AS GAVETAS DO CAIXÃO
(um conto no estilo de Poe)
copyright by c.gilberti
Um era rico e o outro pobre.
O primeiro era filho de um banqueiro. Nasceu em berço
de ouro, pai sovina, como todos os banqueiros. Desde cedo aprendeu a
economizar. Guardava cada centavo ganho ou achado.
Com o pai aprendeu que dinheiro depositado no banco não
é do depositário, pertence ao banco. Por módicas?? taxas, o banco se apossa de tudo, no final.
Melhorou a performance do pai, mais ainda quando se tornou seu sucessor.
Ficou rico. Muito rico. Era mais sovina, avaro, pão duro
mesmo. Um terror de banqueiro. Emprestava aos que não necessitavam, tomava tudo
dos que precisavam. Sucesso garantido.
Quando morreu, achou que deveria levar umas notas de
cem com ele. Poderia precisar, lá no além. Mandou fazer umas gavetas em seu caixão.
Guardou nelas uma boa quantidade de grana.
Morreu, foi enterrado, botaram lápide com inscrição e
tudo. Ninguém nunca foi visitá-lo. Só um cachorrinho que alí passava e cismava
de fazer um xixizinho de lembrança.
Os anos se passaram e o cemitério ficou velho, mal
cuidado, abandonado. Às noites pensava-se ouvir lamentos, uivos, gritos
horripilantes. O fogo fátuo dava ao lugar um aspeto lúgubre. Parecia que almas
penadas se levantavam aos céus escuros. Ninguém as queria.
O segundo era um pilantra. Político, nascido de berço
pobre mas cheio de idéias safadas. Roubava tudo e roubava bem. Era populista. Não
gostava de bancos. Achava bom roubá-los, tinha uma quadrilha bem montada e
financiada com dinheiro do partido. Era para engordar os cofres.
Meio tarado, gostava de sexo no cemitério. Passava as
raparigas no beiço em cima de lápides, dentro de mausoléus. Fumava uns baseados
e dizia ver o além. Uma peça de sujeito.
Havia cruzado com o outro em vida. Pedira doações de
campanha. O outro não deu, era sovina. Por isso, pregava o fim dos bancos.
Cadeia neles, dizia.
Por acaso viu o cachorrinho no seu afazer diário.
Ficou curioso, por que o bichinho só fazia xixi alí, naquela lápide? Passou a
observar mais de perto. Leu as incrições: “Aqui jaz um grande banqueiro, morreu
solteiro.” Ficou mais curioso ainda...maquinou algo inimaginável...
Um dia, havia tomado umas lá no bar da vizinhança.
Fumou dois baseados, pegou uma pá e se mandou para o cemitério.
A noite era escura. Ventava, um vento frio, daqueles
que entra pelas costelas. Não tinha lua. Noite perfeita para o que queria. Pôs-se
à cavar. Abriu a sepultura, achou o caixão, destampou, deparou-se com um esqueleto
horroroso. Desinteressou-se. Ia fechando o dito quando notou que o caixão tinha
gavetas.
Abriu-as e viu notas de cem, meio manchadas, mas ainda
em condição de agradar à muitos. Tirou um bom tanto, mas não tudo. Fechou ciudadosamente e se mandou.
Estava feliz, tinha dinheiro para campanha, era certo
que se re-elegeria. Distribuiu cem à torto e à direito. Comprou votos “a la
gordaça”. O dinheiro logo acabou...
Voltou ao cemitério, afinal aquele banqueiro safado ia
dar à ele a contribuição de campanha que havia pedido. Que beleza! Tomar
dinheiro assim, nem de criancinha comprando picolé. Abriu o buraco, o caixão, a
gaveta e notou algo estranho. Tinha mais dinheiro lá dentro do que quando havia
tirado antes.
“Ah!
pensou...devo estar enganado. Vou tirar um tanto, deixo outro para
depois. Não acredito em milagres...”
E assim o fez. Fechou tudo direitinho, voltou para o
bar, tomou um outro parati, fumou mais dois e foi para casa. No dia seguinte, lá
estava ele dando notas de cem em troca de votos garantidos. Não poderia estar
mais alegre. Mas o dinheiro acabou, de novo.
“Olha, acabou, mas tem mais lá...volto à noite e pego
o resto...”
Dizem que em boca fechada não entra mosquito. Dizem
também que em “vino veritas”. Pois assim foi ao bar, tomou um monte de paratis,
uns torpedos, dois petardos, lavou a serpentina com cerveja e fumou mais dois
baseados. A língua ficou solta...
Aos amigos contou que havia um banqueiro que o
ajudava. Perguntado quem era disse “ o fulano de tal”...mas este havia morrido,
ponderou um dos bêbados do local.
“E daí? Quem disse que defunto não paga?” E em palavras confusas pelo álcool contou
parte da história. Omitiu de onde saia o dinheiro, mas disse que tinha a haver
com o cemitério. Largou o bar, os amigos e para lá se foi.
Tendo partido, alguns dos mais afoitos, sentindo
cheiro de grana, sugeriram seguí-lo. Uma posse se formou. O álcool em estado
alto comandava as mentes. Bacco era rei, uma marcha se iniciou.
De início eram cautelosos e silenciosos. Espreitavam
atrás de mausoléus.
A noite era horrível. Chovia, raios iluminavam árvores
gerando sombras de aspeto monstruoso. Os cães latiam, um latido apavorante e
lamentoso. A turba permanecia ao longe, observando o amigo à cavar a sepultura
do banqueiro. Molhados, esperavam ansiosos. O que aconteceria?
Novamente abriu o caixão. À estas alturas não mais respeitava
o esqueleto do banqueiro, havia jogado o mesmo para fora, chutou os ossos em
desdém. Abriu a gaveta...tinha mais dinheiro ainda. Louco, jogava ao ar notas
de cem molhadas que eram levadas pelo vento açoitante. Quanto mais tirava, mais
apareciam outras notas. E ele, as jogava mais ainda, ao ar.
Na dança frenética, entre raios, trovões, uivos e o
cantar dos ventos o dinheiro do banqueiro se espalhou pelo cemitério. A turba não
se conteve. Saindo de trás dos mausoléus seus seguidores avançaram. Queriam
todas as notas, queriam tudo...lutavam entre sí...e lutavam com uma ferocidade
jamais vista.
Aos poucos surgiram estranhas armas. Primeiro pás e
paus, depois umas facas e canivetes e aí, o pau comeu. Até os clarões de tiros
se fizeram ver. Os adeptos de Bacco estavam enlouquecidos. Um a um foram
caindo, mortos, estropiados, massacrados. Só sobrou ele, a causa de tudo. Mas
foi por pouco tempo...
Ainda com uma garrafa de Jack Daniels na mão olhou
para a cena campal. Tomou o resto, levantou a pá e se julgou invencível.
Um raio de proporções jamais vistas o atingiu. Preto
como um carvão caiu dentro do caixão, a tampa se fechou, logo depois. O silêncio
se fez. Ouvia-se somente o cascatear do cachorrinho fazendo xixi sobre o
esquife. A caveira do banqueiro, com seus dentes alvos, parecia rir da cena
dantesca. A manhã se aproximava.
Ao lado do cemitério abandonado havia uma pequena
capela de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis. O vigário, com lágrimas
nos olhos, havia acabado de rezar. Pedia ao Santo ajuda para terminar as obras
da capela. Pedia que lhe concedesse a graça de poder ajudar aos pobres do
lugar. Deixando a capela, saiu para sua caminhada matinal, pela estrada ao lado
do cemitério.
No alto, perto de uma vala descobriu uma pilha de
dinheiro. Teria o santo respondido às suas preces? Aceleradamente colocou a
enorme quantia nos bolsos mais fundos de sua batina. Agradecia comoventemente
ao Santo, rezava ladainhas, cantava cânticos de fé.
O vento da noite havia soprado todas as notas de cem
que se ajuntaram ao lado da vala.
No cemitério só o silêncio. Também já fazia anos que
ninguem ia lá. Não haviam motivos para visitar o tal lugar.
O fato é que o povoado se tornou um lugar santo. Não
faltava dinheiro. O bar havia fechado, seus clientes desapareceram. O político
sumiu. Não se reportavam casos de desvios do dinheiro público. Não havia
banqueiro algum. A capela foi restaurada
e os fiéis faziam fila para obter as bençãos do generoso padre e também ganhar
uns cobres, é claro.
O cachorrinho era o único que não havia mudado seus hábitos.
Fazia seu xixizinho tradicional, duas vezes ao dia, na mesma cova.
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