sábado, 8 de abril de 2017

NUA, EM MÁRMORE


Era tímido. Escondido atrás da timidez havia uma alma pura. Pintava e esculpia.Se perdia em noites mal dormidas sonhando com a obra de arte que o faria memorável.
Por isso prometeu tudo às forças do além. Queria ser um gênio. Daria sua própria alma para criar algo que vivesse mais que sua vida.
Tinha pequenos hábitos. Um deles era de ir até a pracinha central e sentar-se ao lado da fonte. O borbulhar da água inebriava seus sentidos. E lá estava quando ela chegou.
Linda, loira, cabelos longos em tranças bem cuidadas. Vestia um vestido branco. Tecido leve, esvoaçante. Alí estava para buscar um pote d’água.
A tarde era ensolarada, a brisa soprando, fazia de sua veste uma dança sensual. Perdido, embevecido, a contemplava. Seria a musa que serviria de inspiração para sua arte? Entusiasmou-se…
Nos dias subsequentes lá estava, no mesmo horário, no mesmo local. Ela, lhe parecia mais linda do que antes. O sol do entardecer criava transparências em seu vestido. Notou que não usava nada por baixo.
Do entusiamo passou para paixão, e assim, enamorou-se perdidamente. Não tinha coragem de dirigir-lhe a palavra. Restou-lhe então voltar a seu estúdio e tentar retratá-la em  uma peça de mármore carrara. Há dias que já o fazia e, pouco à pouco, surgia sua bela amada, no branco da pedra, quase com vida, de tão bela.
Com ela falava, contava seus casos, declamava seu amor. Com ela se sentia completo. A esculpiu totalmente nua. Via através de suas vestimentas, na transparência de seu corpo, na luz que dela emanava. Viu-a inteira, como se nada a cobrisse. Retratou-a no frio mármore com a vida que ela lhe dava, com a chama de um amor incontido.
Nunca soube seu nome, não era necessário. Completou a obra, quase sem dormir, sem se alimentar. Vivia do amor que achava lhe ter sido dado por ela. E, assim, um belo dia, ao terminar, partiu para a mesma praça com a determinação daqueles que amam, disposto a revelar seus sonhos, a dirigir-lhe a palavra, ouvir sua voz.
A diva de seus sonhos estava mais bela do que nunca. O mesmo vestido, a mesma transparência, a mesma sedução. Inclinada, enchia seu pote quando ele dela se aproximou. Por um breve segundo seus olhares cruzaram. Não disse nada. Pegou-lhe as mãos e a levou até o estúdio. Sem hesitação a bela o seguiu. Havia algo mágico no ar. Nada falaram ao longo do caminho. Ao abrir a porta dise-lhe:
“Bela mulher de meus sonhos, esculpí tua linda figura em mármore frio. Sinto que o calor de tua beleza a fez mais quente, sinto que embora nunca a tenha visto por inteiro conseguí dar a ela suas divinas formas. Perdoe-me se não fui fiel.”
Houve um instante de eternidade. Ela, parada, imóvel, observava a peça com olhos escrutinadores. Lentamente suas mãos se aproximaram do laço de seu vestido e, ao desatá-lo disse:
“Se nunca assim me vistes, tens o direito de agora ver e saber se tua obra me faz justica.”
O vestido ao chão caiu revelando o corpo escultural da diva de seus sonhos. Era tão belo e tão perfeito quanto a estátua que criara. A obra prima que sempre sonhou era real.
A emoção de vê-las ambas, maravilhosas e tão próximas uma da outra foi demais para seu já combalido corpo. As noites não dormidas, a alimentação irregular, a intensidade do momento foram demais para o pobre escultor.
Caiu, morto, a seus pés.
Sua obra, entretanto, viveu além de sua vida. Ele, pagou sua promessa. Morreu feliz, seu sonho realizado.


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