quinta-feira, 20 de abril de 2017

A BELA E O DIVÃ


Comprou um divã…
Tinha acabado de formar-se.
Consultório novo, pintado, arrumado.
O divã era lindo…
Curvas sensuais, couro macio, botões dourados.
Sentou-se, olhou, admirado,
Sentiu-se encantado.

Loira ela era.
Bela, esguia, cabelos longos.
Entrou como a brisa da primavera,
Esvoaçante, como seu vestido transparente,
Curto, seda e renda, cor da pele alva que tinha.
No divã assentou-se…
No divã aninhou-se…

Falou, contou, disse tudo com voz macia.
Que lindos lábios!
Rubros, brilhantes, sedutores.
Olhos de mel,
Exalavam a doçura que vinha de dentro de seu corpo.

O ventilador rodava em volutas lentas,
Levemente seu vestido elevou-se…
E pernas tão lindas se deixaram ver,
Até onde tudo acaba ou começa.


Não sabia o que fazer.
Lhe ensinaram a ouvir somente.
Mas queria balbuciar algo,
Provocar tudo,
Incendiar seu diploma,
Mergulhar no triângulo,
Cuidadosamente aparado, penteado.



Não tinha nada por baixo.
Mas lá havia tudo…
A perdição, amor, paixão, veneno.
Não sabia se fitava …
Lábios, olhos, vértice ?
Teve vertigem…
Empertigou-se.


Ouviu dela histórias de amor.
Ouviu dela que era tântrica.
Sentia prazer em tudo,
À toda hora…
Em qualquer lugar!
Estremeceu…


Seu bloco de notas não tinha nada escrito.
Somente linhas tortas.
Linhas retas.
Linhas soltas,
Soltas como seus pensamentos,
Em um turbilhão de emoções.
A saia subiu mais ainda…
Sua pressão, nem se sabe…
Sabia que tinha de fazer algo.
Mas perdido estava.
Estático…
Trêmulo…
Em êxtase…


Num movimento gracioso,
Suas longas pernas a levaram.
Levaram-na dalí.
Partiu…
O silêncio ruidoso,
De mil sinos à tocarem,
O levaram à um mergulho frenético.


No divã se estatelou.
E nele desmaiou.
Pelo divã se apaixonou…
Por ela…não soube dizer…

Nem sabia o seu nome…




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