A
DIVA DESNUDA
Beleza deslumbrante. Fulgurante. Como em um quadro renascentista…a
maja desnuda, do grande Goya.
Em sua nudez tímida, insinuava o paraíso.
Na luxúria
de suas formas, tornava real a sedução, o desejo incontido, o
pudor esvaecido.
No ar, o perfume… Fragâncias melífluas,
embriagantes, entorpecentes.
Na cama de plumas, macia, aconchegante, ela girava,
lentamente…
Beijos doces, lábios rubros. O carmim de sua
boca se espalhava. Primeiro na face embevecida de amor, depois em cada canto,
dobra, curva do corpo de seu amado.
Havia luz no contorno de sua boca. Fluorescia, cintilava
como estrelas
no firmamento. Luz bruxuleante, esvoaçante, chamas tremulantes em
uma dança
frenética,
satânica,
devorante.
Não havia como escapar. A cada beijo o entrelaçar
de braços e
pernas em seu corpo. A cada beijo o desfalecer trôpego, a entrega completa, a subjugação
voluntária.
As formas se misturavam, pulsavam, enlouqueciam.
Faça de mim o que quiser, disse…Sou sua, somente sua…
O sussurar de sua doce voz era mais do que o canto das
sereias. Era música
divina, eram sons de violinos em tons agudos, pungentes. Acordes nunca ouvidos,
ritmo de paixão
desmesurada. Pauta musical semi-tonada, notas lentas, românticas,
enfeitiçadas.
Pensou estar louco. Louco de amor.
Pensou em estar morto. Em um mundo celestial, talvez.
Pensou que se acabasse, não mais existiria.
Pensou em penetrá-la, ser um só,
fundir-se, desmanchar-se nas formas insinuantes, nos vales, nas colinas, nos
talvegues da perdição. No triângulo onde tudo termina e
começa ao
mesmo tempo.
Era somente dela. Só dela…
Pediu que não houvesse fim.
Pediu, enfim, pela morte gloriosa, em ato único,
cortina rápida,
ao aplauso trepidante.
Pediu que não partisse. Queria a
eternidade, não do
momento, mas da real eternidade dos eternos, dos anjos, dos demônios.
Queria pecar.
Um pecado intenso, capital.
Queria a condenação eterna por tomar em seus
braços tão
pura criatura, mas, ao mesmo tempo, queria corrompê-la,
devassá-la,
torna-la perdida.
Anjo celestial, demônio da sedução,
paradoxo do amor. O bem e o mal, a luxúria e o pudor, casta diva, devassa,
despudorada e inocente.
Viu-a nua, a seu lado.
Viu-a coberta por gaze flutuante, vestida de púrpura,
bailando ao soprar da brisa leve que adentrava a câmara.
Fulgor reluzente, sorriso arrebatador,movimentos lúdicos,
sedutores, anestesiantes. Suas pernas entreabertas desvendavam o mais recôndito
fulcro da perdição. Alí aninhou-se, em movimentos rítmicos,
demoníacos,
constantes e alucinantes. Alí ficou, o tempo estático, em quânticos
orgasmos, numa relatividade única, como uma nova equação física,
inquantificável.
Alí ficou, e alí perdeu-se…
Não mais pensava. Deixou de existir. Seu ser, outrora
forte, sucumbiu, entregou-se. Desapareceu.
Na cama de plumas a bela recostada, sorria como Mona
Lisa, no quadro de DaVinci. Feliz, encaracolava seus louros cabelos com as
pontas dos dedos. As pernas torneadas, pele branca como a neve, brincavam com a
gaze flutuante. Rolava em volutas lentas, de um lado para outro. Mais sedutora
do que nunca deixava escapar de seus incandescentes lábios
sons angelicais, gemidos de prazer e satisfação.
Achou-se vivo, pois via tudo.
Pensou em lá estar, mais uma vez.
Perder-se, de novo…
Mas já tinha morrido…
De prazer.
E, nem sabia…
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