ACONTECEU EM CHICAGO
Ele era um elegante rapaz. Alto, forte e simpático.
Tinha três lindas irmãs, tipo miss universo, um pai severo, uma doce mãe e dois
outros irmãos, um deles viria ser um ilustre desembargador.
Fazia pós-graduação em Chicago, já estava casado.
Morava em um pequeno apartamento, não tinha muitas coisas. Um fusquinha mesentérico,
uma bermuda e uma muda de roupa que o levava à todos os lugares.
O ano chegava ao fim, o frio congelante com os ventos
da windy city soprando cruelmente. Queria
comemorar. Juntou seus trocados e convidou sua bela para um jantar, romântico, à
dois.
Ao restaurante chegaram e iniciaram os procedimentos
com um drink de abertura e leitura cuidadosa do menu.
Sentiu algo se movimentando em suas partes glúteas. Era
de natureza feroz, já o havia enfrentado em outras ocasiões. Em circustâncias
normais qualquer mortal procuraria o toilet mais próximo. Não ele...Só fazia em
casa.
Disse à sua bela: “Querida, está acontecendo de novo.
Vou até o apê, resolvo o problema e volto que nem Mercúrio, com asinhas nos
calcanhares. Peça alguma coisa por mim, beijocas.” E assim o fez.
Adentrou seu fusca. Era como se estivesse vestindo o
dito cujo. Grande como era o procedimento de entrada era penoso e contorcionista.
A movimentação em excesso provou-se perigosa. A revolta que lhe tomava as
entranhas se assanhava.
Intrepidamente seguiu viagem. Tomou a via expressa,
pouparia tempo e este era o que faltava. Eis que de repente, um líquido quente,
viscoso e morfético inundou suas partes baixas. Como lava de um vulcão em errupção
a gosma deletéria descia, calça abaixo.
Não titubeou, fechou a bainha da mesma, dentro das
meias, segurando a copiosa massa.
Um cheiro terrível, mais forte do que o Tietê em dia
de glória, tomou conta de sua frugal
viatura. Pior, o sinal de falta de combustível havia se manifestado. Isto não
era nada bom, pois o dito quando tocava dizia mesmo é que já havia acabado. E
foi o que aconteceu.
Sorte, estava em uma descida, o carro ainda embalado
e, por mais sorte ainda um posto se avizinhava, à direita, na primeira saída.
Costeou, lenta e inexoravelmente parando em frente à bomba.
O atendente serelepe se aproximou. Ao baixar a janela
quase matou o coitado com uma baforada pútrida. Deu-lhe dez pratas e
recolheu-se a sua insignificância. O rapaz, meio verde, encheu o tanque. O
enxôfre de Belzebú o deixara grogue.
No apê o plano de salvação se delineava sólido.
Lavaria as calças em baixo, no basement.
Tomaria banho, colocaria sua solitária bermuda e enquanto lavava e secava,
limparia o possante. Após, voltaria que nem sir Galahad, e salvaria sua amada.
O processo inteiro se fez mais lento do que havia
suposto. A noite se aprofundava e, com ela, a hora do restaurante fechar.
Por fim terminou. Como um foguete partiu chegando
esbaforido somente para encontrar sua atônita esposa, semi congelada, expulsa,
na rua.
Não sei se mudou seus hábitos. Não acredito que o
tenha feito, afinal a família inteira tem um histórico profícuo nesta área
fecal. Hoje, bem sucedido vive em Brasília. Um bom local para se fazer tais
feitos.
Depois eu conto outra.
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