrí, vai ver que eram juros...
Dei dinheiro à torto e à direito, “fí-lo porque quí-lo”,
e gostei.
A mídia se deliciava. Misterioso benfeitor cuidava dos
desafortunados. Chovia dinheiro na cidade... seria um novo Robin Hood? Era tudo o que queria. Voltei para pegar o que havia
deixado, abrí o caixão.
Encontrei mais do que havia depositado inicialmente.
Será que Max Supremus tinha um banco? Estaria ele, por meu intermédio, pagando seus
pecados de usura despejando notas de dólares sem fim nas gavetas de seu caixão?
Seria isto uma benção ou uma maldição da qual não havia ainda percebido?
Deixei o cemitério, distribuí mais dinheiro, lí mais
jornais, me sentí como um herói.
Vou roubar de novo, o crime compensa. Voltei ao sarcófago.
Continuava cheio de dinheiro, achei por bem verificar tudo com mais detalhes.
Encontrei uma inscrição, dizia: “Usura é um pecado, tomar do próximo é outro.
Quem este túmulo violar, violado será.”
Morri de rir, será que o cara tinha complexo de
Tutankamon? Quiz voltar para casa, não conseguia. O nevoeiro estava dentro do mausoléu.
Com ele, uma luz vermelha mostrava um caminho que me puxava para uma outra
dimensão. Fui tragado.
Recebido com honras notei que me chamavam gentilmente
de Mef. Fui frito, torrado e churrascado. Fui violado, como dizia a inscrição.
Demorou uma eternidade mas me deixaram ir de volta, muito depois.
Voltei, me chamava Mefistófeles, vulgo Mef. Era a
mesma besta quadrada do passado. Roubei um banco, escondí o dinheiro no caixão, me perdí na luz
vermelha, virei churrasco, de novo.
Faz uns duzentos anos que continuo nesta inana, estou
até desconfiado que é uma maldição.
Já a cidadezinha, mudou de nome. Passou a se chamar
Cornucópia. Todo ano, no halloween, chove dinheiro. O problema é manter os
turistas de fora.
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